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Arnaldo Nogueira Jr


Cármen Rocha  é paulistana. Contista, cronista, poeta, jornalista e professora de línguas e literaturas. Especializada em educação infantil, é autora e diretora teatral. Pertence à SBAT; à UBE, e à Academia Santarritense de Letras. É fundadora do "Projeto Cultural Cármen Rocha" (1998).


Tão miúda!

Cármen Rocha


— Sonsa! — a mãe ouve ao longe... Falas. Risos. Estremece...

A criança nasceu assim, de repente. Sete meses. Aquele corpinho... Tão frágil... Tão miúda! Difícil de pegar, manusear... A respiração difícil...

Custoso mesmo foi o banho!

O irmãozinho fez-se nenê novamente. Fazia manha. A irmã enciumada trouxe todas as bonequinhas de seus bercinhos. Todas pequeninas como a recém-nascida minúscula. Colocou-as uma a uma em cada gaveta da delicada camiseira, com singelo desenho floral cor-de-rosa, do quarto da nenê pequenina. Três em cada. No meio da roupa. Abre e fecha. Troca a fraldinha... Dobra o xale. Cobre e cobre e cobre... Recusa-se a deixar o quarto. Grudada.

Beijinhos no caçula e consolo. As primas saem.

Cabelos pretos roçando a face. A empregada nova zanzando de lá para cá. Cansada. Suava. Arruma, arruma, serve, carrega...resmunga...

Chega a tia.

— Está bem, lavar a pequerrucha. Tão frágil! Olha a pequenina — corpinho miúdo! Sem forças. E a roupinha? Traga a banheirinha, criatura! Traga o que o doutor recomendou! A espuminha suave. Pegue a água... Coloque tudo dentro. Está fervendo! — falou alto. Esfrie, criatura! Espere... não assim... Lígia traga a roupinha!

O velho, velho! Encurvado. Quieto. Imóvel. Sentado. Pernas frouxamente cruzadas. Estranho. Assistia a tudo do corredor, pelo pequeno vão da porta do quarto. Fechava um olho para ver melhor. O outro lacrimejava. Logo passava o lenço e espiava rapidamente. Não queria perder nada, nada...

— Cadê a toalha? Corra, sua ... — a moça enervada.

A cabeça dói. E pesa. A mãe pára atordoada. Apóia-se na madeira da porta. Fraca, fraca. Aperta com força de encontro ao peito a criaturinha suada e fétida. O xale resvala. Sai do quarto. Caminha. Respira fundo... respira... recostada à porta aberta da varanda. O vento... Caminha.

— Não! Não! Na varanda do apartamento, não! Aqui só as plantas...

A caixa de cimento não é para banheira, é para plantas. É perigosa, é funda — explica. Na área faz frio. Venta. O apartamento é alto. Olhe lá embaixo... A rua lá embaixo. Tudo pequeno... Pode cair — Arrepio! — A caixa quadrangular de cimento está muito na beirada. A área é fria! — toma a criança. Afasta-se rapidamente.

— Mas... mas... - respira. A mãe faz que não com a cabeça. Estica os braços em desespero. Confusa! Confusa!

Seguem para o quarto.

A mãe atrás da criança, trôpega.

Risadas. Pessoas entram e saem. Cumprimentos. Beijos.

Chega a visita. É amiga. Quer ver a pequerrucha. Onde está a criança?

No corredor, o movimento. Passa... Volta... Torna a passar...

O velho semi-ergue o corpo, apoiado em uma perna só. A outra está dobrada sob ele e serve para torná-lo mais alto. Espia pelo vão da porta. Enxuga o olho aguado. Firma a vista.

— Onde está a menina? A recém-nascida minúscula? Tão fraquinha... Onde está? — ouve-se a pergunta.

Confusão. Pessoas para lá e para cá. O apartamento cheio. As risadas dos homens comemoram. As mulheres riem, trocam cuidados, receitas...

A irmãzinha abre e fecha as gavetas... Não perde nada. Tantas bonecas para cuidar... A loirinha... a moreninha... o bebê... Brinca. Olha. Não tira os olhos dos acontecimentos. Reservada. Cobre e cobre. Várias fraldas. Só mais um cobertorzinho. Está tão frio! Entra a priminha — ciumenta, de costas semi-fecha a primeira gaveta suavemente, e a segunda, e a ...

Pessoas no corredor continuam a passar, a conversar, a rir...

O cheiro bom do café.

A cunhada passa com a bandeja.

A tia aflita exige a criança. A prima se aborrece. Larga a xícara.

— Não, não tomou banho...

— Ainda?

— A água esfriou?

— Um pouquinho.

A mão direita, trêmula, procura no fundo. A água delicada, espumante e cremosa — como o doutor mandara — da pequenina banheira não escondia o corpinho miúdo.

— Tragam a filhinha... vocês...

A mãe atordoada, atordoada. Escora-se na porta. Transpira.

A garota da vizinha chegou, quer brincar com as bonecas. A irmã deixa. Só as de cima. Fica de olho.

Espia. Curiosa. Pega. Abre e fecha com força a gaveta... Pam! Barulho.

O velho mudo se remexe na cadeira.

A mãe tampa os ouvidos. Enlouquecida. Nervosa. Empurra forte a vizinha porta afora e fecha o quarto. Sem ar, arfando... O suor molha sua testa.

A visita acode. Desencosta a porta. Fala suavemente:

— Não faça isso... É criança. Calma, querida!

— Mas... mas... — balbucia a mãe, os olhos escurecendo. Encolhe-se. Todos riem. Estremece.

O velho agoniado encolhe a perna para dar passagem. Fica quase em pé. Atento.

Todos procuram.

— O banho esfriou... — resmunga a empregada.

A irmãzinha fica olhando com um sorriso frouxo nos lábios, disfarçando a boca com a mão direita. Sua mão esquerda, por trás, empurra e vai fechando suavemente a gaveta de baixo, até o fim... Discretamente...

O velho inclina-se e torna a espiar. O olho lacrimeja. Passa o lenço. Fica inquieto.

A nenê! Não está em lugar nenhum! — grita a tia.

A mãe escorrega lentamente até o chão. Amontoa.

— Onde está o corpinho miúdo? — alguém balbucia.


E-Mail: carmenrochacontos@uol.com.br

 

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