Inocência

Martins Fontes


Criança ingênua, o dia inteiro,
com os meus caniços de taquara,
ficava eu, ao sol de então,
junto dos tanques, no terreiro,
soprando a espuma, leve e clara,
fazendo bolhas de sabão.

Corando a roupa, entre cantigas,
as lavadeiras, que passavam,
interrompiam a canção...
Riam-se as pobres raparigas,
vendo as imagens que brilhavam,
nas minhas bolhas de sabão.

Cresci. Sofri. Sonhando vivo.
E, homem e artista, ainda agora,
me apraz aquela distração...
E fico, às vezes, pensativo,
fazendo versos, como outrora
fazia bolhas de sabão.

E velho, um dia, de repente,
sem ter, de fato, sido nada,
pois tudo é apenas ilusão,
há de extinguir-se a alma inocente
que em mim fulgura, evaporada
como uma bolha de sabão.


José Martins Fontes, poeta brasileiro, nasceu em Santos (SP), no dia 23 de junho de 1884. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro (RJ), em 1906. Durante o curso, colaborou nos jornais "Gazeta de Notícias", "O País", nas revistas "Careta" e "Kosmos" e em outros periódicos. Em 1910 foi auxiliar de Oswaldo Cruz na campanha de saneamento do Rio de Janeiro, além de chefe da Assistência Escolar da Prefeitura. Trabalhou na Santa Casa de Misericórdia de Santos, onde se especializou em doenças do pulmão, com ênfase no tratamento da tuberculose. Mudou-se para Paris (França) em 1914, e lá fundou, com Olavo Bilac, uma Agência Americana para serviços de propaganda dos produtos brasileiros na Europa e em outros países. A partir de 1924 tornou-se correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. É o patrono da cadeira nº 26 da Academia Paulista de Letras.

O escritor faleceu em Santos no dia 25 de junho de 1937.

Algumas obras do autor:

Verão

Rosicler

Vulcão

Marabá

Escarlate

Prometeu

A Flauta Encantada

Sevilha

Guanabara

Nos Rosais das Estrelas

Fantástica

Canções do meu Vergel.

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