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Arnaldo Nogueira Jr


Cláudio Eugenio Luz (1968), paulista, é professor de História na rede municipal de São Paulo (SP). Seu livro de contos, "Pessoas bonitas acordam tarde", ainda não tem editora. Os três contos ora publicados fazem parte do livro "Para depois...". Gosta da síntese, não porque estejam na moda os contos curtos, "mas porque é a única forma que consigo expressar aquilo que me assombra".


Minicontos

Cláudio Eugenio Luz


Miniambiente


Estou sem tempo, atrasado, ocupado, meio consumido, pensando se conseguirei chegar antes que o guarda resolva travar a porta. Corro assombrado, cortado em pedaços, esbaforido, feito uma tela expressionista, escorrendo os pés pelos vãos da cidade. É verdade, não estou brincando. Preciso dar conta do recado, suar a camisa, torcer o rabo do gato pra gerir meu ganha-pão. Meu chefe não compreenderia se eu retornasse para o escritório sem as autenticações. Ele vive roendo as unhas, procurando um nó cego, uma besta qualquer pra descontar suas mazelas. Veja, estou com as mãos atadas, sem nenhuma chance de parar, atolado até o pescoço de trabalho. Lutando para manter a cabeça no lugar. É, estou voando, torcendo, rezando pragência estar aberta e não ser barrado na porta. Até a noite, sou como um balão vermelho: hora após hora, caindo. Sem tempo, sempre atrasado, ocupado, ocupadíssimo.


Sabor de Coca


Subitamente você desperta. Seu coração está acelerado e suas mãos molhadas. Atônito, corre para recuperar o tempo perdido. Ao sair de casa você se esquece de trancar a porta e o seu carro não pega porque a bateria arreou. Você decide ir de ônibus, porém a espera transforma-se numa lenta e eterna agonia. No meio do caminho ele quebra. Com o estomago na boca e a boca com gosto de cerveja, decide ir a pé. Ao chegar no escritório, cansado, suado e descabelado, você nota que seus colegas lhe olham com estranheza, abismados com a sua presença naquele local. Você pensa que é porque está atrasado. Quando chega em seu canto,o mesmo canto, aquele mesmo canto onde você, hora após hora, planejou a aposentadoria, as viagens, os filhos que teria com a mulher que nunca teve, naquele mesmo canto que supostamente sempre imaginou ser o seu canto, ao invés de encontrar tudo em seu devido lugar, depara-se com um estranho. Ele, perplexo, olha para você e hipocritamente lhe diz: Bom dia.


Um Encontro


Os olhos se tocaram ásperos naquele final de tarde modorrento, sem vírgulas ou ponto final. Ele não procurava nada. Ela apenas sonhava. Rapidamente desenharam ávidos traçados entre expressões de química e sorrisos mal disfarçados. Parados, pareciam flutuar. Ela fingia que não via e ele fingia conhecê-la de algum lugar. Aparentemente ínfimo a distância que os separavam. Bastaria apenas um dedo para virar pelo avesso a terra que teimava em girar ao contrário. Ela, rompendo a timidez, ofereceu-lhe um beijo e depois outro e outro depois de outro, e ele, estático, como uma fria folha de revista, recebia a dádiva em perpetuo silêncio.


E-Mail: clagraca@superig.com.br

 

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