a

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Cozete Gelli (1969) é paulista, casada, sem filhos. Escreve desde sempre, mas ainda não publicou nada. Enviou há anos um livro de poesias para algumas editoras, mas informaram que poesia não era interessante comercialmente. Não encerrou o curso de jornalismo na PUC – São Paulo, enveredou pelo marketing e, quando enviou seu trabalho para o Releituras, disse que fazia bicos e procurava emprego. Afirma estar levando mais a sério o ofício de escrever nos últimos tempos, em especial crônicas, contos e um romance em andamento, além de colaboração em blogs.


Souvenir

Cozete Gelli


A coisa toda começou quase que por acaso, em Buenos Aires. Eu estava na feira de San Telmo, e tinha apenas uma hora para voltar à Recoleta, fechar a conta do hotel e ir para o aeroporto. Tinha já comprado várias lembrancinhas para amigos e familiares, mas o fato é que não havia encontrado nada para mim. Ou melhor, havia encontrado uma pulseira antiga, chinesa, de laca preta com pequenos elos de ouro, mas o preço estava acima do que eu podia pagar, mesmo após exaustivas negociações com o vendedor, severamente prejudicadas por meu espanhol canhestro.

Não havendo muito tempo, acabei comprando uma pequena caixa de porcelana antiga, uma espécie de porta-jóias em miniatura, branca com pequenas flores arroxeadas a decorar sua tampa. Nas laterais havia incrustada uma moldura rendada em latão, muito delicada e pequenina.

Até bonitinha era a peça. Não era a pulseira que eu queria, mas servia como lembrança de minha estada na cidade. Poderia ter sido qualquer outra coisa, mas foi a caixinha.

Marília veio me visitar duas semanas depois. Mostrei as fotos, rimos juntas quando contei sobre minha vontade de aprender tango, tomamos café, comemos bolo, e foi só no momento de se despedir que minha amiga reparou na pequena peça.

Meu aniversário, meses depois, o quinto de minha gravidez de risco. Eu era toda feita de nervos, hormônios, inchaços e lágrimas. Marília me deu outra caixinha, esta redonda, também de porcelana, também com pinturas primaveris a decorar a tampa. Ao abraçar forte minha amiga de infância, chorei. Chorava por tudo naqueles dias. Mas Marília supôs que meu choro fosse de emoção, amplificada pela emoção do presente.

Ficaram ali as peças, sobre a mesinha no hall de entrada. Quando Marília vinha, sempre falava alguma coisa a respeito, portanto acabei as deixando lá, à vista dos comentários.

O bebê era ainda pequeno quando Marcos viajou para a Europa. Talvez porque meus hormônios ainda estivessem confusos, talvez por insegurança, pelo fato de estar muito acima do peso, eu ainda chorava. O bebê também chorava muito, eu dormia pouco, e por isso chorava ainda mais.

Nos onze dias em que estive sozinha, vi crescer um ciúme que nunca sentira. Imaginava que Marcos jamais voltaria, que tinha outra, que de uma hora para outra receberia uma mensagem de abandono, ou a notícia da queda de um avião.

Fui tomada de uma alegria absurda quando voltou, me abraçou e disse que sentira também minha falta. E cheguei a ficar feliz quando tirou da mala três pequenos pacotes, que escolhera cuidadosamente entre um compromisso e outro. Três caixinhas de porcelana, compradas em três países diferentes: Itália, França e Inglaterra.

Cheguei a pensar que poderia ter comprado perfumes, chocolates, uma lingerie sensual para quando eu voltasse ao meu peso, mas o fato de Marcos ter se preocupado em escolher algo que julgava me fazer feliz, naquele momento, foi o bastante.

Tinha agora um quinteto, a agrupar-se na mesinha do hall. Mas a coisa foi tomando proporções perigosas. Fosse aniversário, Natal, dia das mães, lá vinham amigos e familiares com suas caixinhas de porcelana. Porque todos esperavam que eu gostasse, eu demonstrava gostar.

Como dizer que não era bem isso, como esclarecer o mal-entendido, sem correr o risco de magoar pessoas que evidentemente tentavam me fazer feliz?

Uma vez Marcos convidou um colega do escritório e sua jovem noiva para jantarem conosco. Trouxeram uma garrafa de vinho para ele e uma caixinha para mim. Sendo todos advogados, a conversa transcorreu por caminhos profissionais aos quais eu não tinha acesso. Fiquei quieta num canto, imaginando o que Marcos havia dito para eles. Uma fúria silenciosa foi crescendo dentro de mim. Para eles, eu não tinha nome, não tinha vida, não tinha personalidade, tinha apenas uma coleção de caixinhas de porcelana.

No Natal daquele ano, minha irmã e minha mãe se juntaram para comprar uma caixinha que viram num antiquário, caríssima, diziam...

E quando vinham pessoas, eu antes já me esmerava limpando, polindo e arrumando minha já vultuosa coleção. E todos paravam, admiravam, faziam perguntas sobre sua origem, comparavam as pinturas, perguntavam a idade das peças, como se tivessem vida.

E tinha sempre que contar quantas eram, pois sempre alguém perguntava: “Quantas você já tem?”

“Trinta e oito”. “”Quarenta e três”. “Cinqüenta e nove”. Meu ódio secreto foi sendo alimentado aos poucos, peça por peça, data por data.

Em minhas mais loucas fantasias, me via destruindo as miniaturas a marretadas, atirando-as janela abaixo, quinze andares, as pinturinhas primaveris, as princesinhas segurando pombinhas, as bordinhas douradas, tudo se espatifando em caquinhos no concreto frio do calçamento embaixo.

Novamente aniversário e minha prima chegou com flores. Um grande maço de rosas amarelas. Ironicamente, me senti traída. Estava preparada para odiá-la um pouquinho mais. Será que ela simplesmente não tinha lembrado do meu aniversário, e só trouxera flores de última hora? Será que eu não valia mais a procura por um modelo diferente? Que fizera eu para desmerecer um presente que todos sabiam que eu gostava?

A resposta veio quatro dias depois, quando Ana chegou cheia de felicidade, explicando que encomendara a peça antes, mas devido à restauração, não ficara pronta a tempo. Mais uma caixinha...Abracei-a sorrindo.

Aumentando o equívoco, eu fingia cada vez mais. Uma vez, me peguei fingindo para mim mesma, sozinha, admirando as peças que já ocupavam uma mesa bem maior, no canto da sala de estar. Mas se eu dissesse a todos a verdade, como iriam entender meu fingimento? Não pensariam também que eu mentia a respeito de outras coisas? Estariam prontos a gostar desta outra que não gostava de caixinhas de porcelana?

Naquele dia, levei o bebê cedo para a casa de minha mãe. Malas, jóias e documentos já estavam no carro, estacionado a duas quadras dali. Guardei também minhas pulseiras, paguei uma fortuna por elas. Nunca contei a ninguém, mas há três anos coleciono pulseiras. Calculei errado o tempo, deveria ter me vestido mais cedo. Se alastrou mais rápido do que eu havia imaginado. Desci de pijama mesmo, pelas escadas, esbarrando em vizinhos assustados, portas abertas, bombeiros que subiam, mangueiras, hidrantes. Assisti da rua o fogo, as altas chamas lambendo as janelas, flamejantes, ardentes, dançando e pulando freneticamente ante olhares incrédulos.



E-Mail: gellic@terra.com.br

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo

a