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Arnaldo Nogueira Jr


Ana Claudia Calomeni (1964) é carioca formada em jornalismo pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estreou na literatura no final do ano de 2000 com a publicação de um conto e dois mini contos no livro “TOTAL”, antologia de contos, crônicas e poesias organizada pelo poeta Cairo Trindade. No mesmo ano recebeu menção honrosa no 11º Concurso de Contos Paulo Leminski com "Por um fio de sangue", publicado na antologia.


ele e ela

Ana Claudia Calomeni


se conhecem num bloco de pierrôs em que ela é a única colombina. Ela bebe cerveja. Ele, caipirinha. Se vêem, sorriem, se beijam.

Quando nos conhecemos ele disse que gostou da minha ousadia. "Ousadia? Mas esse cara nem me conhece", pensei, mas aceitei a cantada. Na verdade, achei aquele elogio o máximo! Ficamos juntos até o bloco se desfazer no Largo dos Guimarães.

Ele não consegue parar de pensar nela. Gosta de imaginar qual é a forma do seu corpo sem fantasia. Passa horas olhando vitrines, tentando adivinhar em que tipo de roupa ela se encaixa melhor, o tamanho, o comprimento...

Um dia o vi olhando uma vitrine de roupas femininas. Admirava os manequins como se visse mulheres no lugar dos bonecos. Parei na sua frente, ele me olhou como quem não acreditasse, sorriu leve, comentou algo sobre "...a ressaca daquele dia", falou mais algumas coisas que eu não consegui decifrar, muito menos tentei entender. Meu pensamento estava preso na imagem dele refletida na vitrine. Escrevi num papel meu telefone. "Não...", ele disse, e eu recuei, "...esse não é o seu tipo de roupa", continuou, esticando o braço, e eu voltei à posição original, como se nada tivesse sido dito. Ele dobrou o papel sem reparar que o meu nome não estava lá. Me beijou no canto da boca.

Ele telefona para ela, sentindo um aperto desconjuntado no peito. Não haviam dito seus nomes, era como se se conhecessem há muito...

Acordei com a voz dele na secretária eletrônica cantando "colombina onde está você, eu vou dançar o iê ie iê. Me liga". Eu corri pra atender, mas não deu tempo. Deixou um número. Nos encontramos no Largo. "Não consigo parar de pensar em você. Quero continuar o que ainda não começamos", ele disse me olhando fundo. Eu sorri. Sempre gostei de paradoxos.

"Te amo", ela diz, mas ele não acredita, mesmo sabendo que ela não mente. Ela faz declarações de amor com a mesma tranqüilidade que acende um cigarro depois do café ou come um prato de filé com fritas. Aos cinqüenta anos um homem já tem opinião formada sobre o que é o amor e ele sabe que uma pessoa capaz de dizer te amo de forma tão natural apenas pensa sentir o que diz. "Você acha que me ama", ele responde. Ela rodopia o corpo leve, inescrupuloso, e sai, batendo a porta do apartamento. Na esquina da rua se vira e acena para ele, que recua um passo da janela, se protegendo atrás das cortinas. Ela espera alguns segundos, ele reaparece e acena de volta com um gesto duro e frio como um espasmo.

Ela levanta de leve os ombros, dá meia-volta e dobra a esquina.

Ele se senta na poltrona perto da janela, acende um cigarro e olha a fumaça.

Ele achava que me conhecia. Dizia que eu pensava que o amava. Acreditava me conhecer mais do que eu mesma. Sabe como é, coisa de homem que acha que já viveu tudo. Na época ele preparava uma tese de mestrado sobre o amor. Algo sobre manifestações amorosas à luz da sociedade pós-moderna. Acho que ele ia ter um bocado de trabalho. Na primeira vez que transamos, ele jurou que me amaria pra sempre se eu continuasse fazendo sexo oral nele daquele jeito. Ali eu percebi que ele ia ter que pesquisar muito pra desenvolver uma tese convincente. Eu não acho que um homem que jura amor eterno a uma mulher só pelo jeito que ela chupa ele entenda realmente do assunto. Talvez ele só entenda mesmo de sexo oral. O que, cá pra nós, não deixa de ser uma vantagem.

O cheiro dela. É um cheiro que ele não sabe explicar, um cheiro impossível, que ele só sente quando não sente direito, só percebe quando não presta atenção, misturado com cheiro de rosa, incenso, creme hidratante e chiclete de canela, que ela gruda nas costas da mão quando toma suco de beterraba com laranja. "Pra saúde", ela diz, brindando o copo num outro imaginário, e bebe o conteúdo quase de um gole só, de olhos fechados para não sentir o gosto. Abre um sorriso satisfeito, desfaz a careta refletida no vidro do copo, leva a mão à boca e resgata o chiclete ainda úmido.

Um dia peguei na mesinha de cabeceira da cama dele uma matéria de jornal: "Machos e fêmeas: o poder do cheiro nas relações amorosas". Ali explicava que homens mais velhos se interessam por mulheres mais novas por causa do cheiro delas. É que essas mulheres, como as fêmeas de qualquer espécie, exalam um cheiro mais forte, e isso compensa a perda progressiva do olfato dos homens mais velhos, o que também acontece aos machos de qualquer espécie. Achei aquilo tudo muito primata pro meu gosto, mas entendi porque ele ultimamente andava cheirando as minhas calcinhas.

Os dois primeiros anos deles juntos são ótimos. Ele gosta da juventude dela, do seu jeito apressado de encarar as coisas. Olha para ela e se lembra dele.

Sabe quando uma pessoa te olha tão através de você que alcança aquilo que está lá atrás e nem você enxerga mais? Pois é, não foram poucas as vezes em que ele me olhou assim. Uma vez eu virei pra trás e vi que não tinha ninguém. Achei divertido, mas foi aí que comecei a entender sem ainda saber: eu já estava só.

"Sinto uma certa pressa", ela diz. "De quê?", ele quer saber, mas ela não sabe responder. Ele gosta de palavras, explicações, e algumas ela não sabe dar.

Eu gostava da maturidade dele. Daquele jeito pouco apressado de olhar o mundo. Os cabelos grisalhos, os olhos por trás dos óculos, a calma, principalmente a calma. Uma calma típica dos que sabem e não têm medo disso, dos que sabem que nem sempre foi assim. Era aquela calma dele que eu procurava, mas eu tinha pressa, muita pressa de encontrá-la. E foi justamente aquela calma que um dia começou a ocupar espaços desconhecidos em mim e me revelou uma solidão imensa, só minha: a solidão de mim. Tive medo, muito medo, do silêncio. Era como se de repente não houvesse mais nada além das paredes daquele apartamento.

Ele a abraça. Eles transam. Ela vai embora, levando a imagem dele refletida na vitrine.

Enchi a casa de espelhos, na esperança de que muitos de nós ocupassem espaços nos quais não conseguíamos mais circular. Eu já não conhecia mais os caminhos, não era capaz de me distinguir daqueles reflexos, não sabia mais que direção tomar. Minha vida virou um labirinto povoado de fantasmas de nós dois. Quando os aços dos espelhos passaram a ser minha única realidade, fui embora.

Hoje é segunda-feira de carnaval. Pierrôs, colombinas, melindrosas, pandeiros e cuícas se misturam no Largo dos Guimarães e eu aqui, relatando um fato a fria distância, como se a história nunca tivesse sido minha. Faz tempo que ela foi embora e ainda sinto uma saudade alucinada de nós. Um fantasma vira aquela mesma esquina ali embaixo há meses e quanto mais me escondo atrás das cortinas, quanto mais cigarros acendo tentando moldar com a fumaça uma outra imagem que não a dela, mais me aflijo neste apartamento incompleto. O apartamento está em pedaços. Os espelhos aumentam um vazio que parece não ter fim, perpetuam este espaço no qual me perco e eu aqui, sentado nesta poltrona, desejando vê-la surgir de dentro deles e dizer que tudo não passou de um inocente pavor.

Outro dia, era uma segunda-feira de carnaval, cuícas, pierrôs, pandeiros, colombinas, melindrosas, se misturavam no Largo dos Guimarães. Senti saudades. Às vezes tenho vontade de voltar e explicar o pavor que senti.


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