Marcolina-corpo-de-sereia
Nilza Amaral
Não serei diferente do que sou, tenho
muito prazer
em minha condição. Sempre sou acariciada.
(Uma jovem feiticeira francesa de 1660)
Nascera linda. Crescera maravilhosa. Cuidava dos porcos e
das galinhas. Chafurdava na lama, calçada com suas botas de borracha preta que
resguardavam os membros em mutação, abrigava os cabelos de seda do sol inclemente sob um
saco de estopa amarrado à bandeira de rebeldes.
Rebelde não era. Mas a ponta da luxúria já era incipiente. Insidiosa, começava a
escalar a árvore do desejo pela raiz. Marcolina colecionava revistas que chegavam à
venda na pequena vila de pescadores, um lapso do correio, pois revistas fashion look e
vogues estrangeiras, outras do mundo inteiro, até uma nacional com apresentação de
modelos com traseiros superdesenvolvidos, misturavam-se às batatas e à ração animal.
"Leve, leve, para que me servem", dizia o vendeiro, "E para o que te
servem, Marcolina? - Vai mostrar aos porcos, engordar suas vistas? ·
Marcolina-corpo-de-sereia morava junto ao mar, respirava o ar de sal e algas, ouvia cantos
ao longe, ninfa ingênua que se transmutava sutilmente à medida que se banhava abaixo da
cintura, nas ondas encrespadas do mar, no fundo de seu quintal.
Marcolina-corpo-de-sereia ainda não sabia para o que as tais revistas serviam e carregava
todas, tinha a coleção debaixo de sua cama, o lugar ideal para o esconderijo, jamais
vasculhado pelas vassouras que passavam ao largo.
Marcolina crescia. Os seios em botão afloravam pontudos na blusa, os pêlos dourados,
penugem de seda, cobriam seu corpo alvo, até a cintura. Abaixo desta, a indagação.
Marcolina virava sereia e ninguém percebia, nem os porcos satisfeitos com a lavagem
diária não queriam saber sobre o sexo ou a imagem de quem os alimentava.
À noite Marcolina sonhava, folheando as revistas e descobrindo mulheres belas, despidas e
ousadas, famosas mulheres da cidade. E desejava, ansiava, suspirava.
Um dia foi dar comida aos porcos, nua da cintura para cima. E o tio velho, os pais
alienados, até os porcos pararam, o mundo cessou o seu giro, o sol brilhou mais
intensamente para Marcolina desfilar. Seios empinados apontando para o céu, nua até onde
o corpo de sereia permitia, Marcolina desfilou com o balde da comida dos porcos sobre os
ombros ante os olhares tristes de todos: a princesinha transformara-se em rainha, e todos
teriam que se conformar. Só não se conformaram os porcos com o atraso da alimentação.
Marcolina decidira. Queria desfilar sobre as calçadas cobertas de ouro, na passarela onde
mulheres bonitas tornavam-se rainhas, mostravam o corpo, os seios, a bunda, suas carnes
eram admiradas por todos e premiadas pela exposição.
A mãe era ignorante; porém, a ignorância não elimina a inteligência e constatava a
mudança no comportamento de Marcolina. Aconselhar a filha? E o que poderia dizer-lhe? Que
a verdadeira essência da vida é a simplicidade e que ela deveria conformar-se cuidando
da sua vida ali naquela terra junto ao mar, alimentando os porcos, o seu dote para o
futuro? Estava preparada para o revoar de sua pombinha.
Num dia da faxina no quarto da filha pronta para o vôo, encontrou as revistas. E perdeu
metade do dia maravilhada, até que as devolveu ao esconderijo, saindo do quarto como de
um castelo encantado.
Marcolina-corpo-de-sereia não nadou. Viajou. Subiu a colina num trem de segunda
categoria, mochila nas costas, longa saia esvoaçante, e desembarcou na cidade que
oferecia ouro às mulheres formosas.
Mulher linda e exótica, mesmo com corpo de sereia, sempre acha algum malandro querendo
ser encantado pelo seu encanto. Com Marcolina não foi diferente e, ao ouvir aquela voz
maviosa perguntando onde estavam as ruas cobertas de ouro, não teve dúvida em afirmar
que conhecia o endereço das minas. Marcolina estranhou o ambiente ao sair da estação
ferroviária e mergulhar no enxame humano de seres de todos os tipos, de mulatos
mequetrefes a banqueiros raquíticos, de garotos de motos com botas de vaqueiro a
adolescentes que paravam defronte às vitrines das lojas para ajeitar a roupa barata, os
corpetes justos e as calças iguais, fazendo de todas apenas uma.
Marcolina-corpo-de-sereia queria saber das calçadas douradas, das mulheres glamourosas,
dos homens que sussurravam; seu corpo de sereia doía, sua cabeça latejava, aquele cheiro
azedo de gente junta lembrava-lhe os porcos comendo lavagem e começava a impregnar-se da
nostalgia da brisa do mar, do cheiro do sal, da lama da pocilga dos porcos.
"Eu me chamo Cobra", falou ele, indicando-lhe a moto escrachada e dizendo
"suba aí na garupa que eu vou levar você até as calçadas de ouro". E
partiram para a Mansão das Damas, a pensão na casa antiga e velha, ladeada de floreiras
com flores de plástico, "veja é aqui que você vai morar, minha rainha, e já vou
arranjar ouro para você hoje mesmo. Tome um banho, vista este vestido, jogue fora essa
sua saia de cigana", sussurrava ele em seus ouvidos, escorregando a mão pelo seu
corpo, enquanto a empurrava para um quarto minúsculo sobre uma cama quebrada, dizendo
"o banheiro é no fundo do corredor, eu já volto".
Marcolina afinal tivera os sussurros nos ouvidos. A barra dourada e desbotada de mulheres
nuas da pintura barroca na parede do quarto, mais o cansaço da viagem e a excitação da
cidade grande a deslumbraram. Deitou, dormiu e sonhou com os seus porcos. Mas antes vestiu
a roupa de escamas verdes brilhantes que amoldou o seu corpo de sereia.
A noite chegou e com ela o Cobra mais um fulano de terno e gravata que, sem abrir a boca,
mostrou-lhe uma pulseira dourada, dizendo, ofegante, "olha, eu lhe trouxe o
ouro", e logo abraçou-a pela cintura, procurando as suas profundezas, fungando e
grunhindo, mordendo seus peitos duros, retirando-lhe o ar, na busca pelo imã que atrai
todos os homens, e se da cintura para baixo Marcolina era mutante, outros orifícios o
satisfizeram. Foi a primeira noite da sereia em terra de bárbaros que em troca do ouro,
tão falso quanto a pintura das paredes, lhe extraíram prazeres. Outras noites vieram,
novas pulseiras douradas, outros fulanos de terno e gravata irromperam pelo quarto do
Cobra. Vamos ficar ricos, menina. Ela não acreditava, pedia as calçadas de ouro, as
passarelas brilhantes, os vestidos de rainha. Mas ia ficando no seu vestido de escamas
brilhantes, porque percebia que da cintura para baixo já não era mais a mesma. Alguma
coisa estranha estava acontecendo e aconteceu de fato. Examinando-se ao espelho viu
suas pernas unindo-se debaixo do vestido de escamas brilhantes e verdes, sua cintura
colava-se ao tecido, e ali no espelho a metamorfose mostrava a mais linda sereia do mundo.
Cobra não se assustou. Colocou-a de lado na garupa da moto, levou-a até o litoral e
despejou-a no mar revolto, resmungando que com cafetão de segunda classe as minas se
transformam até em peixes.
Marcolina-corpo-de-sereia vagou pelas ondas, penetrou nas profundas do oceano, distraiu-se
atrás dos peixes dourados até que, seguindo o som do canto embriagador, foi dar com os
costados na praia de sua casa. Reconheceu o terreno pelo cheiro de lavagem dos porcos e
pelo ressoar do cochilo de seu tio velho dormindo na areia.
Emergiu nua, largando as escamas brilhantes na água verde. Membros recompostos
conduziram-na até sua casa, os porcos grunhiram satisfeitos, o amanhecer a encontrou
folheando as revistas glamourosas, satisfeita de haver conhecido, se não as ruas cobertas
de ouro, o outro lado da vida para além do mar. O tio alienado acordou com os grunhidos
dos porcos, e Marcolina percebeu que já era hora de calçar as botas de borracha,
próprias para chafurdar na lama. As pulseiras douradas brilhavam em seu pulso.
Nilza Amaral Antunes de Souza é escritora e professora de línguas e
literaturas. Nasceu em Piracicaba (SP), em 1934. Posteriormente fixou residência em São
Paulo, onde terminou seus estudos superiores. Casada, iniciou a carreira vencendo
concursos literários. Publicou A balada de Estóico, O dia das
lobos - prêmio Ficção Escrita 1984, Modus diabolicus, Amor em
campo de açafrão. Trabalhou no projeto O Escritor na Biblioteca, da
Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, para o qual organizou os textos dos livros
dos anos de 1995 e 2000. Participou do projeto A Arte nas Escolas, da
Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo, do projeto DO-leitura - Doze Contistas
Paulistanos e do projeto Leitura de Textos, na Oficina literária Três
Rios, como escritora-leitora, juntamente com Lygia Fagundes Telles, Anna Maria Martins e
Cecília Prada. Em junho de 2003 ganhou o Prêmio Medalha de Prata no Concurso Marengo
Doro, da Itália, com o romance O florista.
O texto acima foi extraído do livro "Contos de escritoras brasileiras",
Livraria Martins Fontes Editora - São Paulo, 2003, pág. 275, com seleção e
organização de Lúcia Helena Vianna e Márcia Lígia Guidin.
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