Culpa
Débora Lázaro de Almeida
“Vai ser rápido. Dói menos que uma cólica forte”. Falou o médico, enquanto
pedia para ajustar meu corpo na maca. Cheguei-o bem para frente e as pernas
se encaixaram perfeitamente naqueles braços gelados de metal. Uma de cada
lado, ele ao meio, concentrado. “Não se mexe”, falou com um tom mais sério,
enquanto enfiava um tubo estranho dentro de mim. Meus olhos fixos no teto,
as mãos suadas apertavam com força uma outra mão amiga. “Ele não quis vir”
murmurei olhando dentro dos olhos dela. Olhos cúmplices que me entendiam.
“Vou começar”, nos interrompeu o homem do jaleco branco. Tremi. Não porque o
quarto era gelado. Mas por temer ser um monstro, um demônio, uma assassina.
O pior de tudo foi que ele (o do jaleco) mentiu: aquilo doía muito mais que
uma cólica forte. Parecia que todos os meus órgãos estavam saindo por aquela
fina cânula. E também, como num compasso, os meus sonhos maternos, as
brincadeiras de “casinha” onde sempre era a mãe, o olhar de ternura pros
bebês dos outros que queria carregar, sentindo-os meus. Previamente meus.
Compreendi bem cedo que toda mulher é mãe ao nascer, sem nem saber. Mas era
tarde. Ouvia o som da máquina — trituradora de pedaços humanos
ensangüentados — fazendo seu trabalho. E a culpa, culpa, culpa latejando,
pulsando, gritando que aqueles pedacinhos humanos que seriam jogados fora
daqui a nada, poderiam um dia dizer “mamãe” e me arrancar sorrisos patéticos
de pais. Podia ser um médico, engenheiro, advogado, escritor, poeta, podia
não ser nada disso e mesmo assim ser tudo, para mim. Mas eu não quis. E me
espantaram as palavras secas do médico ao findar o serviço que o enriquecia:
“Pronto. Você voltou a ser como antes”. Eu olhei e não vi ninguém. Mas ainda
assim falei: “Eu nunca mais vou ser como antes”. Ele, retornando o olhar em
mim, respondeu espremendo ferinamente o olho esquerdo: “Não exagere. Se
cuide para não precisar voltar. Porque a maioria volta”. Ouvindo isso,
pasma, vi naquele bicho qualquer coisa que lembrava o Frankenstein. Ou quem
sabe um escarro, pus, secreção, casca de ferida seca que a gente arranca com
o dedo, um espelho, eu mesma. Falar isso é um absurdo, pensei. E, um ano
depois, voltei.
Débora
Lázaro de Almeida estuda psicologia mas o seu amor chama-se
“Literatura”. Para tentar tocá-la recita poesias e, sempre que pode,
participa de oficinas literárias. Foi em uma delas que escreveu esse
pequeno texto, ainda não publicado, que ora divide conosco.
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