[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr



Márcia Denser


O animal dos motéis

Márcia Denser


“Mas sempre acabo em seus braços / do jeito
que você quer...” - Desabafo - Roberto Carlos


Deitamos ouvindo Roberto Carlos, a voz dos motéis, “por que me arrasto a seus pés?”. Porque sexo é isso mesmo. Essa gana de rastejar com Roberto, no coito dos motéis. Ele diz:esse motel já foi bom, e eu olho o banheiro, caixa amplificadora de fibroplast, as toalhas embaladas em sacos plásticos, os lençóis castanhos com ramagens duvidosas entre encardido e vestígios de cor, os três espelhos redondos, montados em curvim (um em frente ao outro, no meio a cama, o terceiro no teto, sobre a cama), claro que para transformar-nos numa espécie de confuso coquetel de siris assados: pernas, braços, carnes vivas, canteiro de patas, antenas, pêlos moventes, espiando de esguelha uma outra hidra em perspectiva no espelho da frente, de trás, de cima, de baixo, devassados, misturados, confundidos, a 850,00 a diária, porque (e então eu sei porque) todos os motéis é sempre o mesmo motel, o animal mitológico, a quimera que se arrasta interminávelmente na madrugada ao som de Roberto Carlos.

Apoiada nos cotovelos, a cabeça dela surge no horizonte do espelho. A brasa do cigarro, no ponto quase central da bola ensombrecida, como o primeiro sol de um universo, sopra a fumaça:

— Você já leu Hemingway?

— O que?

— Perguntei se você já leu...

— É importante? Ele soergue-se ligeiramente.

— Fatos. Parece que ele só se preocupa com os fatos, no princípio. Naquele conto do toureiro, não lembro o título. Começa que o sujeito bate na porta do patrão, quer voltar às corridas, o patrão não está interessado, diz: só nas noturnas, 300 pesos, discutem o salário. Muito seco, direto. De repente, o patrão olha bem na cara do toureiro e pensa: é assim que todos morrem. E pronto. Eis a cabeça do monstro, a cutilada no boca do estômago, Hemingway nos pega despre...

— E o cara? Morre? reprime um bocejo.

— A morte só o rodeia. Toda a tourada. Ele a persegue. Ela o arranha e o abandona. Mas ele volta a provocá-la. Como um cego. Ou um tolo. É inútil. Duas vezes entre os chifres do touro. Debaixo das patas dos cavalos. A espada se parte. Não acerta — o que é muito simples para um veterano — o local exato no dorso do animal, do diâmetro de uma moeda de prata. A morte apenas o maltrata, como e estivesse brincando, como se ele não a merecesse, como...

— Mas ele morre ou o quê?

—Não sei, o picador,

— Como não sabe? Então esse Hemingway é...

— Precisaria ler a estória

— Certo. Você já me contou.

A brasa desaparece no espelho, se apaga. É como uma sina, ela pensa, contemplar esta cabeça com fria ternura ou recorrer mais para trás, para uma piedade distante detonada pelo álcool, pela solidão, aquele sanduíche cinzento de noites de leitura e insônia e cigarros,como uma única noite boreal, amanhecer e crepúsculo, luz intermediária e intermitência de néon, de café, de galeria, de esperar sem mais esperar, suplicar, implorar por aquilo que sequer tem nome. O toureiro não merecia a morte. É como uma sina. Rastejar com Roberto: “você é mais que um problema / é uma loucura qualquer”, porque ele sabe de uma porção de coisas sem saber, coisas que eu ignoro. Lembra a Maga, uma personagem de Cortázar que, por sinal, ignora Hemingway e este, claro, além de vocês e todos, todos nós, amantes e condenados e Roberto.

Um touro espreita no fundo dos olhos dele: duas faíscas cúmplices transmitem a ordem ao dedo áspero que vadiamente começa a percorrer a coxa, queimado cilindro macio de luz negra. O dedo vai subindo, pincelando as penugens invisíveis — há partículas fosforescentes na superfície da pele — o dedo, e então são os dedos, vão se abrindo, agarrando, numa fofa mordida, a região dos pelos, capturando os lábios, separando-os com delicadeza: o indicador resvala pela fresta úmida. Imobiliza-o um instante lá dentro e então o leva à boca. A cabeça está inclinada sobre seu ventre, mas ela sabe que ele sorrí: um garoto mergulhando o pão na panela e experimentando o molho. Olha-a, a mão agora pousada no seio, o tato pegajoso, feito clara de ovo.

— Você complica tudo. As faíscas divertidas, perversas. Como se fosse possível o amor, como se fosse muito fácil, muito simples. Possível. Fácil. Simples. Do diâmetro de uma moeda de prata. Uma fresta úmida. O ponto exato. Amor.

— Nunca estive na Espanha, ou no México. Ela acende outro cigarro.

— Ou aqui. Está precisando de um homem.

— Já pensei nisso. Aliás, não faço outra coisa.

— Pergunto se você já fez algo à respeito.

— Sinceramente...

— Por você mesma. Imagina que eu sou um idiota. Sei o que está pensando. Essa estória de toureiros fodidos e do tal Hemingway. Muito complicado, não acha?

— Então, nada de romance?

— As mulheres não mudem...

— Nem os homens. É bobagem. Penso: sinto-os pulsar aqui dentro, cegos, surdos, solitariamente, me tocando até à loucura, me penetrando até à loucura. Certo, o prazer também é meu, mas duplamente solitário, uma tarefa que cumprimos tão distraidamente, tão alheiamente como um violino que se tocasse a si próprio num dormitório de quartel, tarefa da qual só poderia, só deveria, nascer amor e música, no entanto...

— Roberto Carlos, aponta o alto-falante.

— Não estou falando de fundo musical, e depois isso é outra estória (“por que me arrasto?”).

— Está querendo dizer que eu só me masturbo?

— Que nós.

— Isso. Que nós.

— Também não sente assim?

— Sei lá. Às vezes...

— É isso.

— O que quer? É bom pra mim, bom pra você...

— Exato. Bom-mim, bom-você, um em Guadalupe, outro no Japão, se fodendo por controle remoto.

— Garota engraçada, você. Vamos beber? Fisgou o cardápio na mesinha.

A brasa inflamou-se novamente no espelho: uma erupção solar. Mas este já é um outro capitulo: agora beber, começar a beber e ladeira abaixo.

— Vodca. Quero vodca.

— Pura? O telefone suspenso na pergunta, a expressão surpresa.

— Não. Com gelo.

Pousa o fone no gancho. Fita-a intrigado, ajustando o travesseiro.

O corpo enorme, em potente repouso, não faz parte do rosto. Coça os cabelinhos do peito. Ela está enrodilhada ao pé da cama (como se camas redondas tivessem alguma referência. São como o universo, não há direção, norte, sul, direita, esquerda, em cima, embaixo, esses caras são mesmo diabólicos, Deus é diabólico, ou seremos nós que...)

Ele se inclina, acariciando-lhe as ancas dobradas, avaliando-as no espelho às suas costas, as nádegas projetando aquele invisível biquíni de sol. Afaga-lhe o rosto, os cabelos, hesitando, ganhando tempo, subornando, com medo de falar:

— Bebe sempre vodca pura?

— As bandejas passeiam no pátio repletas de coquetéis de frutas, martinis doces...

— O que há de errado?

— Para as garotas boazinhas.

— E você? Não é? O dedo contorna os lábios: vai me calar, me silenciar com esse beijo, entupir-me com essa língua, porque esses encontros são acidentes vertiginosos cujo resultado é o titã de mil olhos, mil bocas famintas que murmuram te amo, te amo, e que respondem te amo, te amo, zumbindo num cercado de mentiras ciciantes de sons no espelho, dimensão da penumbra da vida, caixa de música abafando um só tema a repetir te amo, te amo, perseguindo o elo de uma cadeia prisioneira que nos abandona assim que sai da nossa boca, e a sua repetição implica na perseguição eterna daquilo que já esteve atrás da boca, do travesseiro. Ao formularmos com os lábios o rolo doce da língua e da saliva, saltamos à frente do tempo e imediatamente já nos sentimos abandonados por esse pássaro fugidio, que se debate te amo, te amo, ato irrefletido de cuspir, separar as coxas e tomar a primeira estocada, recuar, avançar, senti-lo rígido como um cilindro de aço vivo e então capturá-lo, mas, de leve, uns cinco centímetros, não mais, de repente, sugá-lo todo para dentro, frente a frente, de cócoras, como crianças agachadas brincando com bolinhas de gude, hipnotizadas pelo movimento das bolinhas que rolam, evoluem, param, prosseguem — o entrechoque das bolinhas liquidas — nova fisgada, novo recuo de quadris; as bocas navegando nas bocas, no rio das bocas, no mar das bocas, nas cavernas dos dentes e da língua, na correnteza das bocas, gargantas, ventres molhados e, lá embaixo, o borbulhar estourando as margens que recuam, cedem, enquanto ele bombeia, macho e terno, e bate e bate, martela o limite viscoso, implorando para nascer de novo, e combate e se estimula e a maltrata porque ela uiva, sussurra obscenidades — as primeiras palavras que um homem escuta, e as últimas — evoluindo, insuportável, maldita, insuportável, adorável, não é mais prazer, não é mais dor e é o milagre, a vertiginosa erupção, um terremoto visto ao longe e o centro de um furacão, assistir uma catástrofe atômica e, ao mesmo tempo, estar no centro dela, como Deus, como Deus, como Deus.

Depois do violento crepitar frio, o movimento cessa e então voltar a ouvir o vento se lastimando nas marquises dos edifícios, nas estruturas de aço da cidade industrial mais próxima e, não fosse o vento, poder ouvir até a nós mesmos (que é a última coisa que gostaríamos de ouvir na freqüência dos motéis), por isso, nosso ego logrado retorna, monstro rugidor e oceânico, às cavernas interiores, lá se aferrolhando

Lá em cima, no espelho, duas, quatro, seis, oito larvas rotas, libertas do emaranhado.

Termina a cerveja e dá-lhe uma palmada na coxa:

— Vamos (“pensando bem, amanhã eu nem vou trabalhar / e além do mais...”)

— Ainda tem vodca. Ela aponta um dedo preguiçoso para o copo dois terços vazio.

— Fica pra outra vez, já veste a camisa


Márcia
Denser nasceu em São Paulo e publicou seu primeiro livro, Tango Fantasma, aos 23 anos. Aos 24 anos iniciou seus trabalhos jornalísticos na revista "Nova", da Editora Abril, onde, por dois anos, assinou a coluna "Nova Lê Livros". Formou-se em Comunicações e Artes pelo Mackenzie. Jornalista, publicitária e editora, trabalhou na Salles, Folha, Interview, Around, Vogue, A-Z, onde foi redatora de criação, repórter especial, cronista e colunista de livros.

Coordenadora de Oficinas Literárias desde 1990, tem obras publicadas na Alemanha, Suíça, Holanda, Estados Unidos e Rússia. Participou do Lateinamerikas'90, programa de intercâmbio cultural Brasil/Alemanha, ao lado de Marcos Rey, Oswaldo França Jr., Nelson Pereira dos Santos e Suzana Amaral, dando conferências em oito cidades da Europa. Ficou conhecida como a escritora favorita de Paulo Francis que dela disse: "Há no Brasil uma escritora que sabe escrever. Seu nome é Márcia Denser. Tem uma linguagem límpida, sem retoques, bem diversa desse pseudo-romantismo retórico que caracteriza boa parte da nossa ficção. Denser situa-se entre os raros criadores de linguagem, aqueles que têm algo de muito novo a dizer. Quanto aos outros, resta-lhes a rabeira da História.”

Muitos a intitulam de musa dark da literatura brasileira.

Bibliografia:

No Brasil:

- Tango Fantasma (contos), 1977.

- O Animal dos Motéis (novela em episódios), 1981.

- Muito Prazer (contos eróticos femininos), antologia, 1982.

- O Prazer é Todo Meu (contos eróticos), antologia, 1984.

- Exercícios para o Pecado (novelas e contos), 1984.

- Diana Caçadora (contos), 1986.

- A Ponte das Estrelas (aventura), 1994.

- Diana Caçadora & Outras Histórias (antologia pessoal, no prelo).

No Exterior:

- Tigerin und Leopard, Amman, Zurique, 1988, e Rowoholt Verlag, Suíça, 1992.

- Het Lekkerste in he Leven, Novib, Utrecht, Holanda, 1992.

- On Hundred Years After Tomorrow (brazilian women's in the 20th century), Indiana Press, Indiana, USA, 1994.

- Urban Voices, Contemporary Short Stories from Brazil, University Press of America, Maryland, USA, 1999.


Este texto foi extraído do livro "Animal dos Motéis", Civilização Brasileira- Massao Ono / Editores — São Paulo, 1981, pág. 09.

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo