455 - Méier Copacabana

Darcy Ribeiro da Cruz


Entrei no ônibus. Após resistir à tentativa do motorista em me tornar tetraplégico, tamanha a arrancada que imprimiu ao veículo, projetando minha cabeça em sucessivos contragolpes, consegui sentar-me incólume. Eu e minha valiosa mochila. Olhei as nucas dos passageiros. Ninguém se dignou a perceber minha presença. Acomodado ao lado da janela, comecei a observar: à direita, encravadas no morro, prateleiras de barracos, que se superpunham. À esquerda, prédios e pequenos edifícios acinzentados. Avenida Marechal Rondon. Estava na altura do Engenho Novo. Ali me criara. A rua Bolívia de minha infância chegou à minha memória com seus cheiros, seus ruídos e seus silêncios. Era uma ladeira íngreme, muito difícil para os veículos subirem, imaginem para nós moradores. Aqueles poucos, que na ocasião tinham carro, se gabavam: "subi sem precisar engatar a primeira". Quem subia a pé, principalmente os mais velhos, ziguezagueavam nas calçadas largas para facilitar o acesso. Muros altíssimos, como castelos medievais, erguiam-se a cada lado. De suas pedras limosas emergiam avencas, outras samambaias e pequenos pés de fícus implantados pelos pássaros. Os enormes blocos quadrados eram tão bem encaixados que pareciam não precisar de argamassa para mantê-los unidos. Assim também os paralelepípedos no leito da rua, tão harmoniosamente colocados que as enxurradas de então, não conseguiam desalinhá-los. As águas das chuvas corriam disciplinadamente nos devidos lugares, ou seja, nas sarjetas. Grandes árvores debruçavam-se por sobre os muros, lá em cima, fazendo sombras aconchegantes. Línguas de água brotavam como minas nas bases das muretas, refrescando ainda mais as calçadas. Diziam ser o local o antigo morro do Vintém. A última vez que vi a Bolívia, ela estava asfaltada. Aqui e ali, feridas enormes, devido às chuvas que deslocaram algumas placas do asfalto, deixavam ver o antigo calçamento ainda intato.

Consegui ver a imagem do Cristo Trabalhador que sobressaía acima dos telhados. Martelo na mão e uma bigorna que aguardava o terrível impacto que nunca se concretizava, congelado na imobilidade do concreto. Ali estava a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Padre Alexandre Língua — sim, Língua mesmo — que idealizara a obra. Passaram em minha mente as visitas anuais de João Goulart, o Jango, à igreja, sempre no primeiro dia de maio — Dia do Trabalho. O ônibus, entremeando freadas bruscas e arrancadas, prosseguia com uma conversa aos berros, entre o motorista e a trocadora. Ainda no Engenho Novo, lembrei-me da viagem retrospectiva de Dom Casmurro a caminho de casa, viajando num trem. Só mais tarde vim perguntar: onde moraria o famoso personagem de Machado de Assis? Seria perto de minha casa, num daqueles imensos casarões que ainda existiam no meu tempo de criança? Quando passamos pelo Riachuelo, não pude deixar de lembrar do colégio Lutécia, onde estudei. Lá na rua 24 de Maio, eu não estava vendo, mas sabia que corria à minha esquerda, encoberta pelo casario. O colégio também um casarão antigo, provavelmente hoje demolido. Rocha. Logo depois São Francisco Xavier. O ônibus desembocava onde fora o Largo de São Francisco Xavier, com sua linda cúpula sinuosa que protegia os passageiros de bonde. A boca de um túnel, que emergia ali, levava à estação do trem. Belíssimas construções hoje desativadas. Tudo aquilo batia sem dó nem piedade na minha memória.

O telefone celular despertou-me. E aí, cara, você vem ou não vem? Murmurei algo como: estou indo. Vê se não enche.

Rua Barata Ribeiro, altura de Prado Júnior. Saltei. Do outra lado, o Cervantes. Vontade de saborear um sanduíche de pernil ou lombinho. Vai com abacaxi? Chope? Claro ou escuro? Caldeireta, Schinit (é assim que se escreve? Nunca soube ao certo), garoto? Não, agora não dá. Novamente desenrola-se na minha mente. Lá está o beco da fome, o antigo aglomerado de pés sujos. A sopa da madrugada. O "primo" árabe, com seus quibes. Na esquina da Viveiros de Castro, a farmácia Dia e Noite. Lá na ponta, quase na praia, a boate Erótica, mergulhando no solo: mulheres, sonhos esvoaçando minha cabeça. Olho de soslaio e vejo David Neves, o cineasta, buliçoso pardal que sempre andava por ali, só parando contemplativo em sua eterna vigilância diante da livraria do cinema Um. O eterno síndico da rua, Clóvis Bornay, envolto em mágicas lantejoulas, surgia como me acenando.

Tudo isso me chegava, antes de subir pela última vez — assim eu o esperava. Cinqüentão, será que ainda dá para recomeçar? Vou pagar para ver. Aquilo era como um jogo de pôquer: quem está dentro não sai. Mas vou tentar assim mesmo, tenho alguns trunfos na manga. Vou carregar uma espada de Dêmocles, sobre meu pescoço. Lembrei-me de um colega pernóstico, claro só podia ser advogado que, volta e meia, empregava a expressão. Toda minha vida, dentro de poucos minutos, vai ser assim. Vou tentar, acho até que consigo sair sem seqüelas. Veremos.

Subi na geringonça que chamavam de elevador. O bicho estalava e gemia, varando os andares sórdidos do prédio quase aos escombros. Quando entrei, pressenti olhos me espreitando em cada canto. Era sempre assim, já estava acostumado. Mantive-me frio. Fui recebido com um porra cara, só agora? Onde você estava metido? Não respondi. Olhei para o sujeito à minha frente. Uma barba aparada como grama de um parque inglês, totalmente deslocada do restante que compunha a figura. Camiseta encardida, braços flácidos, pêlos ora brancos, ora pretos, indisciplinados que emergiam de todos os lados do corpanzil. A mesa de centro baixa, com restos de comida: azeitonas espetadas em palitos, misturadas com fatias de salaminho. Restos de bebidas em copos. Não pude evitar de comparar aqueles olhos que me fitavam com as azeitonas. Eram da mesma cor. Se eu pudesse vará-los com os palitos, ficariam iguais a elas. Olha, bicho, toma. E tem mais, estou pulando fora. Talvez seja a última vez. Joguei o pacote na mesa. Os olhos de azeitona olhavam para mim e para o embrulho alternadamente. Tá bem, como você quiser. Depois não quero choro. Tive vontade de dar um soco na mesa e ver tudo voar. Tudo aquilo pairando no ar, enchendo aquele pardieiro de uma nuvem de pó branco. Nossos rostos flutuando junto com azeitonas e salaminhos, em câmera lenta, como no cinema. Mas não o fiz. Falei: e olha, nada de crocodilagem, você sabe o que pode acontecer, certo? Deixei os olhos rolando na sala por cima de uma boca retorcida — sorria zombeteira, ou um esgar de medo? Desci. Meu peito começava a chiar. Minha asma reclamava. Aspirei a bombinha. Já na Barata Ribeiro, farejei o vento como fazem os gatos. Chegava da praia um ar com gosto salobro.


Darcy Ribeiro da Cruz é médico do Ministério da Saúde na cidade do Rio de Janeiro. Anos atrás foi um dos vencedores do Concurso Banco Real — Talentos da Maturidade. Agora, com o conto acima, recebeu o prêmio de Menção Honrosa no 12º Concurso Literário do Servidor Público do Estado do Rio de Janeiro promovido pela Secretaria de Estado de Administração e Reestrutura / Fundação Escola de Serviço Público do Rio de Janeiro.

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