Traga

Fernando Belo


Trocou as unhas pelo cigarro do marido. Tanto roia as unhas Dona Judith que chegava o sabão a doer na hora do banho. Não bastasse o dedo doído por si só, a cabeça também começou a coçar por falta de uma lavagem eficiente. Somados os reveses, achou por bem trocar de vício.

Tem pavor do cheiro de cigarro a Dona Judith. Do cheiro, mas não do gosto. Descobriu que chupando o cigarro apagado, vinha o gostinho queimado do beijo do marido Seu José. Era como voltar à mocidade macia de outros tempos, em que o difícil era conter o beijo inquieto de Seu José, jovem ainda e sem a alcunha de Seu. Agora, Dona Judith cultiva uma língua solitária, fadada ao consolo de um gostinho.

Mesmo avançado na idade, o marido de Dona Judith dava suas caminhadas noturnas. Saía perfumado, com o cabelo e o colarinho igualmente engomados e um cravo estrelado no peito. As horas passavam e Seu José voltava ao lar pouco antes do Sol revelador nascer. Entrava pé enrugado ante pé enrugado, pensando-se oculto no escuro da sala. Mas Dona Judith, sentada no sofá, chupando seu cigarrinho, reconhecia o marido. Mesmo com os cabelos desgrenhados, o colarinho sujo de batom e o perfume misturado, Dona Judith reconhecia o marido e pensava em que canto desse mundo deveria ter ficado o cravo do peito marital dessa vez.

“De que adianta tanta goma no cabelo?” — e Dona Judith suspirava o seu cigarrinho, soltando uma baforada muda de fadiga.


Fernando Belo é paulistano, nascido em 1984. Formado em Comunicação Social na Escola Superior de Propaganda e Marketing (SP), trabalha como ator e escritor. Escreveu diversas peças de teatro, entre elas a peça "SONO", participante do Festival de Teatro de Curitiba 2008.


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