Souvenir
Cozete
Gelli
A coisa toda começou quase que por acaso, em Buenos Aires. Eu estava na feira de San
Telmo, e tinha apenas uma hora para voltar à Recoleta, fechar a conta do hotel e ir para
o aeroporto. Tinha já comprado várias lembrancinhas para amigos e familiares, mas o fato
é que não havia encontrado nada para mim. Ou melhor, havia encontrado uma pulseira
antiga, chinesa, de laca preta com pequenos elos de ouro, mas o preço estava acima do que
eu podia pagar, mesmo após exaustivas negociações com o vendedor, severamente
prejudicadas por meu espanhol canhestro.
Não havendo muito tempo, acabei comprando uma pequena caixa de porcelana antiga, uma
espécie de porta-jóias em miniatura, branca com pequenas flores arroxeadas a decorar sua
tampa. Nas laterais havia incrustada uma moldura rendada em latão, muito delicada e
pequenina.
Até bonitinha era a peça. Não era a pulseira que eu queria, mas servia como lembrança
de minha estada na cidade. Poderia ter sido qualquer outra coisa, mas foi a caixinha.
Marília veio me visitar duas semanas depois. Mostrei as fotos, rimos juntas quando contei
sobre minha vontade de aprender tango, tomamos café, comemos bolo, e foi só no momento
de se despedir que minha amiga reparou na pequena peça.
Meu aniversário, meses depois, o quinto de minha gravidez de risco. Eu era toda feita de
nervos, hormônios, inchaços e lágrimas. Marília me deu outra caixinha, esta redonda,
também de porcelana, também com pinturas primaveris a decorar a tampa. Ao abraçar forte
minha amiga de infância, chorei. Chorava por tudo naqueles dias. Mas Marília supôs que
meu choro fosse de emoção, amplificada pela emoção do presente.
Ficaram ali as peças, sobre a mesinha no hall de entrada. Quando Marília vinha, sempre
falava alguma coisa a respeito, portanto acabei as deixando lá, à vista dos
comentários.
O bebê era ainda pequeno quando Marcos viajou para a Europa. Talvez porque meus
hormônios ainda estivessem confusos, talvez por insegurança, pelo fato de estar muito
acima do peso, eu ainda chorava. O bebê também chorava muito, eu dormia pouco, e por
isso chorava ainda mais.
Nos onze dias em que estive sozinha, vi crescer um ciúme que nunca sentira. Imaginava que
Marcos jamais voltaria, que tinha outra, que de uma hora para outra receberia uma mensagem
de abandono, ou a notícia da queda de um avião.
Fui tomada de uma alegria absurda quando voltou, me abraçou e disse que sentira também
minha falta. E cheguei a ficar feliz quando tirou da mala três pequenos pacotes, que
escolhera cuidadosamente entre um compromisso e outro. Três caixinhas de porcelana,
compradas em três países diferentes: Itália, França e Inglaterra.
Cheguei a pensar que poderia ter comprado perfumes, chocolates, uma lingerie sensual para
quando eu voltasse ao meu peso, mas o fato de Marcos ter se preocupado em escolher algo
que julgava me fazer feliz, naquele momento, foi o bastante.
Tinha agora um quinteto, a agrupar-se na mesinha do hall. Mas a coisa foi tomando
proporções perigosas. Fosse aniversário, Natal, dia das mães, lá vinham amigos e
familiares com suas caixinhas de porcelana. Porque todos esperavam que eu gostasse, eu
demonstrava gostar.
Como dizer que não era bem isso, como esclarecer o mal-entendido, sem correr o risco de
magoar pessoas que evidentemente tentavam me fazer feliz?
Uma vez Marcos convidou um colega do escritório e sua jovem noiva para jantarem conosco.
Trouxeram uma garrafa de vinho para ele e uma caixinha para mim. Sendo todos advogados, a
conversa transcorreu por caminhos profissionais aos quais eu não tinha acesso. Fiquei
quieta num canto, imaginando o que Marcos havia dito para eles. Uma fúria silenciosa foi
crescendo dentro de mim. Para eles, eu não tinha nome, não tinha vida, não tinha
personalidade, tinha apenas uma coleção de caixinhas de porcelana.
No Natal daquele ano, minha irmã e minha mãe se juntaram para comprar uma caixinha que
viram num antiquário, caríssima, diziam...
E quando vinham pessoas, eu antes já me esmerava limpando, polindo e arrumando minha já
vultuosa coleção. E todos paravam, admiravam, faziam perguntas sobre sua origem,
comparavam as pinturas, perguntavam a idade das peças, como se tivessem vida.
E tinha sempre que contar quantas eram, pois sempre alguém perguntava: Quantas
você já tem?
Trinta e oito. Quarenta e três. Cinqüenta e
nove. Meu ódio secreto foi sendo alimentado aos poucos, peça por peça, data por
data.
Em minhas mais loucas fantasias, me via destruindo as miniaturas a marretadas, atirando-as
janela abaixo, quinze andares, as pinturinhas primaveris, as princesinhas segurando
pombinhas, as bordinhas douradas, tudo se espatifando em caquinhos no concreto frio do
calçamento embaixo.
Novamente aniversário e minha prima chegou com flores. Um grande maço de rosas amarelas.
Ironicamente, me senti traída. Estava preparada para odiá-la um pouquinho mais. Será
que ela simplesmente não tinha lembrado do meu aniversário, e só trouxera flores de
última hora? Será que eu não valia mais a procura por um modelo diferente? Que fizera
eu para desmerecer um presente que todos sabiam que eu gostava?
A resposta veio quatro dias depois, quando Ana chegou cheia de felicidade, explicando que
encomendara a peça antes, mas devido à restauração, não ficara pronta a tempo. Mais
uma caixinha...Abracei-a sorrindo.
Aumentando o equívoco, eu fingia cada vez mais. Uma vez, me peguei fingindo para mim
mesma, sozinha, admirando as peças que já ocupavam uma mesa bem maior, no canto da sala
de estar. Mas se eu dissesse a todos a verdade, como iriam entender meu fingimento? Não
pensariam também que eu mentia a respeito de outras coisas? Estariam prontos a gostar
desta outra que não gostava de caixinhas de porcelana?
Naquele dia, levei o bebê cedo para a casa de minha mãe. Malas, jóias e documentos já
estavam no carro, estacionado a duas quadras dali. Guardei também minhas pulseiras,
paguei uma fortuna por elas. Nunca contei a ninguém, mas há três anos coleciono
pulseiras. Calculei errado o tempo, deveria ter me vestido mais cedo. Se alastrou mais
rápido do que eu havia imaginado. Desci de pijama mesmo, pelas escadas, esbarrando em
vizinhos assustados, portas abertas, bombeiros que subiam, mangueiras, hidrantes. Assisti
da rua o fogo, as altas chamas lambendo as janelas, flamejantes, ardentes, dançando e
pulando freneticamente ante olhares incrédulos.
E-Mail: gellic@terra.com.br
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