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Arnaldo Nogueira Jr



Miguel Sanches Neto

 


Inventário

Miguel Sanches Neto


Ouço os sons da chuva
e de um carro que passa na rua.
Tudo me dá de ombros,
a mim e a meus escombros.

Sofro como se existisse de fato
tal esta casa e este sapato
em que, por descuido, habito
com meu vazio sem vínculos.

A noite me sonega o ser.
Pela manhã serei o homem que sai,
funcionário cumpridor de regras,
aquele que tem fome e sede

e por isso vai ao mercado
e se entusiasma com queijos,
vinho pão fresco cerveja,
fugindo de toda incerteza.

Não. Não é este o tipo
de alimento que me sustenta
e sim a sombra que me inquieta
e que, com sua mão, me inventa.

Gerado na dor e na dúvida
no duro exercício da descrença,
sou vento enchendo roupas no varal
num inventário da própria ausência.


Miguel Sanches Neto é paranaense, natural de Bela Vista do Paraíso, onde nasceu em 1965. Aos quatro anos, ficou órfão de pai e passa a viver em Peabiru, no mesmo estado, onde estudou em colégio agrícola e chegou a trabalhar na agricultura. Mais tarde, formou-se em Letras. É doutor em Teoria Literária (Unicamp – 1998) e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR). Crítico literário da Gazeta do Povo (PR) e da revista Carta Capital, o autor vem recebendo críticas favoráveis à sua obra, como a recentemente publicada sobre o romance “Um amor anarquista”, lançado em 2005 pela Record e que o consagrou como “o melhor autor da sua geração”, de acordo com artigo do jornalista Mario Sabino, da revista Veja (24/08/2005).  Recebeu o Prêmio Nacional Luis Delfino pelo livro “Inscrições a giz” (FCC, 1991) e o Prêmio Cruz e Souza/2002 por “Hóspede secreto” (contos, Record, 2003).

É autor ainda de:

Chove sobre minha infância ( romance, editora Record, 2000);

Você sempre à minha volta (cartas, editora Letras Contemporâneas, 2003);

Abandono (haicais, edição do autor, 2003);

Venho de um país obscuro (poesia, editora Bertrand-Brasil, 2005);

Biblioteca Trevisan (crítica);

Entre dois tempos ( ensaio literário, Unisinos, 1999);

Herdando uma biblioteca (memória, editora Record, 2004);

Amanda vai amamentar (infano-juvenil, editora Bertrand-Brasil, 2005);

Estatuto de um novo mundo para as crianças (infanto-juvenil, editora Bertrand-Brasil, 2005).


O poema acima foi extraído do livro “Venho de um país obscuro”, Editora Bertrand-Brasil - Rio de Janeiro, 2005, pág. 77.

 

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