Revivendo

Felipe de Paula

 

Uma noite dessas,
não me lembro qual,
andava pela rua, só,
sem escolher caminho
até que me vi frente à casa
onde vivi os anos médios.
Parei à frente, por alguns minutos,
a perguntar-me o porquê de estar ali.
Afinal, a luz da sala de jantar,
denunciando o translúcido da porta
e uma presença,
aguçou-me o impulso de entrar
o que fiz sem mais demora.
À mesa meu pai me esperava,
convidando-me a sentar.
Quedamo-nos os dois,
a olhar-nos,
silenciosos,
com pequeno sorriso nos lábios.
Ele tinha as mãos sobre a mesa
e de vez em quando,
apanhava uma côdea de pão
e levava-a à boca,
prazerosamente.
Apontei para as cascas
e ele mas deu
como sinal de que havia compreendido
que muito tempo se passara.
E assim ficamos os dois,
calados,
a trocar olhares sem cansaço
até que ele se foi,
sem adeus.
Por algum tempo ali fiquei
a reviver momentos
há muito esquecidos,
até que a despedida da noite
levou-me de volta à rua,
sem olhar para trás,
pois sabia que não era preciso.

(28XII1998)


Carlos
Felipe Morais de Paula é português, veio para o Brasil em 1953, com quatro anos de idade. Reside em Juiz de Fora (MG). Do livro "50 Poemas", edição do autor, 1999, pág. 3, extraímos os versos acima.

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