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Arnaldo Nogueira Jr


Célia Abend (1961), é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outras funções, foi repórter e chefe de reportagem do "Jornal do Brasil", coordenadora de Comunicação Social da Prefeitura do Rio de Janeiro e assessora de comunicação da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, cargo que exerce atualmente.


Borboleta amarela

Célia Abend


Uma borboleta amarela esvoaçava em plena uma da tarde na Avenida Presidente Antônio Carlos, Centro do Rio. Miragem, só podia ser, pensei. Mas não.

Enquanto eu aguardava impaciente que o motorista do táxi furasse o bloqueio dos ônibus e seguisse a via estreita demais para tanto trânsito, ela borboleteava alegre e faceira no meio do gás carbônico daquela selva do asfalto, sob o calor inclemente de janeiro.

A caminho de um almoço de negócios, atrasada, interpretei aquela aparição como um sinal de boa sorte. Tenho, desde pequena, por influência de minha mãe, uma superstição envolvendo borboletas: quando elas aparecem para mim, algo bom está para acontecer.

A bobagem que costumo utilizar para ludibriar minha alma é o resultado de uma interpretação do filme "Suplício de uma Saudade", um dos grandes sucessos de Hollywood, que minha mãe viu e reviu nos cinemas. Contava a história de uma médica chinesa que se apaixona por um oficial americano. Ele morre na guerra e ela volta à colina cheia de borboletas para se lembrar do dia em que disse a ele, ali, que, para os chineses, este animalzinho é um sinal de boa sorte. Se não é exatamente assim, foi desta forma que aprendi a mensagem do filme, se bem que, se o namorado da moça morreu na guerra, ela não teve tanta sorte.

Passei, desde então, a achar que as borboletas gostam de circular à minha volta. De vez em quando, algumas chegam a pousar em meus ombros. Sem dúvida alguma, sou uma pessoa de muita sorte. Minha vaidade sugere que este poderia ser o argumento de um filme mexicano, do tipo realismo mágico. Meu senso de ridículo indica que isto não daria nem novela venezuelana.

Dentro do táxi, ar condicionado a toda prova, o trânsito não anda um centímetro.

Estressada, começo a me inquietar. Melhor ir a pé, que vai mais rápido, comento, meio sussurrando, só para torturar o motorista, que se angustia e se culpa por ter tomado o pior caminho.

Olho para o lado e lá está ela de novo, grande, amarela, passeando entre os carros.

Não é possível!

Qualquer dia desses vou ler no jornal que as os cientistas descobriram que as borboletas não são aqueles seres inocentes e alegres que sempre pensamos que fossem. Vão dizer que elas são altamente resistentes à poluição e que sua presença nas grandes cidades só comprova a tese de que elas convivem muito bem com um mundo estragado e feio.

Acha difícil? Fizeram isso com as garças, lembra? Aquele serzinho branco, elegante e impávido, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, dizem eles, está se alimentando do esgoto clandestino que deságua numa das paisagens mais bonitas do Rio.

Outro dia tentaram denegrir a imagem dos golfinhos. Que eles não são tão simpáticos assim, que por trás daquele sorriso maroto há segundas e terceiras intenções.

Desconfio que exista gente no mundo que vive só para acabar com as doces ilusões dos seres humanos. A próxima vítima vai ser a borboleta que passeia na Antônio Carlos, vocês vão ver.

 

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