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Arnaldo Nogueira Jr




Mauro Pinheiro


A primeira semana depois do fim

Mauro Pinheiro


No primeiro dia, ninguém lhe telefonou. As únicas vezes que. o telefone tocou foram por engano, não teria valido a pena estar vivo para atender. Chovia torrencialmente sobre Copacabana. Se por ali ainda andasse, não teria saído mesmo. O Flamengo ganhara o campeonato estadual na véspera. Algumas bombas explodiram na Irlanda, outras no Pavão-Pavãozinho. Fora isso, um dia sem maiores surpresas.

No segundo dia, enfiaram uma conta que ele nunca pagaria por baixo da porta. Do outro lado da cidade, uma mulher amarga de nome Dulce pensou, durante uma aula de semiótica, que deveria visitá-lo. Telefonar pelo menos. Ela olhou pela janela o mangue raso do Fundão e lembrou da última vez em que se viram, quando ele tentou beijá-la. Suas pálpebras estremeceram num breve asco. Ela não telefonou, não visitou, pode-se dizer mesmo que nunca mais pensou nele, até ler a notícia no jornal alguns dias depois.

No terceiro dia, seu corpo permanecia imóvel. Não ocorrera nem um espasmo post-mortem que pudesse tê-lo movido daquela posição incômoda que muitos desafetos considerariam emblemática. Uma baba parecia ter-se cristalizado no seu percurso do canto da boca à superfície do tapete, uma espécie de estalactite gástrica. No fim da tarde, o telefone tocou. Tocou várias vezes, como se não houvesse ninguém em casa. Era uma jornalista que tentava colher sua opinião sobre um acadêmico que também fora comer capim pela raiz. Apesar do frio, um sol irônico zombava de Copacabana. Num país da África, tinham descoberto a múmia mais antiga do mundo. Mas que importância podem ter as múmias para os cadáveres?

No quarto dia, ele faltou a um compromisso. Seu editor, depois de vários adiamentos, o aguardava às duas da tarde no seu escritório climatizado num edifício do centro da cidade. Bem longe de Copacabana. Deveriam discutir o relançamento de seus antigos livros e, é claro, conversar sobre o livro que deveria estar escrevendo para ser publicado até o fim do ano. Mas não havia livro nenhum pronto. Sequer um esboço mental. Nada. E às duas horas da tarde, o editor olhou para a cadeira vazia à sua frente e disse "esse cara, só matando".

No quinto dia, telefonou-lhe seu médico, que tinha passado um mês viajando pela Europa e se esquecera de avisá-lo que seu caso era grave. Grave, não: alarmante (não a ponto de fazer com que se lhe adiassem as férias, é claro). Mas a culpa era do paciente, neste caso. Tivesse este sido prevenido sobre seu trágico destino, isso nada mudaria. Seu coração amava as narrativas curtas, os fins súbitos.

No sexto dia, o porteiro bateu à sua porta, como convém aos porteiros. A vizinha reclamara de um fedor de gás no corredor. Em outro apartamento do bairro, um outro escritor, pensou duas vezes antes de ligar e chamá-lo para participar de uma mesa redonda numa faculdade na Gávea. Pesou bem as conseqüências e lembrou-se que, na última vez em que o convidara para jantar em sua casa, o surpreendera passando a mão na bunda da sua esposa na cozinha. O debate seria sobre contistas brasileiros contemporâneos. Ele era um dos melhores, tinha que admitir. Mas sua mulher, que nada dissera sobre o incidente da cozinha, estaria presente. Com sua bunda. Não. Ele nunca exporia a bunda de sua mulher à mão daquele que considerava o grande contista urbano do Brasil. E o que era um conto comparado a uma bunda.

No sétimo dia, um sol metálico refletiu sobre Copacabana a luz irreal dos seus olhos cegos. Os sobreviventes continuaram tecendo sua delicada rotina ao longo do abismo. O escritor continuava deitado ali no chão. Talvez nos últimos dias, mais uns dez bons leitores o tivessem descoberto e melhorado suas vidas. Ah, sim... algo de novo acontecera: uma mancha escura surgira entre as pernas de sua calça de ginástica. Seus órgãos exalavam um hálito sublime e devastador. Invisíveis à sua volta, seus personagens se benzeram e voltaram para suas respectivas páginas, dando lugar para que mais moscas pudessem velá-lo. A maca do rabecão não coube no elevador. Tiveram que descer João pela escada.


P.S.: Este conto, se conto for, é em memória do escritor João Antônio.


Mauro Pinheiro nasceu em 1957, no Rio de Janeiro (RJ). Aos 17 anos saiu pelo mundo. Viajou pelo Brasil durante três anos, vivendo de bicos e da solidariedade dos amigos que fez. Em 1978, saiu do país. Morou no Iraque, Inglaterra, França e Bélgica. Trabalhou como intérprete; clandestino, criou cabras, cortou lenha e, entre uma coisa e outra, começou a escrever seu primeiro romance. Mora no Rio desde 1990. Tradutor profissional, é o autor de “Cemitério de navios” (romance, 1993), “Aquidauana e outras histórias sem rumo” (contos, 1997), “Concerto para corda e pescoço” (romance, 2000), e “Quando só restar o mundo” (romance, 2002). Publicou contos nas revistas "Tange Rede" e "Ficções" (RJ), e no livro "Geração 90 – manuscritos de computador".


Texto extraído do livro “Geração 90 – manuscritos de computador”, Boitempo Editorial, São Paulo, 2001, pág. 199, organização de Nelson de Oliveira.

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João Antonio e sua obra clicando aqui.

 

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