Dóris

Emerson Wolaniuk



De frente para o velho monitor, começo a escrever outra vez. Quando a bruma leve da noite começa a adensar, meus pensamentos vêm à tona e a inquietude me faz andar de um lado a outro. Como o apartamento é pequeno, andar nele não me leva a lugar algum, então começo a caminhar pelas ideias, pelas cenas que ficam guardadas dentro da mente. Levanto da cadeira e em pé estico o braço até a estante, pego a caixa do óculos. Tiro a flanela, limpo bem as lentes, que insistem em embaçar a cada meia hora, a cada hora e meia.

Dóris repousa no sofá, com sua lingerie preta e seu chinelinho da mesma cor. Fica ali, fitando a tevê, vendo não sei o quê. Dóris é uma bela mulher, pele branca, macia, cabelos bem pretos e quase lisos, se não fossem as ondas que os jogam pelos ombros e pelo decote. Os olhos escuros, quase negros, escondem uma personalidade misteriosa. Haha, olhei pra ela e ela só me responde com um sorriso automático. Deve estar vendo algum filme, entretida.

Gosto de viver aqui. O bairro é bom, a vizinhança é amigável e muito simpática. As esquinas são completadas por padarias e cafés em que me refugio quando quero fumar um cigarro, ouvir a conversa alheia e saborear um expresso. Meu prédio é um prédio um pouco antigo, re-estilizado, com um belo jardim à frente e grandes paredes envidraçadas, que nem vitrines. Não é uma morada luxuosa, mas é aconchegante. Moro aqui há quinze anos mais ou menos.

Quando me mudei para cá, vim sozinho para trabalhar na Capital. Sou dentista. Tenho consultório em um edifício comercial lá no Centro, vou de carro. Tenho um Opala Comodoro azul marinho, ano noventa e um. É um carro antigo, mas é muito confortável, motor de 4.1 litros. Saio da garagem do prédio todos os dias ao som de Queen. No primeiro sinaleiro estou acendendo um cigarro e aumentando o volume. Adoro pegar a Avenida e pisar fundo naquela descida que há depois do segundo sinaleiro. Sou livre. E sei que sou livre quando entro em uma loja e posso comprar o que quiser. Ainda tenho dois cartões de crédito para estourar o limite.

Meu trabalho, ah! Meu trabalho é simples. Faço de olhos fechados e deixo meus pacientes de boca aberta. O que eu mais gosto de fazer? Extrair o terceiro molar, a conhecida cirurgia do siso. “Tirar o dente do juízo” como dizem alguns por aí. Se o juízo ficasse nos dentes, eu faria questão de ser o dentista do Senado, faria implantes de graça até no Sarney.

Bem, a Dóris. Ela não morava aqui comigo quando eu me mudei, ao menos não me lembro de ter dito isso neste texto. Ah, sim, eu minto às vezes. Mentir é como contar uma história que quase aconteceu. É maquiar a realidade, que por vezes é mais chata que a cabeça de um prego. Dóris chegou aqui numa noite de verão, eu estava tomando banho quando bateram à porta. Achei estranho o interfone não ter tocado, mas olhando pelo olho mágico lá estava ela. Recolhi, pedi que se assentasse que eu logo voltaria. Sentou no sofá. Peguei na geladeira duas cervejas e conversamos noite adentro. Quando a bruma leve da noite começa a adensar, meus pensamentos vêm à tona. Dóris jamais me contou sua história, mas não preciso saber de nada. As pessoas mentem de vez em quando para maquiar a realidade. Eu já disse isso? Enfim, Dóris nunca usa maquiagem. Ela não precisa. Sua pele é branca como a luz da lua cheia, com a cera da vela. E ela fica ali, no sofá, sentada.

Fico incomodado em dias assim, que não tenho sono. Que nem hoje: Jantamos, assisti tevê, falei sobre o que eu penso e aí, quando já era hora de dormir, acordei. E estou aqui, desperto. Se bem que amanhã só tenho paciente às oito e vinte, posso acordar sete e meia.

Ainda não contei sobre o Lopes, meu grande amigo. Somos da mesma área, lidamos com saúde. A gente que é do mesmo ramo se entende melhor, sabe. Só que ele é médico. Sempre conversamos. Uma vez por mês vou visitá-lo. Aqui em casa ele veio algumas vezes. “Ô, Dóris, quantas vezes o doutor Lopes veio aqui em casa?” Ah, ela não responde. Sempre que está vendo filme é assim, fica compenetrada. Mas acredito que aqui ele só veio umas duas ou três vezes, e só porque eu estava doente. Quando vou visitá-lo batemos altos papos, conversamos muito. Ele é o tipo de amigo com o qual eu posso me abrir e contar meus segredos. Reclamo da Dóris e ele sempre me diz pra não ligar pra ela. Mas não tem como não ligar. Aquele olhar penetrante e aquele cabelo que lhe toca os peitos me deixam louco. Ainda mais quando ela está de lingerie. E hoje ela está.

Lopes me aconselha muito e me receitou umas vitaminas. Já faz tempo, sabe. Ele diz que fazem bem à mente, ajudam a pensar melhor. Desde que Dóris chegou, eu larguei das vitaminas. E, vejam vocês, meus pensamentos estão muito bem, obrigado. “Não é, Dóris, que desde que você chegou eu não preciso mais de vitaminas?” É, hoje ela não está afim de falar comigo. Mas ela é assim, pelo jeito vai dormir no sofá outra vez. Eu também vou dormir, amanhã tenho paciente às dez.


Emerson Wolaniuk tem 23 anos e é quase médico. A literatura continua fazendo parte da sua vida. Colabora no Jornal Anamnese,  de Curitiba, em uma coluna de crônicas. O Blog "O Y da questão" é um dos seus projetos. Nele  publica seus contos e suas histórias. Seus escritos estão para se transformarem em um livro que será ilustrado e publicado no fim deste ano: “A Epopeia de Zeg e Lui”.

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