Sorte

Mark Twain


Foi em Londres, num banquete oferecido em honra de dois ou três dos mais ilustres soldados ingleses desta geração. Por motivos que logo serão vistos, não direi seu verdadeiro nome. Chamá-lo-ei Tenente General Lorde Artur Scoresby, Cavalheiro da Ordem do Banho, etc. etc. etc. Que fascinação a de um nome célebre! Ali estava sentado, em carne e osso, um homem a quem já ouvira mencionar milhares de vezes desde o dia em que, há trinta anos, seu nome, bruscamente, surgira para a glória, nos campos de batalha da Criméia, para continuar desde então sempre famoso. Satisfazia minha fome e minha sede admirar e ver, sim, ver aquele semideus, inspecionando, esquadrinhando, observando a impassibilidade, a reserva e a nobre gravidade do seu semblante, a singela honestidade que se irradiava de toda a sua pessoa, a suave inconsciência da sua grandeza, inconsciência das centenas de olhares admirativos nele fixos, inconsciência de profunda, afetuosa e sincera admiração que. brotava do peito de todos.

O pastor, sentado à minha esquerda, era meu velho amigo. Era agora pastor mas passara metade da vida em acampamentos e campos de batalha, tendo sido instrutor na escola militar de Woolwich. Justamente no momento a que me referi, uma vaga e estranha luz cintilou de seus olhos, e ele me sussurrou, discretamente, apontando ao herói do banquete:

— Confidencialmente lhe direi que... que se trata de um perfeito animal.

Estas palavras constituíram para mim uma autêntica surpresa. Meu assombro não poderia ter sido maior se o protagonista tivesse sido Napoleão, Sócrates ou Salomão. De duas coisas eu tinha plena certeza: que o reverendo era um homem verdadeiro, e que sabia julgar os homens com bom senso e critério. Assim fiquei sabendo, sem a mínima dúvida, de que o mundo estava equivocado com relação àquele herói. Tratava-se, na realidade, de um animal. Oportunamente tratei de averiguar como o reverendo descobrira o segredo.

Dias depois a oportunidade se apresentou, e ele me contou o seguinte:

— Há quarenta anos eu era instrutor da academia militar de Woolwich. Encontrava-me presente quando o jovem Scoresby submeteu-se ao exame preliminar. A piedade me constrangeu o coração, pois enquanto o resto da classe respondia brilhantemente, ele... oh! Deus meu! — ele, por assim dizer, não sabia nada. Era, sem dúvida alguma, bom, suave, simpático e ingênuo. Por isso mesmo era penoso vê-lo ali, parado, imóvel, como uma estátua, dando respostas realmente milagrosas pela estupidez e ignorância. Toda a compaixão que havia no meu coração despertou a seu favor. Pensei que, quando ele voltasse a prestar os exames, seria natural. mente reprovado. Dessa maneira, não passava de um inofensivo ato de caridade aliviar-lhe a queda, tornando-a o mais suave possível. Levei-o para um canto e apurei que ele conhecia um pouco da história de César. Como não sabia. outra coisa, pus mãos à obra, e preparei-o, em curto prazo, com um certo tipo de perguntas sobre César, preferidas pelos examinadores. Eu sabia como eles a fariam. Creia-me, ou não, mas Scoresby foi aprovado brilhantemente no dia dos exames. Aprovado com esse conhecimento puramente superficial, enquanto os outros, que sabiam mil vezes mais, foram reprovados. Devido a um incidente estranhadamente afortunado — que não sucede em geral duas vezes num século — não lhe formularam uma só pergunta fora dos estreitos limites do seu aprendizado.

Era algo assombroso. Durante todo o curso, estive a seu lado, com um sentimento semelhante ao de uma mãe pelo filho entrevado. Scoresby salvava-se sempre... aparentemente por simples milagre.

Apesar disso, o seu ponto fraco, que o liquidaria definitivamente, seriam as matemáticas. Resolvi amenizar sua queda no que fosse possível. Preparei-o, enchi-o de noções, seguindo o tipo de perguntas mais prováveis pelos examinadores, e abandonei-o ao seu destino. Pois bem, senhor... imagine, se é possível, o resultado! Ante minha consternação, Scoresby obteve o primeiro prêmio! E com ele, toda uma longa ovação como aplauso.

Sonho? Não houve sonhos para mim durante toda uma semana. Minha consciência me atormentava dia e noite. Fizera aquilo por caridade, apenas para salvá-lo na queda. Jamais sonhara com resultados tão absurdos como aqueles que ocorreram. Sentia-me tão culpado e aflito como Frankestein. Havia aqui uma casca grossa a quem eu jogara no caminho das promoções. rutilantes e das responsabilidades perigosas. Só podia ocorrer uma coisa, ele e suas responsabilidades ruiriam por terra na primeira oportunidade.

Acabava de estourar a guerra na Criméia. Logo agora vai ter uma guerra, pensei. Não podia haver paz, dando àquele asno uma oportunidade de morrer antes de ser desmascarado? Esperei o terremoto. Chegou. Scoresby foi oficialmente declarado comandante de uma companhia de um regimento que ia para a frente. Há homens melhores que envelhecem e ficam brancos antes de chegarem a uma posição tão alta como esta. E quem poderia prever que poriam a carga de semelhante responsabilidade sobre os ombros tão inexperientes e inadequados? Custaria a crer se o tivesse nomeado simplesmente porta-estandarte! Mas... capitão?.. Imagine você! Foi um golpe muito duro para mim.

Preste atenção no que fiz... eu, que amo tanto o repouso e a inatividade convenci-me de que era responsável diante da Nação por aquilo, e que devia acompanhar Scoresby, protegendo assim o País dele, no que fosse passível. De maneira que reuni meus magros capitais, conseguidos à custa de três anos de trabalho e de penosa economia, e fui, com um suspiro, adquirir o lugar de porta-estandarte no seu regimento. Depois, partimos para o campo de batalha.

E ali... Oh! Deus meu! Foi terrível. Erros? Scoresby não fazia outra coisa senão cometê-los. Observe, porém, que nada ficava em segredo. Todos encaravam com prevenção a Scoresby, e forçosamente interpretavam de forma errônea sua atuação em todas as oportunidades. Tomavam seus estúpidos erros como geniais inspirações. Realmente! Seus menores erros eram suficientes para fazerem um homem de juízo chorar. E eles, em verdade, me fizeram chorar... Irritavam-me, levando-me ao desespero. O que cada vez mais me fazia transpirar de apreensão, era o fato de que a cada novo erro cometido por ele, o brilho da sua reputação aumentava. Eu pensava: "Subirá tanto, que um dia, quando descobrirem, sua queda será como a de um sol que desabasse dos céus".

Foi subindo de posto em posto sobre os cadáveres de seus superiores até que, finalmente, no mais culminante da batalha de..., morreu nosso coronel, e o coração me subiu à garganta, porque era Scoresby quem iria substituí-lo. Eis aí, pensei, dentro de dez minutos iremos todos parar no inferno.

O combate era terrível. Os aliados cediam terreno em toda a extensão do campo. Nosso regimento ocupava uma posição vital: um erro, agora, seria a destruição. Naquele momento crítico... que fez aquele imbecil imortal? Desviou o regimento do seu lugar, e ordenou uma carga contra uma colina próxima, onde não havia sequer a sombra de um inimigo.

— Eis aí, pensei. — Agora é mesmo o fim.

E para lá nos dirigimos, franqueando o alto da colina, antes que aquele movimento absurdo pudesse ser descoberto e detido. E com quem nos encontramos? Com todo um insuspeitável exército de reserva! E que aconteceu? Fomos aniquilados? Isso teria forçosamente ocorrido em noventa e nove de cem anos. Mas, não! Os russos imaginaram que um regimento isolado não viria pastar naqueles campos em semelhante circunstância. Aquilo devia ser todo o exército inglês. Era evidente que o astuto jogo russo fora adivinhado e bloqueado. De maneira que eles nos voltaram as costas e fugiram em grande confusão, franqueando a colina. Nós os perseguimos. E em menos tempo do que leva um galo para cantar, presenciamos a mais tremenda fuga até agora vista, e a derrota dos aliados se transformou numa avassaladora e esplêndida vitória. O marechal Canrobert contemplou aquilo, aturdido, cheio de assombro. E imediatamente mandou chamar Scoresby e o abraçou, condecorando-o no campo de batalha, na presença de todos os exércitos.

Que erro Scoresby cometera dessa vez? Confundira, simplesmente, sua mão direita com a esquerda. Eis tudo. Recebera ordens de retroceder e de apoiar nossa direita, e em lugar de assim proceder, retrocedera para diante, flanqueando a colina pela esquerda. Mas a fama que nesse dia conquistou como gênio militar foi difundida pelo mundo inteiro e a glória jamais será empalidecida enquanto durarem os livros de história.

Scoresby é o que de bom, amável, simpático e modesto pode ser um homem, mas não sabe o suficiente para regressar à casa quando chove. Isto é absolutamente verdadeiro. E o asno supremo do universo. E até meia hora antes, além dele e de mim, ninguém sabia disto. Scoresby tem sido perseguido, dia a dia, ano a ano, por uma sorte realmente fenomenal e assombrosa. Tem sido um brilhante soldado em todas as nossas guerras durante uma geração. Toda sua vida militar está cheia de erros, e no entanto não cometeu um só erro que não o tenha convertido em cavaleiro, barão, lorde, ou algo parecido. Olhe seu peito: parece, simplesmente, que ele está vestido de condecorações nacionais e estrangeiras. Pois bem, meu caro senhor, cada uma dessas condecorações é o documento vivo de tal ou qual alarmante estupidez. Tomadas em conjunto, são a prova de que o melhor que pode ocorrer a um homem neste mundo é nascer com sorte. Volto a repetir-lhe o que disse no banquete: Scoresby é um perfeito animal.


Mark Twain (Samuel Langhorne Clemens), nasceu na Flórida (EUA) em 1835. Foi pintor ambulante, piloto de barco no rio Mississipi, explorador de ouro e prata, jornalista, escritor, conferencista, editor — e sobretudo humorista. Em 1867 publica uma história que faria toda a América rir, atraindo para o seu nome a atenção de todos. Trata-se de “A celebre rã saltadora do Condado de Calaveras”. Em seu primeiro livro, “The Innocents Abroad”, escrito após uma excursão à Europa, tecia críticas aos costumes europeus, o que o fez cair no agrado do público. Com o sucesso, casou-se e dedicou-se a escrever. Obras como “Life on the Mississipi”, The Adventures of Tom Sawyer”, “Huckleberry Finn”, “A Tramp Abroad”, “A Connecticut Yankee in King’s Arthur’s Court”, e outras, elevaram-no à categoria de grande humorista nacional. Mark Twain faleceu em 1910.


O texto acima foi extraído do livro “Alegres histórias”, Editora Cultrix – São Paulo, 1958, pág. 171, seleção e tradução de Araújo Nabuco.

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