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Arnaldo Nogueira Jr


Cesar Antonio Franchin, 1981, é formado em Letras na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo. Tem quatro contos publicados na coletânea "Outras Águas" do XXIII Concurso Internacional Literário organizado por Edições AG de São Paulo. Não tem livros publicados.


Como abandonado

Cesar Antonio Franchin



Há mais de vinte anos, estive junto da velha. Há mais de vinte anos, dividi o mesmo teto com a velha. Mas, eis que de repente, me vi só no mundo como um cão sem dono.

Nossa casa ficava em bairro “classe A”, tranqüilo, mas nunca a vi tão movimentada como naquele dia. Nem nos natais, nem nas viradas de ano, nem nas festas da Páscoa, nem nos aniversários éramos visitados daquela forma.

Eram pessoas passando de um cômodo a outro com uma velocidade inexplicável como aproveitando a ausência da dona. Algumas até me faziam lembrar da velha, mas não pelo modo de se portarem, pelo cheiro, mas pelos traços que entregavam certas semelhanças.

Da soleira da porta em que permaneci, consegui acompanhar cada ação daquele povo todo estrangeiro dali.

Aos poucos, a cadeira de balanço era levada para um caminhão que esperava lá fora. Os vasos da sala de estar eram embrulhados em folhas de jornal como para viagem. A cama, o armário, a sapateira eram levados por outros estranhos, agora para uma Kombi que invadira a garagem. Dentre as pessoas, ouvi algumas palavras de lamentações: “... tão jovem, coitada,... Gostei desta fruteira!”... “É, realmente, uma pena... Olhe que quadro mais encantador!”. Das pessoas ouvi também reclamações quanto a minha presença ali: “... sai logo daqui antes que eu...”, e permanecia quase imóvel na soleira da porta como espectador. Seria isso, então, o que a velha costumava chamar de assalto? Seria a isso, então, que eu deveria prestar atenção? Seria isso, então, que eu deveria evitar? Revoltado com minha instantânea ignorância, passei a reclamar com agudos de tenores, o que resultou somente em mais reclamações quanto a minha presença ali.

Acalmei os ânimos, mas ferviam outros dentro do quarto da velha. Os trilhos da cortina eram disputados com argumentos fortíssimos tanto de um lado quanto de outro. Reclamavam o direito ao prêmio uma por ser a mais nova, outro por ser o mais velho, outro por ser o marido da mais nova, outra por ser a esposa do mais velho. Enquanto isso, mais um copo era cuidadosamente quebrado ao ser retirado da cristaleira. Não sei se esse acidente foi verdadeiro, ou foi intencionalmente maquinado — como o anterior — para não satisfazer um desejo alheio de posse.

Senti falta da velha. Não queria acreditar, mas ela não voltaria mais. Eu não sentiria mais aquele perfume enjoativo de lavanda que chegava a me sufocar e a me fazer tossir como cão velho. Eu não comeria mais aquelas migalhas do pão caseiro que ela costumava fazer para comer com geléia de amora – a mesma que o médico a proibira e que ela sempre me lembrava cochichando baixinho.

A casa passou a ficar vazia, desolada, abandonada. Os estranhos que invadiram-na levaram até mesmo os retratos. Não deixaram nada.

Apenas eu...

Se pelo menos tivessem levado crianças para eu divertir, conquistar novos donos, novo lar...


E-mail: cesar_franchin@hotmail.com

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