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Arnaldo Nogueira Jr


Ana Carolina Rocha tem 23 anos e reside em Ribeirão Preto (SP). Não tem trabalhos publicados.


A gravata e o peixe

Ana Carolina Rocha



Decidiu enforcar-se com uma gravata.

Chegara em casa cansado e tinha largado o trabalho. Trabalho tão infindo e injusto na indecência do escritório, que não havia outro jeito:

Sairia daquela vida sem nexo, sem poesia, sem sentido. Nada prestava.

Sairia pela gravata que botava todo dia no pescoço para viver. Agora era ela que faria justiça. Sabia da hierarquia da sociedade, logo chegaria o mal da idade, sabia que era um alerta de início da tempestade. A velhice já lhe doía, sem ao menos senti-la de fato. Seria melhor acabar com tudo de uma vez.

Examinou sua gravata, como um agente examinando sua arma. Suas listras eram hipócritas e estúpidas. Era tão tosca que se fosse arma, seria arma de brinquedo.

Enforcado morreria. Mas parecia que seus sonhos já estavam enforcados em conjuntos de elevadores, seqüência de humores artificiais, risadinhas, piadas prontas, misturados à contas e baixa renda.

Seu lar: um apartamento mal mobiliado artificialmente e sem vida. A única vida presente, não era nem a sua, mas a e de um peixinho dourado que ganhara em uma festa infantil do filho de um colega de trabalho. Estava lá, onipresente, largado no canto da sala como móvel que não se usa.

Naquele fatídico dia, largou as chaves em um canto e atirou-se no sofá, afrouxando aquele acessório que no tão próximo instante, seria sua arma. Com o corpo inclinado no canto, observou aquele pingo de vida, deixado no canto. Um aquário de vidro redondo. Por quanto tempo aquele peixe vivia ali com ele? Ele que sentia-se tão sozinho. Como tinha deixado passar tanto tempo sem ao menos tê-lo notado. Ficara ainda mais triste: a água estava turva, mal podia ver que tinha algum ser vivo ali:

— Ei !

Uma voz o chamou. Estava mais louco que imaginava, olhou para o lado, suspeitando ser impressões:

— É...você mesmo!

Agora, verdadeiramente assustado, levantou-se num sobressalto. Esfregando os olhos e ficando sentando, em postura alerta, suava:

— Olá! Tem alguém aí?

Era fato: estava louco. Lembrou-se de um cara na firma que de tanto fazer cópias quis copiar a própria cara, as outras partes e as partes do chefe. Até a ambulância tinha sido chamado para o pobre coitado.

— Sim —- respondeu hesitante e já quase a sair correndo.

— Poxa até que enfim... Será que você tem um minutinho?

— Mas quem está falando?- perguntou indignado, já levantado com a gravata na mão, em punho. Poderia usá-la como arma para salvar a vida.

— Sou eu...seu peixinho!

Agora sim. O mal estava feito, ia para cova ou direto para manicômio. Não mais a gravata, mas a camisa de força o esperava. Calou-se por um momento, rogando para que só tivesse sido um relance de tontura, alguma voz de seu interior, alguém dizendo para não se enforcar...Já ouvira falar de tanta gente que ouvia vozes, a maioria já trabalhando em terreiros mediúnicos ou largadas em hospícios, falando com árvores.

— Olha...eu não fiz nada! Sou uma pessoa normal, pago contas, tenho carro, tenho apartamento. Só estou numa fase ruim. Diga-me que não estou louco!

O peixinho, que até agora tinha uma fina voz, riu o que parecia seu borbulhar:

— Não precisa ter medo. Não sou a voz da consciência. Sou seu peixinho. Ando meio solitário também. Queria que alguém trocasse minha água.

— Trocar minha água...mas o que? — respirou fundo —  Olha...Eu sei que estou louco. Estou conversando com meu peixe...mas...

— Você não está louco! Eu existo! Sou um peixe! Preciso falar com você...Agora! Queria que trocasse minha água...não consigo enxergar...Está tudo verde...você é verde ?

O rapaz, com cara mais assustada, estava verde sim, mas de doença. Suava tanto que chegava até a molhar o chão:

— Devo estar sonhando...— dando as costas.

— Veja esta gravata listrada...Ela é azul..porque devia ser azul.

— Ok. Isso é alguma tentativa divina e barata de salvação? Olha, eu não leio livro de auto-ajudas exatamente por isso. Você quer me convencer que tudo tem que ser assim por um poder divino? Esqueça, estou vacinado contra baboseiras.... Aliás...peixinho...nem falarei com você – de um jeito insosso e incrédulo deu as costas para o peixe.

— Mas eu preciso de você!

Adotando uma postura enérgica, gritou:

— PARE! PARE! Não vê que eu quero acabar com minha vida? E você desperdiçando o meu tempo precioso, com papo de cores. Você não precisa de mim! ACABOU! E ainda falo com um peixe no aquário? É mais que sinal de loucura: é evidência.

— Eu só preciso que troque minha água...depois disso..faça o que quiser...Eu até ofereço meu aquário se você desejar se afogar nele...Você não gostaria de se afogar em condições melhores?

O homem, exausto e com olheiras, sucumbiu ao nervosismo e olhou para o aquário.

Dava apenas para ver os olhinhos esbugalhados de clemência do peixinho. A água estava tão turva. Pelo menos, se fosse morrer, que não deixasse o peixinho em condição desmazelada.

— Então...Você vai trocar? - perguntou o peie.

Olhou a gravata, olhou o aquário e decidiu ajudar o animalzinho. Pelo menos, se fosse dar um fim em sua vida, que mostrasse que deixou tudo ajeitado. Já imaginava a vizinha comentando:

- Ele nem se dignou a trocar a água do aquário, imagina se ele ia pagar o aluguel.

- Trocarei. Mas você terá que ficar CALADO, combinado? Não quero escutar animaizinhos me dando conselhos. Eu não estou na Disney.

— Sim. Combinado.

Enquanto o peixinho, morria de vontade de conversar e tentava sobreviver na pia, arfando de lado. O rapaz foi limpando o aquário e aquela trabalheira de tirar a água, limpar o vidro, tirar o lodo, e colocá-la em posição foi se dissipando aquela intenção de suicídio. Como se fosse jogado no ralo. Tirou o excesso de sujeira que acumulado pelo tempo e puro esquecimento. Como ia se matar? O peixinho, olhando com olhos arregalados, suspirava, tentando obter o máximo de vida daquele ambiente...

Do jeito que alcoólicos e viciados tem momentos de clareza, compreendeu. Tirou uma lição de ambiente, de ajuda e obviamente da própria loucura.

. O peixe voltou pro aquário. Agradeceu a gentileza:

— Obrigado!

— Peixes não agradecem.

— Gravatas não são armas! Peixes não são terapeutas. – replicou.

Depois de ter dito isso, o peixinho se calou e volto, o rapaz deixou a gravata em cima da mesa, dando um nó no aquário. E pela vida, acho que o rapaz decidiu ser pescador.


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