Trinta e seis
Erika Mayrink Vullu
Noite de segunda-feira. Tento fugir dos clichês literários, mas o tempo me força a usar
um deles. Chove lá fora. É aquela chuva fina, primaveril, o que acentua em mim aquele
sentimento de angústia que normalmente me acompanha nas noites de domingo. Só que hoje
é segunda. Dia de recomeço e não de angústia. Sinto o velho clichê anunciar uma
mudança. Parece que ele quer me forçar a ver o que o Jornal da Globo noticia. Cenas de
um garimpo na região metropolitana de São Paulo clareiam o meu quarto escuro e trazem a
face de uma mulher marcada e sofrida pela pobreza. Perguntada pelo repórter, diz ter
trinta e seis anos. "Qual é mesmo a sua idade?", pergunta novamente o homem
parecendo não crer no que ouvira. Sim. Trinta e seis. Talvez tenha sido isso o que mais
me chocou. Minha idade estampada no rosto de uma mulher que aparentava ser minha mãe.
Seria a pobreza? A busca dolorosa e dolorida por metais para vender a 17 centavos o quilo?
Não sei. Apenas sei que não é por falta de cremes, botox, alimentação balanceada,
cirurgias, santos remédios para tantas mulheres para quem "pobreza", "luta
por dignidade" são apenas expressões isentas de práticos. Seria eu uma delas?
Volta à minha mente a imagem daquela mulher. Essa sensação estranha, sufocadora
até então eu não tinha ou, pelo menos, não sentia ter. Já me disseram que é a
maturidade dos quarenta anunciando uma etapa cheia de questionamentos, dúvidas, revoltas.
Será esse o preço da maturidade? Será assim a tal "idade da loba"?
Aquela mulher estaria também passando por esses questionamentos? Seriam significativas
para ela tais angústias? Não seriam angústias exclusivas daquelas que estão do outro
lado da tevê e longe desses garimpos urbanos? Interrogações, dúvidas, sim e não. Isso
tudo, ou nada disso, representam hoje minhas percepções diante das cenas que o mundo
insiste em me mostrar. Cenas em que gente como aquela mulher existe, vive,
persiste, envelhece aos trinta e seis anos e morre, alheia ao sofrimento passivo daqueles
que a vêem pelo colorido ilusório da tevê e pelas letras negras dos jornais.
E-Mail: emvullu@terra.com.br
|