Imundo, mundo

Carlos Besen

I


Deixo minha casa tão suja,
tão dominada pelo pó de mim orvalhando,
que eu, por mais que sujo:
me sinto limpo.

Depois, deixo minha casa tão limpa,
tão recendida a pinho e eucalipto, a floral e lavanda,
que eu, por mais que limpo:
me sinto sujo.


II

Quando deságuo perfumes à flor da pele,
as portas fazem esquina com a rua,
desdobrando, como uma língua, as cadeiras de praia,
que são as da sala.

Bem odorado porque desodorado,
acesso jardins sem chamar a atenção das roseiras.


III

A grama já é mar.


IV

Mas quando soergo os braços fatigados como para uma cruz,
varrendo num longo espreguiçar os lamentos do corpo,
as janelas enferrujam os músculos das dobradiças,
jamais a lingüeta rígida da fechadura.

Quer porque gasto, quer porque economizo: sem desodorante,
nenhuma ginástica alarga os pulmões da casa,
e só me tonifico para mim mesmo, para nada.


V

Solto como um bicho, eu me enquadro,
como se usasse óculos exclusivamente para dissipar o foco.
Encarcerado nos bigodes da ratoeira,
eu me liberto, como se, enorme, pudesse correr,
como se, enorme, pudesse esconder-me.


VI

Sou como não sou e como não estou.
E se ser é sentir, até me dou razão,
de forma a entender depois
o que nego e o que afirmo agora.

Ser é eu me compreender quando puder.
Digo, tudo o que concluo: inutilizo.

Sou provisório como um corpo limpo.


Carlos Besen (1980), pós-graduando em Filosofia, avisa que ainda não abandonou Porto Alegre, cidade que lhe rendeu oficinas de poesia com Ronald Augusto e com Fabrício Carpinejar e que lhe conferiu em 2004 e 2005 o Prêmio Habitasul — Revelação Literária na Feira do Livro, na categoria “In Versus”. Depois disso, alguns poemas apareceram publicados em antologias. Diz que “tem no pulo do prelo (para início de 2007) seu primeiro livro: 'Desarvorar' ”. Na internet, além de ter poemas publicados em revistas virtuais, mantém dois blogs exclusivamente literários, um com poemas próprios, outro com poemas universais prediletos.

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