Miguel de Cervantes
Quase surgia a aurora quando o esquadrão se desfez, mas não o aborrecimento dos manchegos pelo pouco que havia adiantado sua música; ao que se foram para a casa de certo cavalheiro amigo, dos que em Salamanca são chamados de generosos, e se sentam em costas de banco; o qual era moço, rico, gastador, músico, enamorado, e sobretudo amigo de valentes, ao qual contaram por extenso o acontecido, a beleza, donaire, brio e graça da donzela, juntamente com a gravidade e fausto da tia, e o pouco ou nenhum remédio que esperavam para gozá-la, pois o da música, que era o primeiro e último serviço que eles podiam prestar-lhe, não havia adiantado e não servira senão para indigná-la, com a difamação da vizinhança. O cavalheiro pois, que era de cabelinho na venta, não tardou muito em oferecer-se para conquistá-la para eles, custasse o que custasse; e naquele mesmo dia enviou um recado, tão grande como comedido, à senhora dona Claudia, pondo a seu serviço a pessoa, a vida, a fazenda e seu favor. A astuta Claudia informou-se com o pajem sobre a qualidade e condições de seu senhor, sua renda, sua inclinação e seus entretenimentos e exercícios, como se fosse tomá-lo para verdadeiro genro, e o pajem, dizendo a verdade, retratou-o de sorte que ela ficou medianamente satisfeita e enviou com ele a dama do ui com a resposta, não menos extensa e comedida que a embaixada. Entrou a dama, recebeu-a o cavalheiro cortesmente, sentou-a junto a si numa cadeira e deu-lhe um lencinho de rendas para que enxugasse o suor, porque estava algo fatigadinha da caminhada, e antes que dissesse palavra do recado que trazia, fez que lhe trouxessem uma caixa de marmelada e ele por suas mãos cortou-lhe duas boas fatias, fazendo-a limpar os dentes com dois bons pares de tragos de vinho do santo, com o qual ficou que nem uma papoula e mais contente do que se lhe tivessem dado uma prebenda. Propôs logo sua embaixada com seus vocábulos torcidos, afetados e costumados, e concluiu com uma muito forjada mentira, qual foi que sua senhora Esperança de Torralva Meneses Y Pacheco estava tão virgem como sua mãe a pariu; mas que com tudo isso não haveria para sua mercê porta fechada de sua senhora. Respondeu-lhe o cavalheiro que em tudo quanto lhe havia dito do merecimento, valor, formosura, recolhimento e alta categoria, para falar a seu modo, de sua ama, acreditava; mas que aquilo da virgindade era um tanto difícil de engolir; razão por que lhe rogava que neste ponto lhe declarasse a verdade do que sabia, e que lhe jurava a fé de cavalheiro que se desfizesse o engano lhe daria um manto de seda digno de uma princesa. Com esta promessa não foi preciso dar outra volta ao cordel do rogo, nem entesar os garrotes, para que a melindrosa dama confessasse a verdade, a qual era no momento que sua senhora dona Esperança de Torralva Meneses y Pacheco estava de três mercados, ou melhor, dizendo de três vendas, acrescentando o como e o quanto, o com quem e o onde, com outras mil circunstâncias, o que deixou dom Félix, assim se chamava o cavalheiro, satisfeito de tudo quanto queria saber; e combinou com ela que aquela mesma noite o encerrasse em casa, onde queria falar a sós com dona Esperança, sem que a tia o soubesse. Despediu-a com boas palavras e oferecimentos dirigidos a suas amas, e deu-lhe em dinheiro o quanto podia custar o negro manto. Informou-se do que teria de fazer para entrar aquela noite na casa, com que a dama se foi louca de contente, e ele ficou pensando em sua idéia e aguardando a noite, que lhe pareceu tardava mil anos, tanto desejava haver-se com aquelas circunspetas impostoras. Chegou o prazo, pois nenhum há que não chegue; e feito um São Jorge, sem amigo nem criado, se foi Dom Félix e lá constatou que a dama o esperava; abrindo a porta o pôs dentro de casa com muito tino e silêncio, e o escondeu no aposento da senhora dona Esperança, atrás das cortinas de sua cama, recomendando-lhe que não fizesse nenhum ruído, porque a senhora dona Esperança já sabia que estava ali, e que sem que a tia soubesse, por persuasão sua, queria dar-lhe todo o contentamento, e apertando-lhe a mão em sinal de palavra de que assim o faria saiu a dama e dom Félix ficou atrás da cama de sua Esperança, esperando em que iria dar aquele embuste ou enredo. Seriam as nove da noite quando dom Félix entrou e escondeu-se, e em uma sala contígua a este aposento estava a tia sentada numa cadeira baixa, de espaldar, a sobrinha num estrado fronteiro, e, no meio um grande braseiro, a casa já posta em silêncio, o escudeiro deitado, a outra dama recolhida e adormecida; só a sabedora do negócio estava de pé e solicitando que sua senhora a velha se deitasse, afirmando que as nove que o relógio havia dado eram as dez, muito desejosa de que seus acertos produzissem efeito, segundo sua senhora a moça e ela haviam combinado, quais eram: que sem que a Claudia soubesse tudo aquilo que dom Félix desse fosse só para elas, sem que a velha nada tivesse a ver, a qual era tão mesquinha e avara e tão senhora do que a sobrinha ganhava e adquiria que jamais lhe dava um só real para comprar o que extraordinariamente houvesse mister; pensando sonegar-lhe este contribuinte, dos muitos que esperavam ter andando o tempo. Mas embora a dita Esperança soubesse que dom Félix estava na casa, não sabia onde estava escondido. Convidada, pois, pelo muito silêncio da noite e pela comodidade do tempo, Claudia sentiu ganas de falar, em meio tom começou a falar à sobrinha desta maneira: Muitas vezes tenho-te dito, Esperança minha, que não se te apaguem da memória os conselhos, instruções e advertências que te dei sempre, os quais, se os guardares como deves e como me prometeste, te serão de tanta utilidade e proveito, quanto os que a experiência mesma e o tempo, que é mestre de todas as coisas, te darão a entender. Não penses que estamos em Plasencia, de onde és natural, nem em Zamora, onde começaste a saber que coisa é o mundo, muito menos estamos em Toro, onde deste o terceiro fruto de tua fertilidade; cujas terras são habitadas por gente boa e simples, sem malícia nem receio, e não tão enredada nem versada em velhacarias e diabruras como a em que hoje estamos. Toma tento, filha minha, que estás em Salamanca, que é chamada em todo o mundo mãe das ciências, e que de ordinário estudam e habitam nela dez ou doze mil estudantes, gente moça, caprichosa, arrojada, livre, afeiçoada, gastadora, discreta, diabólica e de humor. Isto no geral; mas no particular, como todos na maior parte são forasteiros e de diferentes partes e províncias, nem todos têm as mesmas condições; porque os biscainhos, embora poucos, são gente curta de razão, mas se se agradam de uma mulher, são largos de bolsa. Os manchegos são gente valentona, dos de "cristo me leve", e levam eles o amor aos tapas. Há também aqui uma massa de aragoneses, valencianos e catalãos: são gente polida, olorosa, bem criada e melhor enfeitada; mas não lhes peças mais, e se mais queres saber, sabe, filha, que não são de brincadeiras, porque, quando se aborrecem com uma mulher, são algo cruéis e de fígados nada bons. Aos castelhanos novos considera nobres de pensamento, e que se têm, dão, e pelo menos, se não dão, não pedem. Os estremenhos têm de tudo, como os boticários, e são como a alquimia, que se chega a prata, prata é, e se a cobre, cobre fica. Para os andaluzes, filha, há necessidade de ter quinze sentidos, não cinco; porque são agudos e perspicazes de engenho, astutos, sagazes e nem um pouco miseráveis. Os galegos não se coloca em julgamento, porque não são alguém. Os asturianos são bons para o sábado, porque sempre trazem para casa sebo e sujeira. Pois já os portugueses, não é fácil descrever suas condições e propriedades; porque, como são gente enxuta de cérebro, cada louco com sua mania, mas a de quase todos é fazer de conta que o amor em pessoa vive neles, envolto em miséria. Observa, pois, Esperança, com que variedades de gentes hás de tratar, e se for necessário, tendo de te engolfares num mar de tantos baixios, deixa que eu te mostre e assinale um norte pelo qual te guies e vejas, para que não se dê mal o navio de nossa intenção e pretensão, e para que não joguemos à água a mercadoria de minha nave, que é teu gentil e galhardo corpo, tão dotado de graça, donaire e encanto para quantos o desejam. Atenta, menina, que não há mestre em toda esta universidade que saiba tão bem dissertar em sua faculdade, como eu sei e posso ensinar-te nesta arte mundana que professamos; pois assim pelos muitos anos que vivi nela e por ela, como pelas muitas experiências que fiz, posso ser jubilada, embora o que agora te quero dizer seja parte do todo que outras muitas vezes te disse, assim mesmo quero que estejas atenta e me dês ouvido; porque não todas as vezes o marinheiro leva estendidas as velas de seu navio, nem todas as leva recolhidas, pois segundo o vento, tal é o tento. A todo o dito estava a dita menina Esperança olhos baixos e remexendo o braseiro com uma faca, inclinada a cabeça e parecendo muito atenta e obediente a quanto lhe ia dizendo; mas Claudia não contente com isso lhe disse: Alça, menina, a cabeça, e deixa de escavar o fogo; crava e fixa em mim os olhos, não durmas; que para o que te quero dizer, deverias ter outros cinco sentidos mais do que tens, para aprendê-lo e percebê-lo. Ao que replicou Esperança: Senhora tia, não se canse nem me canse em alargar e prosseguir sua arenga, que já me quebrou a cabeça com as muitas vezes que me tem aconselhado e advertido do que me convém e tenho de fazer; não queira agora de novo tornar a quebrá-la. Veja agora, que têm a mais os homens de Salamanca do que os de outras terras! Não são todos de carne e osso? Todos não têm alma, com três potências e cinco sentidos? Que importa que tenham alguns mais letras e estudos que os outros? Antes imagino eu que os tais se cegam e caem mais ligeiro que os outros, porque têm mais entendimento para conhecer e estimar quanto vale a formosura. Há mais que fazer além de incitar o tíbio, provocar o casto, negar-se ao carnal, animar o covarde, alentar o curto, refrear o presumido, despertar ao adormecido, convidar o descuidado, escrever ao ausente, adular o néscio, celebrar o discreto, acariciar o rico, desenganar o pobre, ser anjo na rua, santa na igreja, formosa na janela, honesta na casa e demônio na cama? Todas estas coisas, senhora tia, já sei de cor; traga outras novas para avisar-me e advertir-me e deixe-as para outra conjuntura, porque lhe faço saber que morro de sono e não estou para poder escutá-la. Mas uma só coisa lhe quero dizer e lhe asseguro, para que fique muito certa e inteirada disso, é que não me deixarei mais martirizar por suas mãos, por maior que seja o ganho que me possa oferecer. Três flores já dei e outras tantas vossa mercê vendeu, e três vezes passei insuportável martírio. Sou eu porventura de bronze? Não têm sensibilidade minhas carnes? Não há mais que dar pontos nela como roupa descosida? Pela alma de minha mãe, que não conheci, não hei mais de consentir! Deixe, senhora tia, rebuscar minha vinha, que às vezes é mais saboroso O rebusco que a colheita principal; e se todavia está determinada a que meu jardim se venda por inteiro jamais tocado, busque outro modo mais suave de cerradura para seus postigos; porque o do fio de seda e agulha nem pensar que chegue mais às minhas carnes. Ai que boba, boba replicou a velha Claudia e que pouco sabes destes achaques! Não há coisa que se iguale para este menester à da agulha e fio de seda encarnado; que todo o demais é andar pelas ramas. Não vale nada o sumagre e vidro moído; vale muito menos a sanguessuga; a mirra não é de nenhum proveito, nem a cebola albarrã, nem o papo do pombo, nem outros impertinentes emplastros que há, que tudo é bobagem; porque não existe rústico, que deseje entender um tantinho do que faz, que não caia no conto da moeda falsa. Viva meu dedal e minha agulha, e viva justamente tua paciência e bom sofrimento, e que invista contra mim todo o gênero humano, que acabarão enganados, tu com honra e eu com haveres e mais lucros que o comum. Eu confesso ser assim, senhora, o que diz replicou Esperança mas com tudo estou resolvida em minha determinação, embora menoscabe meu proveito. Ainda mais que na tardança da venda se perde o ganho que se pode obter abrindo desde logo a loja; que se, como diz, temos de ir a Sevilha para a vinda da frota, não será razão para que passemos o tempo em branca nuvem, aguardando vender minha quarta vez, que já está negra de tão murcha. Vá dormir, senhora, por minha vida, e pense nisto; e amanhã haverá de tornar a resolução que melhor lhe parecer, pois no fim terei de seguir seus conselhos, já que a tenho por mãe e mais que mãe. Aqui chegavam em sua conversa a tia e a sobrinha, conversa toda ouvida por dom Félix, não pouco admirado, quando, sem ser capaz de evitá-lo, começou a espirrar com tanta força e ruído, que se poderia ouvir na rua; ao que se levantou dona Claudia toda alvoroçada e confusa, e tomando a vela entrou no aposento em que estava a cama de Esperança, e como se lhe tivessem dito foi direita à cama e levantando as cortinas achou o senhor cavalheiro, de espada em punho, arriado o chapéu, muito carrancudo o semblante e posto em ponto de guerra. Assim que o viu a velha pôs-se a benzer-se, dizendo: Jesus, valha-me! Que grande desventura e desgraça é esta! Homens em minha casa e em tal lugar e a tais horas! Desgraçada de mim! Desventurada que sou! Que dirá quem o souber? Sossegue-se vossa mercê, minha senhora dona Claudia disse dom Félix que não vim aqui para sua desonra e desprezo, mas sim para sua honra e proveito. Sou cavalheiro, rico e calado, e sobretudo enamorado de minha senhora dona Esperança; e para alcançar o que merecem meus desejos e afeição, procurei, por certa negociação secreta que vossa mercê saberá algum dia, pôr-me neste lugar, não com outra intenção senão de ver e gozar de perto a que de longe me fez ficar sem vida. E se esta culpa merece alguma pena, estou pronto e estamos a tempo, pois nenhuma me virá de suas mãos que eu não considere muito crescida glória, nem poderá ser mais rigorosa para mim que a que padeço de meus desejos. Ai, infeliz de mim volveu a replicar Claudia e a quantos perigos estamos expostas as mulheres que vivemos sem maridos e sem homens que nos defendam e amparem! Agora sim que te sinto de menos, malogrado de ti, dom Juan de Bracamonte, mal desditoso consorte meu; que si tu foras vivo, nem eu me veria nesta cidade, nem na confusão e afronta em que me vejo. Vossa mercê, senhor meu, seja servido logo ao ponto de voltar por onde entrou; e se algo quer nesta casa, de mim ou de minha sobrinha, desde fora se poderá negociar com mais calma, com mais honra e com mais proveito e gosto. Para o que eu quero na casa replicou dom Félix , o melhor que tem, senhora minha, é estar dentro dela; que a honra por mim não se perderá; o lucro está à mão, que é o proveito; e pelo que toca ao gosto, sei dizer que não pode faltar. E para que não seja tudo palavras e que sejam verdadeiras estas minhas, dou esta corrente de ouro como fiador delas. E tirando uma boa corrente de ouro do pescoço, que pesava cem ducados, colocava-a no dela. Neste ponto, logo que viu tal oferta e tão cumprida parte de pagamento, a dama da combinação, antes que sua ama respondesse, disse: Há príncipe na terra como este, nem papa, nem imperador, nem tesoureiro de mercador, nem ricaço do Peru, nem mesmo cônego que faça tal generosidade e largueza? Senhora dona Claudia, por minha vida, que não se trate mais deste negócio, mas sim que se lhe jogue terra e se faça logo tudo quanto este senhor quiser. Perdeste o juízo, Grijalva (que assim se chamava a dama); perdeste o juízo, louca, desatinada? disse dona Claudia E a limpeza de Esperança, sua cândida flor, sua pureza, sua donzelice não tocada? Assim iria eu aventurá-la e vendê-la, sem mais aquela, cevada por esta correntinha? Estou tão sem juízo que tenha de me ofuscar com seu resplendor, atar com seus elos, prender com seus ligamentos? Por tudo que é podre, tal não será! Vossa mercê tome a pôr sua corrente, senhor cavalheiro, e olhe-me com seus melhores olhos; e entenda que, embora mulheres sós, somos ilustres, e que esta menina está como sua mãe a pariu, sem que haja pessoa no mundo que possa dizer outra coisa; e se lhe tivessem dito alguma mentira contra esta verdade, todo o mundo se engana, e dou por testemunhas o tempo e a experiência. Cale-se, senhora disse a Grijalva neste ponto que ou eu sei pouco, ou que me matem se este senhor não sabe toda a verdade do feito de minha senhora a moça. Que há de saber, sem vergonha, sem vergonha, que há de saber? replicou Claudia Não sabeis vós a limpeza de minha sobrinha? Por certo estou bem limpa disse então Esperança que estava no meio do aposento abobada e suspensa, vendo o que falavam sobre seu corpo tão limpa, que não faz uma hora que, com todo este frio vesti uma camisa limpa. Esteja vossa mercê como estiver disse dom Félix que só pela amostra do pano que vi não sairei da loja sem comprar toda a peça; e para que não deixe de me vender, por melindre ou ignorância, saiba, senhora Claudia, que ouvi toda a conversa ou sermão que acaba de fazer à menina, e quisera eu ser o primeiro a colher este bacelo ¹º ou vindinar esta vinha, ainda que se acrescentasse a esta corrente uns brincos de ouro e umas pulseiras de diamantes. Estou tão a par desta verdade e sou tão generoso que, já que não se dá valor à prenda que dou nem a que tem minha pessoa, estou disposto a entrar em acordo em termos justos; declaro e juro, por mim ninguém saberá no mundo o rompimento desta muralha, e eu serei o pregoeiro de sua inteireza e bondade. Eia disse então a Grijalva Bom proveito, bom proveito lhe faça; para que sejam um, eu os junto e os bendigo. E tomando a mão da menina, a entregava a dom Félix; com que se encolerizou tanto a velha, que tirando um chapim ¹¹ começou a dar na Grijalva com toda a força que tinha; a qual vendo-se maltratar agarrou a touca de Claudia e não lhe deixou pedaço na cabeça, des- cobrindo a boa senhora uma calva mais luzidia que a de um frade, e um pedaço de cabeleira postiça que lhe descia por um lado, o que lhe deu a mais feia e abominável catadura do mundo. Vendo-se maltratar assim por sua criada, começou a fazer grande alarido e estridência, chamando a justiça; e ao primeiro grito, como se fosse coisa de encantamento, entrou pela sala o Corregedor da cidade, com mais de vinte pessoas entre meirinhos e beleguins; o qual, tendo-lhe chegado aos ouvidos as pessoas que viviam naquela casa, determinou visitá-las aquela noite, e havendo chamado à porta, não o ouviram, por estarem embebidas na conversa, e os beleguins com duas varas, que carregam à noite para tais efeitos, desengonçaram a porta e subiram tão quietinhos que não foram pressentidos; e o Corregedor esteve ouvindo desde o princípio, dos conselhos da tia até a disputa com a Grijalva, sem perder uma vírgula, e assim quando entrou, observou. - Andais descomedida com vossa ama, senhora criada. - E como anda descomedida esta velhaca, senhor Corregedor disse Claudia , pois se atraveu a pôr as mãos onde jamais chegaram outras desde que Deus me arrojou neste mundo! Bem dizeis que vos arrojou disse o Corregedor -, porque não sois boa senão para ser arrojada. Cubri-vos, honrada, e cubram-se todos, e venham para a prisão. Para a prisão, senhor! Por que? indagou Claudia As pessoas de minha qualidade e estofo usa-se tratar desta maneira nesta terra? Parai de reclamar, senhora; que havereis de vir, sem dúvida, e convosco esta senhora colegial trilíngüe no desfrute de sua herdade. Que me matem disse a Grijalva , se o senhor Corregedor não ouviu tudo, que aquilo das três sujeiras o disso por causa de Esperança. Nisto chegou-se dom Félix e falou ao Corregedor, suplicando-lhe que não as levasse, que se responsabilizava por elas, mas de nada adiantaram os rogos, muito menos as promessas. Contudo, quis a sorte que entre a gente que acompanhava o Corregedor viessem os dois estudantes manchegos e estiveram presentes a toda esta história, e vendo o que se passava e que de todas as maneiras Esperança, Claudia e Grijalva iriam para a prisão, num instante combinaram entre si o que haviam de fazer; e sem ser sentidos saíram da casa e se puseram em certa rua além da esquina, por onde haviam de passar as presas, com seis amigos de sua laia, que estavam pelo que desse e viesse, a quem rogaram os ajudassem numa ação de importância contra a justiça do lugar, para cujo efeito os acharam mais prontos e dispostos do que se fosse para ir a algum solene banquente. Dali a pouco assomou a justiça com as prisioneiras, e antes que chegassem os estudantes puseram mãos à obra, com tal brio e denodo que em pouco tempo não havia mais um beleguim na rua, se bem que só pudessem livrar Esperança; porque assim que os meirinhos viram travada a peleja, os que levavam a Claudia e a Grijalva se foram com elas por outra rua e as puseram na prisão. o Corregedor, corrido e enfrentado, foi-se para casa, dom Félix a sua e os estudantes para sua pousada. E querendo o que havia tirado Esperança da justiça gozá-la aquela noite, o outro não o quis consentir; antes o ameaçou de morte se tal fizesse. Oh! milagres do amor! Oh! forças poderosas do desejo! Digo isto porque vendo o estudante da presa que o seu companheiro com tanto afinco e veras o proibia de gozá-la, sem fazer outro discurso e sem olhar as conseqüências do que queria fazer, disse: Agora, pois, já que vós não consentis que eu goze a que tanto me custou, e não quereis que a tome por amiga, ao menos não podereis negar que como mulher legítima não ma haveis, nem podeis, nem deveis tirar. E voltando-se para a moça, de quem não soltara a mão, falou-lhe: Esta mão, que até aqui vos tenho dado, senhora de minha alma, como defensor vosso, agora, se vós quiserdes, vos dou como legítimo esposo e marido. A Esperança, que se contentava com muito menos, no que viu o que se oferecia a ela, disse que sim e que ressim, não uma, mas muitas vezes, e abraçou-o como a seu senhor e marido. O companheiro, admirado de ver tão estranha resolução, sem lhe dizer nada saiu da frente e se foi para seu aposento. O desposado, temeroso de que seus amigos e conhecidos estorvassem o fim de seu desejo e lhe impedissem o casamento, que ainda não estava feito com as devidas circunstâncias, aquela mesma noite se foi à estalagem onde pousava o arrieiro de sua terra. Quis a boa sorte de Esperança que o tal arrieiro partisse na manhã seguinte, e se foram com ele; segundo se disse, chegou a casa de seu pai, onde lhe deu a entender que aquela senhora que ali trazia era filha de um cavalheiro ilustre, e que a havia tirado da casa de seu pai, prometendo-lhe casamento. O pai era velho, e acreditou facilmente em quanto lhe dizia o filho; e vendo a boa cara da nora, se deu por mais que satisfeito, e louvou o melhor que pôde a boa determinação do filho. Não foi assim com Claudia, porque se averiguou por confissão dela mesma, que a Esperança não era sua sobrinha nem parenta, mas sim uma menina que pegara à porta de uma igreja, e que havia tido em seu poder a ela e muitas outras, havia-as vendido por donzelas muitas vezes a diferentes pessoas, e com isso se mantinha e isso era seu ofício e exercício. Averiguou-se também ter seus laivos de feiticeira; por cujos delitos o Corregedor a sentenciou a quatrocentos açoites e a ficar numa escada com uma gaiola e carochai ¹² , em meio à praça; foi o melhor dia que tiveram naquele ano os rapazes de Salamanca. Soube-se logo do casamento do estudante; e embora alguns escrevessem a seu pai a verdade do caso e a qualidade da nora, ela havia, com sua astúcia e discrição, contentado e servido o velho sogro com tanta manha, que mesmo que lhe dissessem delas maiores males, não quisera ter deixado de chamá-la de filha: tal força tem a discrição e a formosura. E tal o fim e paradeiro que teve a senhora Claudia de Astudillo y Quinones, tal o tenham todas quantas sua vida e proceder tiveram.
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