Meu ventilador

Maurício Cintrão


Meu ventilador faz barulho. Tudo bem, você vai dizer que muitas pessoas têm ventiladores barulhentos e não é por isso que esses eletro-barulho-domésticos ganham crônicas. Azar deles, porque eu escrevo crônicas e escolhi tratar do ventilador barulhento que é meu companheiro das noites endiabradas de calor. Ventilador, aliás, que é só meu; ninguém mais quer.

Não entendo o porquê desse preconceito contra ele. O coitado fica encalhado a maior parte do ano. Vem o calor e com ele a necessidade de usá-lo. Mas ninguém quer saber de ligar o glorioso. Minha mulher é veemente: com ventilador ligado não dá. Não dá prá dormir, ela quer dizer.

É interessante porque a população doméstica adora dormir com a televisão ligada. Deve ser algum elo perdido. Sentem falta dos barulhos primais. Então, qualquer tiroteiozinho funciona melhor do que um Lexotan. Eu não suporto dormir com televisão ligada. Só faço isso quando estou sozinho e, ainda assim, ligo em algum canal de música, bem baixinho e, até logo.

Em uma noite calorenta, porém, sou muito mais o ventilador treme-treme do que um especial country com Dolly Parton fremindo feito adolescente em transe ou Faith Hill imitando menininha virgem. Está certo que elas me fazem dormir lembrando das vizinhas lá do Ipiranga, mas isso é outra história. Prefiro o velho e bom tufão de tomada. Mesmo porque, com esse calor, é melhor esfriar do que esquentar os devaneios.

E o danado do ventilador é resistente. As crianças já cismaram que ele dava um bom apontador. Mas gastaram um lápis nas pás do equipamento e se convencerem que não valia a pena. As pás ficaram meio tortas, mas o ventilador ainda funciona. Mudou um pouco o barulho, concordo. Desde então, anda meio criativo. Chega a virar noites inteiras com absoluta originalidade.

A cada conjunto de circunvoluções, muda de som. É incrível! Uma hora, lembra ferry-boat em noite de mar tranqüilo. Em outra, parece tampa mal fechada de motor de Rural Willys (desculpem os mais novos, a Rural é um automóvel dos anos 60). O ventilador também tem seus momentos de furadeira do vizinho e busca outras variações que eu ainda não consegui identificar. A oposição doméstica declara já ter ouvido o coitado uivando. Eu acho que é pura intriga.

O fato é que, neste momento, com esse calor de canícula senegalesa, o ventilador barulhento está aqui ao meu lado, fazendo o ar circular feito tropa de choque em dia de manifestação proibida. E eu escrevo tranqüilo esta crônica, me sentindo o Rambo naquele helicóptero que já-já vai cair. Vida de cronista é assim: pura emoção.


Maurício Cintrão é cronista e jornalista. Colabora com vários jornais e revistas do Interior de São Paulo, além de sítios de literatura na Internet. Trabalha na assessoria de Comunicação Social da NovaDutra, empresa que administra a Via Dutra, principal ligação rodoviária entre Rio e São Paulo. Antigo freqüentador das páginas do Releituras, lança agora, por ocasião da 18ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o livro "O gordinho e a menina de rosa", Editora Protexto - Curitiba (PR), 2004. O texto acima nos foi enviado diretamente pelo autor.

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