Missa fúnebre
Constanze Mozart
Com licença, mas esse caso eu preciso contar...
Pois não?
Sabe como é, né? Fila de banco é fogo. Minha língua arde. Preciso falar
alguma coisa.
Entendo, entendo.
Obrigado. A vida é estranha, o senhor deve saber como é, certo? É
esquisito. Numa hora estamos aqui, na fila de um banco, esperando o pagamento, no outro,
estamos dentro de um caixão, sendo pranteados. Olhe como é estranho: meu pai morreu faz
uns doze anos e nunca fomos visitar seu túmulo.
Que coisa.
Pois é. E não pense, por favor, que somos filhos desnaturados. Não é
isso. É que o cemitério fica tão longe...duas quadras, na verdade. Mas a preguiça
mata. Tanto que meu pai morreu e nós herdamos esse mal. Somos em oito. Oito homens
preguiçosos e só um se casou.
Sei, sei.
E esse que casou é o primogênito. Teve um filho que tinha sete anos quando
meu pai morreu. É engraçado, sabe? Hoje o menino tem dezenove anos e, no ano passado,
quis de aniversário uma coisa esquisita.
O quê?
Lavar, limpar e pintar o túmulo de meu pai. É a vida. Achamos que papai
tivesse tomado posse do meu sobrinho exigindo a limpeza de seu túmulo.
Nossa.
Pois é. E fomos, eu e meu sobrinho, lavar, limpar e pintar o túmulo do
falecido. Nunca tinha entrado no cemitério, nem meu sobrinho. Localizamos o túmulo e,
enquanto eu lavava, limpava e pintava, André soprava as velas que estavam em cima do
outro túmulo. Até que a boca dele entortou. Deu derrame.
Puxa.
Puxa? Isso não é nada. Mesmo com a boca torta, ele ajudou a limpar o
túmulo. Sabe o que é limpar um túmulo que há doze anos não era limpo? Quase morri e
me enterrei ali mesmo. Tá vendo a minha boca torta? Também entortou no cemitério.
Você também assoprou as velinhas?
Não. Pintei o túmulo errado.
Constanze Mozart (1983), também conhecida por Srta. Stanzi, é natural de
Campinas (SP) e jura que nunca teve uma publicação em jornal, revista ou qualquer
veículo que valha, pois nunca tentou algo desse tipo. É, segundo afirma, uma escritora
frustrada. Cursa publicidade e propaganda na ESPM / ESAMC e realiza
paralelamente seus estudos de piano com afinco, para, talvez, chutar a futilidade da
propaganda e cair de dedos no incrível e maravilhoso mundo musical. Diz ser "dona de
boletins subversivos e redatora oficial de minha turma de faculdade, conhecida por ser
irônica e hilária quando me convém, porque quando não me convém sou uma verdadeira
mala e acabo escrevendo coisas que só eu entendo.". Apaixonada pelo escritor
colombiano Gabriel Garcia Márquez, é tricampeã na leitura de Cem Anos de Solidão tem
verdadeiras crises de histeria quando ouve seu nome. Por ser muito tímida, prefere não
revelar o nome verdadeiro e usar um pseudônimo.
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