Garagem

Ayla Andrade


A moça Francisca, que já nem tão moça, nunca teve vida própria. Desde menina trabalha como a duzentos anos trabalhavam os seus: para os brancos que moram bem e têm coisas.

Mas a moça Francisca nem queria coisas: Os brancos que moram bem têm família. Filhos. Filhos, pensava a moça Francisca. Os dela.

Dar banho, vestir, alimentar, dar banho de novo. Enquanto isso Francisca fechava os olhos e os via. Os seus meninos. Como ela os chamava. Nem tinham nome, os meninos. Fechava os olhos e os via. Mas os que ela banhava, vestia e alimentava não a chamavam mãe. E Francisca não podia fechar os ouvidos. Nem os poros, nem os pulmões. Assim a moça Francisca continuava.

— Compra pão na padaria, Francisca.

— Ô Francisca, vai lá na bodega e traz qualquer coisa pra eu comer.

— Ah, Francisca isso eu não queria, não. Vai lá e troca.

E assim passavam os dias da moça Francisca. Mas nem eram dias. Eram anos. Anos que escorregaram no ralo da pia, na pilha de roupas sujas, na pilha de pratos por lavar, na pilha de comida que sobrava pra guardar, na pilha das crianças que não acabava nunca pra Francisca sonhar com os seus.

Francisca nem se importava de vestir as roupas de segunda mão que ganhava de bom grado da família. Sim, por que diziam a ela:

— Francisca, você é como se fosse da família.

Francisca também não se importava de almoçar depois da família. Também não ligava se não a levavam para os passeios de fim de tarde no calçadão, nem aos passeios de fim de ano e muito menos aos passeios do fim da vida. Francisca só sentia doer à noite, quando no quarto arranjado, lhe sobrava tempo pra si. E o que fazer com o tempo pra si quando se o dedicou todo aos outros?

Sentia as mãos vazias, os olhos vazios, a boca vazia, o peito vazio e tudo mais que se pudesse preencher, vazio. Mas não a cabeça de Francisca. Essa dava voltas no quarto. Involuntariamente ocupava os espaços com o berço branco, o guarda-roupa que combina, a cômoda que combina, as fraldas, as cortinas, os tapetes, as paredes e seu colo negro que combina perfeitamente com os seus meninos.

E dando voltas adormecia. Como o tempo para si era pouco e doía, adormecia.

Anos a fio e cheios de nó, Francisca devotava obrigatoriamente à família. Primeiro cuidou da avó, depois da filha, depois dos filhos da filha e aquilo não tinha fim como a linha do trem, pensava Francisca, que não conhecia a Da Silva. Se a conhecesse calçava os tamancos, as vestes da pequena patroa e assumia a casa e os demais como seus. Como seus, viu? Propriedade de Chica.

Mas Francisca não era moça de propriedades. Era ela mesma sem propriedade. De seu andar, de seu falar, de seu olhar e até de seu suspirar. A única coisa que era sua e seria enterrada com ela era seu sorriso de diamante. Tão raro quanto um. Ah, mas quando Francisca resolvia rir era uma nova aurora na rua dos sobrados. Tudo se alumiava. Não sobrava nuvem no céu e o sol se acanhava. Era comum a criançada da rua, os canelais, como dizia a pequena patroa, correrem com espelhos nas mãos tentando roubar uma nesga de brilho do sorriso de diamante da moça Francisca.

Mas não tendo motivos pra rir, ficava então a rua dos sobrados numa escuridão conhecida, um breu aceitável como a condição de Francisca para os demais. Talvez por isso guardava a criançada fios do sorriso de diamante nos espelhos. Eram úteis na penumbra do dia daquela rua. Eram úteis para riscar a cara dos que não enxergariam, nem se quisessem, o ar de pintura a óleo que tinha Francisca.

E como uma pintura a óleo ficava a moça Francisca pregada naquelas paredes de pedra. Já até faziam parte dela, aquelas pedras todas. Eram o seu sangue e seus nervos de pedra; eram seus cabelos e tetas de pedra; suas juntas e substrato de pedra. Assim Francisca era uma estátua sem praça, uma masmorra sem príncipe, uma muralha sem guerra. E sem exército travava suas batalhas íntimas. Só um pedaço de Francisca continuava terra de ninguém: o ventre. Caverna abissal que toma pra si as contas do tempo que sobra pra Francisca contar.

Mas a moça Francisca há muito parou de juntar os números, as horas e as primaveras sem flores. Ela mesma não florescera e não achava entre os jardins aquela que por tristeza ou alegria, torvelinho ou mansidão, boniteza ou feiúra lhe destinasse outro fim que não a oca garagem da rua dos sobrados.


Ayla Andrade
(1978), também conhecida nos bares do Benfica, em Fortaleza (CE), como “Dama da Noite”, é uma das fundadoras do grupo “Parafernália”. Publica seus escritos, desenhos e colagens em “zines” e na revista “Gazua”, e também se apresenta fazendo leituras dos poemas e contos em rodas de poesia e projetos culturais. Diz ela: “Eu quero é botar a boca no mundo pra saber que gosto tem”.

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