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Arnaldo Nogueira Jr


André Tartarini (1975), é dentista e mora no Rio de Janeiro. Procura editora para publicar seu primeiro original de contos, "Rabo preso", do qual o texto apresentado  faz parte. Diz escrever, antes de tudo, por prazer e teimosia. Participou das duas primeiras oficinas para novos autores da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), ministradas, respectivamente, por MIlton Hatoum (2004) e Raimundo Carrero (2005). É admirador dos filmes de Hitchcock e dos livros de, por exemplo, Dostoievski, Sergio Sant'anna, Stanislaw Ponte Preta, Rubem Braga e Antonio Carlos Viana.


Equilíbrio instável

André Tartarini


A tia de Sandra demonstrava inexplicável apreço por mim. Visitávamos pouco Dona Juliana, poucos eram os motivos. Mas a viúva gostava muito de conversar comigo. Fechada para a maior parte das pessoas, olhava-me nos olhos e desandava a falar detalhes que nem sempre me interessavam sobre sua vida.

Doutor Almeida morreu assassinado num churrasco de família. Foi ao banheiro e de lá não saiu mais. Acusaram Valdir, o caseiro, que havia alguns dias vinha reclamando da maneira pouco respeitosa com que era tratado pelo patrão. Não conseguiram prendê-lo. Estava desaparecido desde então. Cheguei a conhecer Valdir. Sujeito calmo, fisionomia leve. Olhos expressivos e inocentes. Difícil crer que tivesse matado Doutor Almeida; ainda mais da maneira como tinha matado. Cravou-lhe um ancinho no crânio. Um episódio estranhíssimo, que a viúva fazia questão de contar em detalhes. Mas sempre com um sorriso condescendente e uns trejeitos de corpo que pareciam puxar seus seios para fora do decote. Mesmo com mais de quarenta, era convidativa a figura de Juliana, como ela insistia que eu a chamasse. Sem o Dona, que ela não era dona de ninguém. E ninguém é meu dono também não, viu? Aquele sorriso...

Uma vida amorosa intrigante e pouco convencional, tinham ela e o marido. Técnicas e modalidades de coito me foram apresentadas em nossas conversas. Chorosa, reclamava da falta que lhe fazia a presença de Astolfo – confessava-se a mim naquelas tardes em que Sandra passava estudando com Marina, as duas trancadas no quarto. De um momento para outro, passei a freqüentador assíduo da casa. Quando chegávamos, Sandra me beijava suavemente na boca e trancava-se com a prima; Juliana separava uma dose de uísque, que eu sorvia ansiosamente, e ela reabastecia quantas vezes eu quisesse. Era nosso segredo, eu muito novo, ela sorrindo condescendente. Bebíamos juntos e, à medida que a conversa evoluía, caíamos sempre na armadilha do assunto “sexo”. As palavras surgiam e falávamos abertamente. Ela admitiu certa vez ter ficado lubrificada após ouvir um episódio vivido por mim.

Fazia um ano e, talvez pelo peculiar da data, o episódio da morte remexia-lhe tanto naquele dia. Juliana contou ter tido relações com o morto em sonho. Rimos daquilo. O sonho se repetiu. Ela entrava em detalhes quanto aos trabalhos de línguas e mãos, além de quase descambar para o linguajar técnico quando se detinha aos genitais, de tão explícita. Experiências gradativamente mais freqüentes e intensas.

Eu insistia que eram apenas sonhos marcantes pela peculiaridade do momento que ela atravessava e pela falta que tais encontros lhe faziam. Ela insistia que não, a gente trepou, dizia, vulgar somente comigo. Era recatadíssima. Não comigo. Certo dia me chamou a seu quarto e mostrou – com aquele sorriso no rosto – o lençol manchado de sangue. Não soube o que argumentar; a prova, vermelha, ratificava o que ela garantia ter acontecido. Foi ele. O Astolfo.

Tanto ela quanto eu sabíamos que aquele equilíbrio instável não duraria por tanto tempo. Foi na cozinha, onde sempre conversávamos. O armário fez tanto barulho que as meninas chegaram a diminuir o som do quarto para tentar identificar a origem daquela chacoalhação. Nem assim, Dona Juliana parou de mexer, pois sentiu que em segundos eu explodiria entre suas coxas ainda tão rígidas. Rosto ao mesmo tempo tranqüilo e excitado, não se intimidou quando a porta do quarto da filha foi aberta no fim do corredor, e passos se aproximavam. Fiquei nervoso e momentaneamente senti que minha energia poderia recuar em vez de extravasar, mas o rosto dela parecia me convencer de que naquele momento só havia eu, ela e nossos fluidos. A filha já vinha chegando perto quando minhas pernas quase falharam, o armário fez um barulho maior ainda, e durante o transe pude senti-la me segurando para que não fosse desperdiçada uma gota. Ajeitou mais ou menos o leve vestido, antes que Marina apontasse na entrada da cozinha o rosto entediado, perguntando que barulho era aquele. A mãe, sorrindo e com as pernas ainda escorrendo, alegou que estávamos procurando algo sob o armário. A filha mascou duas vezes o chiclete, olhou para mim, sorriu com o lado da boca e voltou lá para dentro. Juliana era segura, e viveríamos uma história linda, quente, escura e úmida. Éramos um deslizar infinito de peles.

Em poucos meses, veio a notícia: estava grávida. Preocupei-me, mas ela disse que eu não me incomodasse, o filho não era meu. De súbito, minha vontade foi de voar em seu pescoço. Traidora sem caráter. Contive o impulso, pois o que Sandra iria pensar? De mais a mais, não cabia sentimento de posse em nossa história, tão desprovida de quaisquer limitações ou barreiras. Trepávamos e era a isso que se resumia. Mas a placidez com que ela me contou agrediu-me profundamente. Pudor, talvez fosse o que lhe faltasse. Não exigíamos nada um do outro, mas há limites a serem respeitados até no mais livre dos amores.

Quem? Quem? Eu insistia. Ela bebeu o uísque calmamente, ajeitou a saia. Só então revelou. O pai era o falecido. Como é que é? Ela tinha certeza. Sentia; essas coisas que mulher diz. Dá para saber. Mulher sempre sabe. Era o finado médico, o autor da proeza. Garantiu. Os encontros noturnos entre os dois continuavam, ela não fazia segredo, e eu nada podia fazer. Não tinha como mantê-la acordada permanentemente. Quase não dormia de madrugada imaginando-a com ele, sem a culpa, sem as limitações do mundo real a prender-lhes ao possível, às barreiras físicas e seu confinamento. Para mim, a cozinha. Para ele, todas as dimensões. Não era justo. E agora essa. Desejei que o filho fosse meu, que nascesse com a minha cara. Minha cabeça girava.

Saí da cozinha às pressas, fui chamar Sandra para irmos embora. Não bati na porta antes de entrar bruscamente no quarto e concluí que não era para estudar que as duas se trancavam.

*             *           *

Hoje, não sinto raiva ou indignação. Minha maior angústia é acreditar ter um filho cujo rosto nunca vi. Esses anos talvez tenham sido suficientes para que Sandra tenha esquecido aquele infeliz ocorrido, como eu esqueci. Tudo me parece tão menor do que minha agonia que não consigo ver crime em duas moças se descobrindo. Não me sinto traído, nem sinto tê-la traído com Juliana. Nosso namoro inocente foi a parte menos relevante de tudo aquilo.

Decidi voltar à casa da mulher de quem fugi com tantas perguntas na cabeça, para vê-la – e à criança. Minha curiosidade me consome. Talvez seja a ânsia de conhecer meu filho ou de ver com meus olhos, caso a versão dela prevaleça, a materialização de um encontro tão insólito. Nego-me a concordar com as idéias absurdas da viúva quanto a seus encontros com Astolfo. A solidão pode destruir a mais sã das consciências. Vai ver é isso. O filho tem que ser meu. Ainda assim, algo inconsciente não me deixa descartar por completo a possibilidade estapafúrdia de o finado tê-la de fato engravidado em um sonho. Não sei, acho que o que mais quero mesmo é comer novamente aquela mulher.

Toco a campainha. Ela abre. Surpresa, dá um gritinho seguido de um sorriso quase aliviado. Está idêntica a antes. Veste um robe japonês, que havia estreado comigo em nosso último encontro. Pede que eu entre. Serve um uísque no copo em que eu gostava de beber. Duas pedras de gelo e umas gotinhas de água tônica, como ela dizia. Está sozinha em casa. O filho dorme no quarto. Não comenta nada além disso sobre o garoto. Sem me repreender pela longa ausência, pergunta se eu me lembro do robe. Sorrio e digo que sim. Ela me beija e vamos para a cama.

No dia seguinte, acordo com uma voz de criança chamando e batendo na porta. Um calafrio me desce pela coluna e divide-se pelas pernas até as unhas dos pés.

Ela levanta, corre para a porta e a abre. O moleque entra.

O rosto do garoto me é familiar. Em pouco tempo, lembro. É a cara do Valdir, o caseiro.


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andrelnt@oi.com.br

 

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