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Arnaldo Nogueira Jr


Adriano Neves da Costa é amazonense de Manaus. Formado em Letras pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), nasceu em 21/03/1979. Não tem trabalhos publicados. É professor do ensino regular. Diz ter profunda paixão pela prosa e enorme admiração pelos escritores Milton Hatoum e Lya Luft.


O patuá

Adriano Neves da Costa


O penetrante calor das três da tarde marcou os encontros de Malaquias e Pepita por durante um ano.

De amazônico, além da atmosfera úmida, aquela praça só tinha mesmo quatro mangueiras, uma delas centenária até.

O casal tinha como cenário um ambiente fortuito, de faces difíceis de lembrar, dado a acontecimentos vagos, sem relevância alguma.

Vivos, além dos insetos rastejantes, eram os jorros de água pelo concreto ladrilhado e disforme, de desenhos obscuros.

Era nesse lugar, de gente e bancos isolados, que Malaquias se punha a esperar por sua ambulante. Guardava sua banquinha de cocadas no fusca enferrujado e rumava ansioso por paixão.

Às vezes, Pepita já o aguardava, contando o dinheiro do dia, conferindo os penduricalhos que não eram vendidos, afixando-lhes novos preços. Ela se vestia de panos, lenços em volta dos ombros, que formavam uma singular leveza com os cabelos até a cintura.

Dali partiam para onde somente os dois gozavam de absoluta privacidade. Numa dessas ocasiões, após os desejos saciados, Malaquias e Pepita conversaram pela primeira vez sobre o futuro. Ele não via mais, aos quarenta e cinco anos, uma razão para suportar um filho no fundo de uma rede, deformado por doença rara, e uma mulher alcoólatra. Perseverava que, mesmo com um fardo na consciência, de tantos outros filhos que abandonou à própria sorte, frutos de relações conturbadas, alguém o faria sossegar em seio eterno, com sua vidinha rotineira, sem que problemas o fizessem fugir novamente.

Afinal, para Malaquias não era pecado querer ser feliz com apenas um trabalho, o seu, de vendedor de doces, um casebre de palafita e noites ardentes com a mulher que escolheu por tesão e amor, sobretudo sendo a venezuelana Pepita a sua mais nova esperança.

"— O que nós temos pra perder? Só a nossa própria vida. Você acha pouco pra recomeçar?" — insistia à parceira. Pepita, com a cabeça encostada ao braço do vendedor, pôs-se pensativa, enquanto massageava, com a ponta do dedo indicador, um dos mamilos dele.

"— Éres una fruta proibida, mi hombre!"

"— Não, nada me proíbe!"

"— E su família?"

Ele hesita um pouco. Mas a circunstância, tal como a ansiedade por mudar, enlevou-o a pensar sobre todo o sofrimento. Nada do que lhe veio à cabeça, porém, precipitou-se a muitas palavras. Só o que revelou foi a vontade final.

"— Nada me proíbe! Vamos!"

Os dois entreolharam-se, demoradamente. Pepita seguiria certamente sua intuição. Errante desde criança, conhecia as intenções por meio dos olhares humanos, e os sentimentos.

"— Yo non quiero fazer-te sofrer!"

Malaquias estava farto do presente. Com toda a experiência adquirida, ainda assim não sabia distinguir futuro de destino, daquilo que não se pode fugir. Malaquias não se voltaria tão facilmente contra suas pendências humanas, sem que nada lhe fosse cobrado e a quem estivesse ao seu redor.

"— Me prometa que você vai estar, domingo, me aguardando, no mesmo lugar, de manhã cedo, pra irmos embora, juntos, pra sempre! Vá, prometa, minha cor de canela!"

Pepita sorri, e o beija.

"— Estarei lá, mi amor! E tu mi levarás!" — disse beijando-o molhadamente na boca.

Exultante, Malaquias fez idéia da tortura que seriam os dias até o domingo.

Em casa, nada mais o perturbava. Via o filho constantemente na rede, como que despedindo-se aos poucos.

Não falou mais com a mulher. Na mesa, foi onde deixou o dinheiro que ela pediu para pagar o aluguel do quitinete, sem nem dar conta de que ela o beberia pelo menos à metade.

Tratou com mais entusiasmo os companheiros da rua, e os fregueses.

Engatilhou algumas peças do carro. Comprou combustível barato, ilegalmente, nos fundos de uma garagem cheia de pneus velhos.

Esteve, enfim, às vésperas.

Demorou a dormir. Punha e retirava o lençol, matou carapanãs, se levantava para ver o filho, aturou a noite inteira os roncos da bêbada ao lado.

Com o céu clareando, levantou-se de vez. Tudo preparado, as coisas no carro, nada mais, além de um banho, o faria ficar ali.

Terminado o asseio, olha pela última vez o garoto.

Antes de fechar a porta, pensa: "Até nunca mais, vida dos diabos".

Durante o percurso, largos sorrisos de satisfação. Não havia um rumo certo depois de apanhá-la na praça. Isso a gente decide!

Ao chegar, não quis incomodar um mendigo deitado no banco, em que costumava esperá-la. Decidiu aguardar encostado no carro.

Passaram-se as horas, e a paciência. "Mas ela disse que vinha, ela vem" — pensava a cada surto de agonia.

Quando a respiração ofegante já não o deixava mais raciocinar, veio na bicicleta um garoto, talvez filho de uma prostituta dos arredores.

Entregou-lhe um patuá vermelho, de lã, com o fundo puído.

Malaquias o abriu imediatamente. Lá estavam três pedrinhas de jaspe, e um singelo bilhete, que dizia:

"Ti prometi, mi amor, i cumpro-te. Vá, leve-me contigo, mi energia, mi sentimiento estan todos nestas pedras. Leve-me, leve-me ahora, i serás feliz comigo, da maneira que quiseres."

Não se tratava de uma brincadeira. Malaquias entendeu. Não se moveu do lugar por alguns minutos. Mas não conseguiu conter o choro, ao entrar no carro encostar a cabeça no volante.

Chorou incontrolavelmente, até o meio-dia.


E-Mail: adrianocosta@ig.com.br

 

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