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Arnaldo Nogueira Jr


Antonio José Bezerra de Menezes Jr.(1965) nasceu em São Paulo (SP). O texto apresentado recebeu menção honrosa no 1º Concurso Paulista de Contos e Poesias promovido pelo Metrô e pela CPTM e foi publicado na antologia "Contos e Poesias: A literatura nos trilhos" (São Paulo: IBRASA, 2002). O autor trabalha como professor numa Faculdade de Letras em São Paulo, capital, e prepara um livro de poemas.


Take the "A" train

Antonio Menezes

"Chuffa, chuffa, chuffa. Choo choo. Woo woo."
Kurt Vonnegut Jr


"Por que os trens do Metrô não podem apitar como as locomotivas a vapor?" pensou Júlia enquanto esperava na plataforma. "Seria divertido". Sorriu. De qualquer modo, quando se tem dezenove anos, e se está no primeiro ano da faculdade, pode-se perfeitamente pensar tais coisas. Como também esquecer o bilhete magnético nas páginas de um livro. E então ter que comprar outro, e logo reencontrar o primeiro e pensar: "Que tonta que eu sou! Agora tenho o bastante. Que bom!"

Na mesma plataforma, mas pelo menos dez minutos adiantado, estava Fábio. Mais velho, vestia um terno xadrez desalinhado, o jornal tentando escapar da pasta, o guarda-chuva portátil de prontidão. Fábio gostava de jazz e justamente naquele momento recordava uma de suas músicas favoritas: "Take The 'A' Train", de Duke Ellington.

Fábio admirava o Metrô: sua racionalidade concreta de aço escovado; seu elegante e democrático piso de granito polido. Mesmo assim nunca lhe ocorreu associar uma coisa com a outra. Duke Ellington eram as noites de piano solo de sábado e as manhãs de domingo com a orquestra a todo volume; o Metrô era o cotidiano, de segunda a sexta, no que havia de mais imediato e permanente.

Fábio tinha ainda o curioso hábito de evitar as escadas rolantes. Não por medo. Certa vez perguntaram-lhe: "Por quê?" "Não sei. Não se deve evitar esse tipo de esforço", respondeu. "E pelo menos nisso obedeço à minha cardiologista", acrescentou. Daí enfrentava com resignação as longas escadarias. "Não sou melhor do que ninguém." E até gostava desse exercício de paciência na contra-mão de toda pós-modernidade e suas decepções.

Finalmente, o trem chegou e ambos (e todos os demais) embarcaram. Júlia desceu na Sé, enquanto Fábio desceu na Paraíso para seguir até a Consolação. Também poderia ser o contrário (as vantagens da ficção) e os trens do Metrô poderiam de fato apitar como queria Júlia e terem a letra A e Duke Ellington como queria Fábio estar com Júlia. Se ao menos, também ele, pudesse encontrar um bilhete esquecido nas páginas de um livro, como uma flor.


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