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Arnaldo Nogueira Jr


Cristina da Paz (1982), é paulistana, estudante de Letras. Participou recentemente de uma Oficina Literária na Casa Mário de Andrade sob a direção de Nelson de Oliveira; conquistou o segundo lugar no concurso Contos Mínimos da Usina das Artes e em breve terá alguns contos publicados na revista Puçanga.


O outro lado do amor

Cristina da Paz


Abriu-se toda naquela tarde. Tinha os olhos fixos no céu nublado, a boca pequena semi cerrada não pronunciou uma única palavra. Ali, naquele lugar secreto, em nosso segredo mútuo, senti seu sangue verter sobre minhas pernas numa quentura proibida, mas amei, amei aquela menina como nunca amaria qualquer outra, até que meu prazer carnal fosse mais forte e que o sentimento de amor e gozo a partisse em duas e a privasse do último respiro. Camila morreu de amor. Um amor angelical que só pode ser sentido aos seis anos de idade e cuja experiência anterior nada significa para o homem que possui o fluido puro da sexualidade que se despertou para a vida e se acabou como todos hão de acabar um dia: mortos pelo amor maior que o corpo, pelo prazer que não se prende aos limites físicos.

Durante anos esperei que Camila aprendesse o necessário para partilhar do meu amor por ela. Esperei que pudesse caminhar sozinha sem tropeçar nos obstáculos inexistentes e que pudesse chamar meu nome com tanta convicção e tanto entusiasmo que me fizesse crer que ali poderia nascer o amor de dentro da própria menina, sem que eu tivesse de plantá-lo, mas por si, apenas por regar a terra nasceria o fruto sem árvore, sem flor, só amor puro e pronto para ser desfrutado num dia sereno.

Aos poucos, sem pressa, éramos íntimos e secretos. Amantes do sorriso, da grama verde, dos balanços no parque de terra batida. Camila era vida que espera pelo momento em que deixa de ser para doar-se ao fim. E o momento estava próximo. Sublime dia em que fomos ao jardim atrás da casa. Nosso cantinho de beijos e abraços e trocas. Nosso canto de rezas e pecados ainda não consumados em todo seu ardor.

Deitou-se, ciente de que não precisava esperar nada, de que não conviveria com a culpa nem com o trauma. Não suportaria vê-la crescer infeliz. Seus olhos eram só amor, amor que não sabe que ama. Seu corpo era a brancura sem cor de um ser totalmente alheio a si. Camila era minha. Minha carne, meu sangue, meu amor, meu desejo, meu fim.


E-Mail: cristinadapaz@gmail.com

 

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