os pés de josiane

Bárbara Nunes


josiane tinha mania de molhar os pés antes de dormir
mania que era quase uma obrigação de todo dia
molhar os pés no chuveiro e molhar a cama com os pés pingando
se josiane não molhasse os pés
à noite
não podia dormir

sufocava

josiane não admitia qualquer comentário sobre esse hábito
um movimento que chamasse atenção sobre si mesma
a transtornava e enfurecia

ainda mais se partisse da márcia

josiane não permitia sequer um sorrisinho de canto
de boca ou de olho
mesmo que o sorrisinho brotasse em uma boca que quisesse dizer
que achava aquilo uma gostosura
uma linda idiossincrasia
como uma pontuação da personalidade
que todo dia, à noite, precisava se mostrar um pouquinho

molhar os pés era um lado todo outro de josiane
e que chamava a atenção
márcia adorava o ritual e os pés e o olhar desconfiado
que vinha depois
márcia sorria escondida, dizendo a si
que ninguém mais sabia
dos pés de josiane

mas
mesmo estando escondido de baixo de dez mil cobertores
josiane notava o sorriso
e brigava com márcia

que tinha mania de ter o riso descoberto antes de dormir
mania que era quase obrigação de todo dia
sorrir com o canto da boca, cobrir-se até a cabeça, ser descoberta
e levar bronca
pois se josiane não brigasse, márcia não podia dormir

sufocava


Bárbara Nunes tem 29 anos e é carioca do Rio de Janeiro. Tem apenas um poema publicado: "Ode à Musa", no livreto "Misto Quente", Editora 7Letras - 2004.


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