Tudo pra você
Eduardo Bas zczyn
Não, não precisa se levantar, não. Você pode ouvir tudo isso aí mesmo, no sofá. E
pode fechar também esse sorriso. Eu não estou de volta. Está ouvindo? Dirigi até aqui,
passei pelo seu porteiro curioso, subi por esse seu elevador cheirando a mofo, pra lhe
dizer exatamente que eu não estou de volta. Que você pode ficar com tudo. Com seu livros
empilhados, com seus discos mal guardados, com suas plantas quase-mortas, por não serem
mais regadas. Você pode ficar com tudo. Com esse seu vaso de flores amarelas de
plástico, empoeiradas pelo que vem dessa janela sempre entreaberta. Pelo que vem com o
cinza dessa cidade imunda. Fique com tudo. Com esse seu apartamento minúsculo. Com essa
caixa de fósforos do décimo sexto andar. Não quero nada. E só achei que deveria saber
que você pode ficar com tudo. Com os meus beijos e com os meus apertos, inclusive. Com os
meus carinhos feitos quando eu, tolo, acreditava que você era o que eu andava precisando.
Só achei que deveria saber que esta é a última vez que me viu por aquele olho-mágico
da porta, antes de me espiar por ele, de costas, indo embora, de uma vez por todas, por
aquele corredor com marcas de mãos pretas pelas paredes. Achei que precisava lhe avisar
que não quero mais nada. Que você precisava saber que esta é a última vez que estou
pisando nesse seu carpete desfiado. Olhando para todo esse caos, que um dia chegamos a
chamar de paraíso. Não, não precisa se levantar, não. Você pode ouvir tudo isso aí,
com essa bunda grudada no sofá. Eu só passei mesmo pra dizer que não quero nada de
volta. Nem aqueles beijos todos. Poderia fazer com que cuspisse um por um, agora mesmo, de
joelhos sobre o tapete. Mas eles não vão me fazer falta. E eu estou meio com pressa. Me
desculpe, mas eu só passei por aqui realmente pra avisar que não, eu não estou de
volta.
Eduardo Baszczyn (1976), é jornalista, e mora em São Paulo. Teve um de
seus textos escolhido como o melhor post de blogs brasileiros em 2003, pela Revista
Seleções. É um dos autores da revista literária "Puçanga".
"Desamores", seu primeiro romance, editado em 2007 pela 7Letras, foi finalista
do Prêmio Sesc de Literatura 2004.
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