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Arnaldo Nogueira Jr


Eduardo Calazans  (1953), baiano, dramaturgo e contista, dois livros de contos inéditos e quatro peças de teatro publicadas. Estudou Música, Teatro e Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia.


Luzes que se apagam...

Eduardo Calazans


Quando o pai reuniu a família e anunciou em tom solene: “Vamos comprar uma televisão!”; foi uma explosão de alegria em todo o casarão, um dia de festa. A mãe aplaudia, os filhos trocavam abraços e vivas. O pai não cabia em si de tanto contentamento. Somente Elvis, o filho do meio, como sempre com um pé atrás, não caiu na fuzarca. Quase todos felizes, de fato, com a possibilidade de ver e ter o mundo dentro de casa. “Um cinema dentro de casa!”, enfatizava o pai com orgulho. E depois, como um juiz perante um tribunal, fizera com que todos os jovens jurassem e prometessem ficar em casa. Não seria preciso mais sair à noite, teriam tudo, toda a diversão do mundo no aconchego do lar. Juraram de pés juntos que, se realmente, de fato, ele comprasse o televisor, não mais sairiam de casa.

Palavra de honra! Pudessem aguardar!

Foram dias e dias de ansiedade e espera, ninguém arredou o pé na porta da rua, até mesmo “um cineminha” do qual tanto gostavam, ficou para depois.

Dito e feito. Quando o caminhão de entrega despontou na esquina da Ladeira do Boqueirão, a família e os vizinhos não conseguiram conter tamanha euforia e algazarra, parecia um bloco de carnaval em cortejo.

Nos primeiros dias foi só deslumbramento, meio chuviscado, preto e branco, mas espetacular! Mexe daqui, mexe dali, mexe d’acolá. Botão pra isso, botão pr’aquilo, botão “pr’aquiloutro”. Tudo era novidade. “Capinha para a bichinha ficar bem conservada!”, dizia a mãe com zelo. Nesse tempo os aparelhos duravam para sempre, uma eternidade. Eletrodoméstico era tratado com carinho e deferência.

Todos queriam ligar. Ninguém podia ligar. Somente ele, o patriarca, tinha ciência para controlar tamanha invenção. Se todos mexessem, o “bicho” podia estourar, dar “caroara”. Não, melhor não mexer! Deixassem ele! Era um homem experiente e no mais: Petroleiro. Era o único que poderia pagar o conserto. Não, Ave Maria! Nem pensar em quebrar. Era novinha, estalando. Não, não, duraria uma vida. Tudo naquele casarão era perenal, durava uma vida: o rádio e a radiola eram da Segunda Guerra Mundial, “Da Segunda Guerra!”, repetia o velho com bazófia. Os móveis, os pratos, talheres, era tudo do “Tempo do Onça”.

Todavia, parece que “Há males que vêm para o bem”, como diria o pai sem muita convicção. Uma coisa muito boa aconteceu: livraram-se da “Hora da Ave, Maria” pelo rádio; no crepúsculo o instante da ave-maria era de uma tristeza sem par; primeiro entrava o vozeirão de Augusto Calheiros cantando; “Cai a tarde/ serena/ tristonha...” e depois emendava com a Ave, Maria de Gounod... Se fosse no inverno, então, “Afe Maria!”. Era de uma melancolia que penetrava lá no fundo d’alma. Ao menos desse incômodo a televisão os livrara.

Permaneciam atentos e ávidos frente ao aparelho, muito mais pela engenhoca do que por sua precária programação. O aparelho suscitava em todos a curiosidade e deflagrava calorosas discussões sobre a evolução da humanidade. O irmão mais novo perguntando ao pai, qual das invenções do homem ele achava a mais fabulosa e o pai que até então pensara ser o rádio a maior de todas, ficara titubeante - quando tinha que emitir opinião sobre qualquer novidade parecia pouco à vontade. O irmão mais velho achava o avião a maior de todas as invenções: “Como era que um bicho tão pesado podia voar sem cair?”, perguntava abismado. A mãe, antes, impressionada com o ventilador e o liquidificador, agora, estava maravilhada com a televisão, repetia aérea e estupefata: “um mundo dentro de casa!”. O tio, irmão da mãe, acreditava ser a maior de todas as invenções a escrita, causando frouxos de risos. E com isso divagavam, cada um defendendo o invento preferido.

Entretanto, em meio à tamanha discussão em torno do grande marco para a humanidade como queriam crer, Elvis, por sua vez, parecia reticente, misterioso. Continuava fascinado pelo cinema. Acreditava que a televisão com aquela telinha miúda, dificilmente, iria fazer frente a uma tela Cinemascope e Tecnicolor.

E naquele instante pensava nas coisas boas da Bahia: tomar “Milk-Shake” com “Adão e Eva no paraíso” na Sorveteria “A Cubana”; descer o Elevador Lacerda e andar de Ônibus Elétrico na Cidade Baixa; dar caída no cais de dez metros na feira de “Água de Meninos” e voltar correndo para não perder a matinê de domingo no cinema do bairro.

Lembrara do último encontro com “Mêgêmêfã”, o projetista do Cine Santo Antônio - a melhor sala de projeção da cidade!-, onde, ele e toda a turma assistiam a excelentes filmes europeus, à fina flor do cinema: Fellini, Buñuel, Visconti, Charles Chaplin, Hitchcock, assim como, aos filmes de Brigitte Bardot; às comédias e aos dramalhões mexicanos; às chanchadas da Atlântida, aos primeiros filmes de Glauber Rocha e do Cinema Novo; aos seriados e alguns filmes americanos; aos musicais da “Metro”, ao Gordo e o Magro e a outros tantos faroestes. “Hollywood” ainda não havia dominado de todo o mercado cinematográfico brasileiro.

Tinham entrada livre no cinema, uma vez que, eram amigos do projetista Vilmar Mêgêmêfã - tinha esse apelido porque era fã dos Musicais da “MGM”.

Mêgêmêfã era um artista nato, sabia os filmes de cor e salteado, todas as falas dos artistas, imitava todas as vozes e trejeitos: cantava como Elvis, o xará; andava como Cantinflas e Carlitos; sabia diálogos e cenas inteiras; contava e recriava os filmes com uma riqueza de detalhes que nem mesmo os roteiristas mais tarimbados poderiam imaginar.

Ao findar as sessões, todos se reuniam à porta do cinema, e aí então, começava o verdadeiro show, toda a rapaziada ficava fascinada com as performances artísticas de Mêgêmêfã: imitava com perfeição as vozes do noticiário “Atualidades Francesas”; os rugidos do leão da “Metro”; os duelos dos faroestes, falando inglês com comicidade, e ainda “de quebra”; os volteios de Geny Kelly e Donald O’Connor em “Cantando na chuva”.

Mêgêmêfã era uma das grandes alegrias da cidade, sujeito altruísta, sempre presenteava a todos com pedaços de fitas cinematográficas, os quais durante a semana eles projetavam nas paredes das casas, usando somente uma caixa de sapatos, uma lâmpada e muita criatividade.

Aos domingos, na cidade do Salvador, ainda provinciana, sem grandes atrativos, os jovens o tinham como a grande atração, o espetáculo. Mostrava-lhes um mundo de sonhos e fantasias. Passavam horas a fio apreciando o talento e a espontaneidade do artista. Era muito melhor do que muitas fitas americanas.

E agora, sem quê nem pra quê, toda aquela alegria estava ameaçada...

E foi numa dessas tardes, quando, para desespero de toda a turma, haviam encontrado Mêgêmêfã triste e desolado, na saída do cinema. Temia ele que devido à chegada da televisão, as pessoas deixassem de ir ao cinema, o que para ele seria uma perda irreparável, perderia não só o emprego, como também todo um mundo de sonho que havia construído em volta. O cinema era a sua vida. Sua vida estava em jogo. Todos os sonhos jogados pela janela. Somente o cinema, o circo e a literatura tinham a capacidade de nos fazer sonhar, lamentava resignado Mêgêmêfã.

Odiaram a televisão naquele dia e, por um bom tempo, torceram para que a mesma não desse certo, muito embora se sentissem angustiados, pois, torciam contra o novo xodó da família brasileira.

Contudo, apesar da angustia daquele dia e da solidariedade dos jovens ao verdadeiro artista, no casarão, prosseguiram as animadas conversas em torno do aparelho, em função do seu mau funcionamento e da programação pífia da televisão - desenhos animados, seriados, algumas propagandas, tudo ainda cinza, tudo ainda em videoteipe -, primária e rudimentar.

Somente quando começou a passar a novela “O Direito de Nascer”, as acaloradas discussões foram rareando e os pensamentos fugindo, a mãe só sabia dizer: “É igualzinho à vida real!...” E com isso, o silêncio e o tédio tomaram conta da sala, as pessoas e os diálogos no casarão nunca mais foram os mesmos...


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