Desculpas Sinceras

Andréa Buschinelli



Eu desculpo você sinceramente e definitivamente: para nunca mais ser e para nunca mais doer em nenhum de nós. Desculpo ainda que você nunca tenha me pedido desculpas. São desculpas inquestionáveis, independentes, não sujeitas a termo, condição ou encargo.

Desculpo o fato de você ter ido embora sem querer passar pelo adeus, num domingo nublado e chuvoso: dia que eu detesto desde pequena. Desculpo por você ter mentido, por você não ter olhado nos meus olhos e ter me dito a verdade que eu precisava escutar. Desculpo também por tudo isso ter acontecido a poucos dias do natal e por você ter feitos planos, sem que eu soubesse e sem que eu tivesse a oportunidade de também fazê-los.

Desculpo pelas promessas quebradas, pelas palavras não ditas. Desculpo a sua ausência e a sua falta de sensatez quando eu precisei, de verdade, de você. Desculpo por você ter me julgado, por ter me criticado, por não ter me compreendido. Desculpo a sua falta de fé.

Também te desculpo pelo depois. Pelas noites que não dormi, pelos dias e meses que perdi. Pelas festas que não fui, pelos telefonemas que não atendi, pelos amigos que magoei, ainda que indiretamente, pelos amores que deixei de conhecer, pelas viagens que deixei de fazer. Desculpo você pelos quilos que perdi, pela minha austeridade e intransigência perante o mundo. Desculpo-lhe por ter me feito virar pedra, até mesmo com a minha família, e pelas consequências disso tudo na minha vida.

Desculpo você pelas flores, mensagens e e-mails esperançosos que você me enviou, mas, que, na verdade, nada mais eram do que uma forma mesquinha de me manter sempre presa a você. Desculpo porque sei que você teve medo. Medo de que eu fosse embora da sua vida. Medo de se arrepender por isso. Eu te desculpo, de coração. E também entendo.

Desculpo você, principalmente, por você não ter feito a única coisa que pedi: dizer que o sentimento acabou. Você nunca fez isso. E olha que eu implorei muitas vezes por isso, porque eu queria ser livre e você não deixou. Desculpo você por isso, por ter feito eu sentir a fraqueza e uma dependência tosca, porque depois eu me tornei forte. E fui eu quem tomou a coragem e acabou por dizer as palavras que precisavam ser ditas: “Eu não amo mais você.”

Desculpo-lhe ainda pela resposta injusta que recebi, pelo mau julgamento que você fez a meu respeito, achando que o que eu queria, era, na verdade, magoá-lo ou esfregar na sua cara que eu estava feliz sem você. Não sou isso e você sabe muito bem o que carrego no coração. A verdade verdadeira é que eu cumpri uma promessa feita por nós dois há tempos: a de zelar pela honestidade, pela verdade e pela amizade. Fiz isso, ainda que eu tenha sido a parte fraca na história. Porque eu tomei folego e soube recomeçar.

Desculpo você, sobretudo, porque confio em Deus e sei que Ele quis assim. Desejo a sua felicidade, como desejo a felicidade das minhas irmãs. Por isso, eu te desculpo irrevogavelmente e incondicionalmente. Desculpo por mim e por você.

Quanto a mim, sei que aprendi muito com tudo isso. Aprendi a perdoar, sem esperar a contrapartida, a amar sem o devido retorno, a compreender, mesmo sendo uma incompreendida.

Preciso dizer: a vida nunca foi tão clara depois de você. Aprendi a viver, a ser quem sou sem culpas.

Portanto, além de ter desculpado você sinceramente e expressamente, aproveito a oportunidade, para também pedir desculpas (embora eu já o tenha feito inúmeras vezes) e para dizer: obrigado pelo aprendizado.


Andréa Buschinelli, 26 anos, é advogada formada pela PUC-SP. Sem trabalhos publicados.

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