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Arnaldo Nogueira Jr


Zé Oliboni (Clauser Oliboni Voltaine), nasceu na cidade de Jaú (SP), em 1982.  Reside em São Paulo, capital, onde estuda Matemática. Segundo ele, é um "aspirante a escritor e cartunista". Não tem livros publicados.


Viúvos

Zé Oliboni


"Quem vai contar para ele?" — Marcelo perguntou tentando se esgueirar do fardo.

"Você, é claro." — Marta respondeu como uma ordem.

"Por que eu?” •

"Ora, ele é seu pai."

"Mas ele te considera como uma filha."

"Eu estou muito abalada, não vou conseguir contar."

Eles olharam para o chão e depois a sua volta. O hospital estava deserto. O velho relógio movia-se cansado marcando quatro da manhã. Mas ninguém estava na sala de espera além deles. Mas já não tinham mais por quem esperar. Marcelo estava abatido, passara a noite no hospital para que seu pai pudesse dormir algumas horas. Sua camisa amarrotada para fora da calça já viu dias melhores. Do seu bolso está pendente uma ponta de gravata que ele tirara assim que saíra do trabalho as pressas. Marta não estava melhor. Olhos cansados, cabelo desfeito e a maquiagem muito borrada pelas lágrimas. Aquilo não podia acontecer, eles eram jovens de mais, tudo bem que já alcançavam seus trinta anos, mas ainda eram jovens demais para terem esses sofrimentos. Marcelo interrompeu o silêncio entre eles numa tentativa frustrada de se livrar do cargo de portador de más notícias.

"Eu contei para ele quando minha mãe morreu, agora é sua vez.”

"Eu não te conhecia naquela época. Além do que, isso só quer dizer que você sabe melhor do que eu o que fazer."

"Quem contou a seu pai quando sua mãe morreu?"

"Ele estava lá, ele que me contou, eu apenas chorei com ele."

"O que nos vamos fazer. Ele não sabe viver sozinho."

"Eu sei, eu fiquei impressionado com a rapidez que ele substituiu sua mãe."

"Ele não a substituiu, ele só não queria viver o resto de sua vida sozinho."

"Eu não entendo isso, eu viveria o resto da minha vida sozinha."

"Pode até ser, mas ele é de outra época, não suportaria o abandono, além do que, eu achei uma boa solução."

"É, foi diferente. Mas bom para ambos."

Ele se levantou, já que não poderia escapar daquela missão queria informar o pai antes dele sair de casa. Ela decidiu ficar mais um pouco no hospital, para acertar os papéis e ir mais calma para casa.

A velha casa onde seu pai vivera os últimos 42 anos estava com as luzes acesas. Certamente ele estiva acordado. Deve ter tentado fazer um café se queimado e resolvido que já era ora de voltar para o hospital. Quando o filho entra pela porta ele já sabe de tudo. Só precisam se olhar para que a mensagem seja transmitida. Marcelo chora pela primeira vez desde de que soube e abraça seu pai. Roberval realmente estava pronto para sair, apesar de uma pequena mancha em sua camisa, estava vestido apropriadamente para ir ao hospital. Ele abraçou o filho e choraram juntos.

Quando se acalmaram se sentaram no sofá. Roberval queria alguns detalhes, ele tinha esse direito após os últimos anos de convivência juntos.

"O que aconteceu?” •

"O coração parou."

"Eu disse para cortamos as carnes e gorduras dessa casa, mas nunca sou ouvido."

"Foi a idade, o coração já estava fraco, não havia nada que pudéssemos fazer."

"Nós sempre pensamos que seria a próstata."

"É, mas o coração parou primeiro."

"Eu preferia que o meu tivesse sido o primeiro."

"Deixe de ser egoísta."

"Eu sei, mas como viverei sozinho."

"Dá-se um jeito. Eu moro perto e Marta vai querer te ajudar, ela se afeiçoou ao senhor."

"Eu sei, ela é uma ótima garota, vocês deveriam ficar juntos, formam um ótimo casal." — Roberval disse olhando esperançoso para o filho.

"Você sabe que não daria certo.” •

"Porque você não quer. Ela gosta de você."

"Pai, estávamos falando da sua vida sentimental e não da minha."

"Tudo bem, eu sei como aquela menina Elisa te afetou, aliás, eu li o seu livro, muito bonito, Clara realmente lembra ela, foi uma bela homenagem filho."

"Então pai, se você sabe, porque não me deixa em paz e vai colocar o seu terno preto." — Marcelo fala enquanto procura o terno que fica guardado no closet da sala.

"Tinha me esquecido disso. Marta está cuidando do velório?" — Roberval demonstra preocupação, mas está imóvel, talvez ainda não seja capaz de assimilar todos os fatos.

"Ela ia acertar isso e depois ia descansar."

"Ela é realmente uma ótima menina."

"Eu sei pai, nós sempre nos vemos." — Ele disse antes que tivesse que ouvir um sermão.

"Você não pode viver do passado. Você errou com Eliza, tudo bem, mas ela já está morta e enterrada. Ela não iria querer te ver assim.” •

"Pai, respeite minhas decisões e minha solidão, não é minha culpa eu não ser como você."

"O que você quer dizer com isso?" — O pai não levantou, mas demonstrou que estava contrariado.

"Você sabe o que eu quero dizer. Não é porque quando a mamãe morreu você trouxe a primeira pessoa que achou na rua para casa que eu deva fazer o mesmo.” •

Roberval se levantou, não poderia ser afrontado por seus hábitos em sua própria casa. Ele se dirigiu para o filho com o dedo em riste.

"Você sabe muito bem que não foi isso. Eu e Vitor somos amigos há anos. Quando sua mãe morreu, ele me apoiou muito. Como não fazia sentido vivermos sozinhos o convidei para mudar para casa."

"Eu sei disso. Eu e a Marta achamos muito conveniente nossos pais viverem juntos. Facilitou nossas vidas e os nossos cuidados para com vocês, mas você tem que admitir que foi meio repentino."

"Eu sei, mas nós nos damos ... dávamos bem. Ele cuidava de mim e eu dele. A gente se ama." — Toda firmeza do velho se desmanchou. Ele começava a entender que estava sozinho, dali para frente seria só ele. Como seu amigo poderia ter lhe abandonado. Depois de anos juntos dividindo as pequenas tarefas, ouvido um do outro as mesmas velhas histórias, como ele poderia
viver sem Vitor.

Marcelo ajudou o pai com o paletó. Sabia como aquela morte o afetava. Desde que Vitor mudou para aquela casa ocupando seu antigo quarto ele sabia como os dois se gostavam. Não que seu pai fosse gay nem nada. Eles só eram de uma época em que uma forte amizade entre dois homens, praticamente um amor entre eles não representava uma maliciosa feminilidade. Muito pelo contrário, a fidelidade entre as amizades masculinas da época de seu pai era impressionante. Talvez poucos casais se entendessem tão bem como aqueles dois homens. O enterro foi triste como deveria ser. Marta chorava por seu pai. Roberval chorava por seu amigo. Marcelo chorava, não sabia se para acompanhar a tristeza de todos, afinal nunca chegou a se tornar muito próximo de Vitor, mas aquela situação o entristecia. Ele sabia como era ruim perder alguém. Não conseguia entender como seu pai passara por aquilo duas vezes. O mais importante, ele não entendia como seu pai, mesmo perdendo tudo o que dava centro para sua vida duas vezes, insistia com ele para que amasse novamente. Talvez aquela frase estivesse certa. "Amar e perder é melhor do que nunca ter amado". Ele não estava certo disso, mas Marta lhe parecia diferente agora. Muito mais frágil, dependente, assim como ele.


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