Pergunta inocente

Fernando Luiz de Barros Bueno


 "Sanduíche". Escreveu rapidamente a palavra no quadro. Nem por isso a letra deixou de mostrar a sinuosidade elegante que revelava a profissão da dona.
 
 — Quantos fonemas tem esta palavra?

 — Sete, professora — responderam em uníssono os alunos.
 
 — Muito bem! E esta?
 
 Recomeçou a escrever. Nisto, uma voz no fundo da sala disparou a pergunta, que a atingiu covardemente pelas costas.
 
 — Professora, o que quer dizer "meretriz"?
 
 O giz se quebrou no momento em que ela riscava o acento de "pássaro".
 
 — Vamos lá, quantos fonemas?
 
 — Seis — responderam.
 
 Ela se voltou e começou a escrever uma frase.
 
 — Professora...
 
 — O que é, Agripino?
 
 Agripino era o mais tímido de todos os alunos. Vivia escondido no fundo da sala, não abria a boca para nada, ficava vermelho por qualquer coisa. "Também com um nome desses", ela costumava pensar, escandalizada com o gosto infame de certos pais. Pois não é que o Agripino resolvera dar o ar da graça justamente com aquela pergunta. Ele de fato não sabia o que tal palavra significava. Disso ela tinha certeza.
 
 — Eu queria saber o que é meretriz.
 
"Ai, meu Deus", pensou ela, já um tanto ansiosa. Pensou também em "Plebiscito", um dos seus contos prediletos. Ao contrário do personagem do clássico de Arthur de Azevedo, ela, como professora, não tinha como tangenciar a pergunta. Estava em jogo a sua autoridade de mestra. Ainda assim, procurou ganhar tempo, para ver se encontrava uma saída, pois estava plenamente consciente de sua incapacidade para explicar tal palavra, pelo menos nessas condições, sem um mínimo preparo, diante de quarenta alunos inocentes.
 
 — Onde você leu essa palavra, Agripino?
 
 — Não li, não, professora. Falaram ontem na televisão. O que é isso, "meretriz'?
 
 Por um momento, ela pensou que o menino a chamava por esse nome, e uma expressão de raiva contraiu seu rosto com a rapidez de um relâmpago. Pobre Agripino. A essa altura já tinha o rosto tingido de um vermelho dos mais vivos. Ela, por sua vez, sentia uma leve umidade, que, na forma de minúsculas gotas, começava a escorrer axilas abaixo. Resolveu transferir a pergunta para outra área.
 
 — Isabela. — Era a menina mais adiantada da classe. — Você sabe o que é uma bissetriz?
 
 Ela sabia. "Ainda bem", pensou a professora, aliviada.
 
 — É a linha que divide um ângulo em duas partes iguais — respondeu a menina com segurança total. "Será que ela sabia sobre a palavra fatal? Não, não, impossível. Só mesmo o Agripino com aquela besteira."
 
 Ficou surpresa, ao se dar conta da gélida desfaçatez com que conduzia a conversa. Sentiu náuseas. Mas foi em frente, não havia volta.
 
 — Isso mesmo. Pois então: meretriz é a metade de uma bissetriz. Entendeu, Agripino?
 
 — Entendi, professora. Não tinha entendido nada, mas queria se livrar logo daquilo que ele mesmo havia aprontado.
 
 Depois disso, aula prosseguiu aos trancos e barrancos, pois a infeliz professora se tinha dispersado completamente, por causa da resposta dada.
 
 Passou o resto do dia mal e pior dormiu a noite. Refletiu sobre o caso e chegou à terrível e óbvia conclusão de que tinha sido desonesta com seus alunos. Por causa dos seus bloqueios emocionais, da sua sexualidade contida, da sua educação rígida, tinha conspurcado a confiança que suas crianças lhe devotavam, vilipendiado a sua dignidade, aviltado sua profissão.
 
 Maldita meretriz — berrou chorosa na escuridão da noite.
 
 No dia seguinte, entrou em sala admirada com o silêncio dos alunos. Nem bem se sentou:
 
 — Professora, meretriz não é metade de bissetriz, não...
 
 — Quem disse isso, menina?
 
 — O professor Sérgio.
 
 — Você falou com ele?
 
 — Falei.
 
 Ela imaginou perfeitamente o Sérgio, professor de Matemática, rindo-se a valer à sua custa.
 
 — O que ele disse que é?
 
 — Não disse nada, não. Mandou perguntar de novo à senhora.
 
 "Aquele safado", pensou ela.
 
 — Professora, minha mãe diz que vem falar com a senhora na hora da saída.
 
 — A minha também. Ela disse que não está gostando do que a senhora tem ensinado pra nós. Só porque eu perguntei se ela sabia o que era "meretriz"?
 
 — Eu também perguntei pro meu pai.
 
 — Perguntou a seu pai? "Ai, meu Deus!"
 
 — Coitado. Eu acho que ele não sabia: até fingiu que tinha engasgado com um pedaço de frango. Só pra disfarçar.
 
 — Pois o meu, não. Ele disse que, quando era estudante, teve problema com a geratriz, a Beatriz e a meretriz. Depois riu sem parar. Não sei por quê.
 
 — Mas, afinal, professora, se meretriz não é a metade da bissetriz, o que é então? — agora era a Isabela que vinha excruciá-la.
 
 Vencida, desgastada, envergonhada e exausta, resolveu falar claro, com todas as letras:
 
 — Meretriz, crianças, é uma mulher de vida fácil.
 
 — Ah! — suspiraram todos.
 
 Interveio, então, o Agripino ("esse menino ia longe!"), vencendo novamente a timidez e tentando compensar toda aquela confusão:
 
 — Então ela não precisa estudar?!
 
 — Ela não precisa ser professora, Agripino.


Fernando Luiz de Barros Bueno mora em Belo Horizonte (MG). É engenheiro-eletricista, mas trabalha como revisor de textos. Não tem trabalhos publicados.

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