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Arnaldo Nogueira Jr


Erika Mayrink Vullu (1967) é mineira de Juiz de Fora, professora de Língua Portuguesa. Tem alguns de seus trabalhos publicados em sítios da Internet.


Trinta e seis

Erika Mayrink Vullu


Noite de segunda-feira. Tento fugir dos clichês literários, mas o tempo me força a usar um deles. Chove lá fora. É aquela chuva fina, primaveril, o que acentua em mim aquele sentimento de angústia que normalmente me acompanha nas noites de domingo. Só que hoje é segunda. Dia de recomeço e não de angústia. Sinto o velho clichê anunciar uma mudança. Parece que ele quer me forçar a ver o que o Jornal da Globo noticia. Cenas de um garimpo na região metropolitana de São Paulo clareiam o meu quarto escuro e trazem a face de uma mulher marcada e sofrida pela pobreza. Perguntada pelo repórter, diz ter trinta e seis anos. "Qual é mesmo a sua idade?", pergunta novamente o homem parecendo não crer no que ouvira. Sim. Trinta e seis. Talvez tenha sido isso o que mais me chocou. Minha idade estampada no rosto de uma mulher que aparentava ser minha mãe.

Seria a pobreza? A busca dolorosa e dolorida por metais para vender a 17 centavos o quilo? Não sei. Apenas sei que não é por falta de cremes, botox, alimentação balanceada, cirurgias, santos remédios para tantas mulheres para quem "pobreza", "luta por dignidade" são apenas expressões isentas de práticos. Seria eu uma delas?

Volta à minha mente a imagem daquela mulher. Essa sensação — estranha, sufocadora — até então eu não tinha ou, pelo menos, não sentia ter. Já me disseram que é a maturidade dos quarenta anunciando uma etapa cheia de questionamentos, dúvidas, revoltas. Será esse o preço da maturidade? Será assim a tal "idade da loba"?

Aquela mulher estaria também passando por esses questionamentos? Seriam significativas para ela tais angústias? Não seriam angústias exclusivas daquelas que estão do outro lado da tevê e longe desses garimpos urbanos? Interrogações, dúvidas, sim e não. Isso tudo, ou nada disso, representam hoje minhas percepções diante das cenas que o mundo insiste em me mostrar. Cenas em que gente — como aquela mulher — existe, vive, persiste, envelhece aos trinta e seis anos e morre, alheia ao sofrimento passivo daqueles que a vêem pelo colorido ilusório da tevê e pelas letras negras dos jornais.


E-Mail: emvullu@terra.com.br

 

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