Quase

Anderson Piva

“Uma coisa é um grande discurso,
outra coisa um grande amor”
(Sto. Agostinho)


O amor nasce velho em qualquer coração;
é fruto tardio
de ancestralidades feridas,
de descompassos hereditários,
do choro antigo das várias gerações,
resultado inebriante
dessa magia de converter lágrimas
numa quase-cachaça.


Todo amor nasce marcado
de lutas recentes, mas findas;
soldado conhecedor de cada canto
do seu campo de batalha,
dos requintes militares,
dos artifícios bélicos
da marcial arte de amar;
discípulo virado em mestre,
professor da triste ciência
de tornar sangue
num quase-veneno.


Todo amor nasce maduro.
Superada a longa seca,
a intempérie,
eis que surge indene
com a esperança perene
de uma vida
que é quase-renúncia.


Todo amor nasce morto,
já vivido, já cantado,
já doído, já amado.


Todo amor nasce duro,
escudo
de ancião experimentado,
que esconde um quase-menino
indefeso.


Todo amor nasce quase;
e se é todo, não o é.

Todo amor nasce pedra
perpétua, e perdura
na solidez de um silêncio
que é quase confissão.


Anderson Dell Piagge
Piva nasceu em Araraquara (SP), em 1983. Cursou o primeiro ano da Faculdade de Letras da Unesp de Araraquara no ano de 2003, tendo abandonado o curso logo depois. Escreveu sua primeira peça de teatro aos quinze anos, prontamente encenada pelos alunos de artes cênicas do Sesi de sua cidade. Escreve para jornais e teve poemas selecionados em concursos literários.

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