Olha Eu Aqui, Mãe

Mário Prata

 

   — Mãe, estou escrevendo na última página da Criativa.

    — Da onde, meu filho?

    — Da revista Criativa, mãe. Não conhece? Vende uns 500 mil exemplares por mês.

    — Só? O Oscar, disseram que tinha 1 bilhão vendo. É revista de arquiteto, meu filho?

    — Não, mãe. Revista de mulher.
 
    — Pelada?

    — Não, mãe, é séria. Feita de mulher para mulher.

    — E você vai escrever aí? Na última pagina, ainda por cima? Por que não deixam você escrever na primeira? Por que você não escreve no Cruzeiro? Tão boa revista, meu filho.

    — Já fechou, mãe.

    — Meu filho, acho melhor não contar para o seu pai que você está escrevendo em revista de mulher. E a cidade, meu filho? Você conhece aqui, cidade pequena, vai todo mundo comentar: "você viu o filho dela? Sempre desconfiei...".

    — Imagina, mãe. Tem moldes, receitas...

    — Receita? Você vai escrever receitas, meu filho? Você nunca conseguiu fritar um ovo.

    — Não, mãe. Vou falar do meu ponto de vista sobre as mulheres.

    — Meu filho, não faça isso. Você sabe muito bem que você não entende nada de mulheres. Como marido foi um fracasso. Quantas mulheres você já teve, menino? Nenhuma te agüentou. Volta para a Globo, meu filho. Vai escrever novela, vai. Tão bonitas as suas novelinhas.

    — Vou falar sobre orgasmo múltiplo.

    — Múltiplo? Meu filho, que vergonha. Se o seu pai sabe disso, te mata. E a Parati, escreve para a Parati.

    — Já fechou, mãe.

    — E a Playboy? Por que você não escreve para a Playboy? Pelo menos na cidade não vão comentar.

    — O Nirlando Beirão está escrevendo lá.

    — Meu filho, aquele barbudinho que casou com a sua mulher? Estou quase chorando, meu filho. O primeiro marido na revista de mulher e o atual... Você está me fazendo sofrer tanto. Sabe o que eu acho, que você está escrevendo nessa revista para namorar as moças de lá.

    — Imagina, mamãe, é uma revista moderna, criativa mesmo.

    — Mas por que te puseram na última página? Estão abusando de você, meu filho. A gente educa, perde noites de sono, se preocupa, dá o melhor da gente para isso, meu filho?

    — Pagam bem, mãe.

    — O dinheiro não traz felicidade, meu filho. Na Globo, sim, que você ganhava bem.

    — A revista é da Globo, mãe.
 
    — Vai sair na televisão?

    — Não, da Editora Globo.

    — Mas não aparece na televisão? Ah, meu filho, que notícia mais triste. Você não tem vergonha? O Nirlando lá na Playboy e você aí? O que é que os seus filhos não vão pensar? Eu disse para você não se separar. Sabia que coisa boa não ia dar. Vão ficar rindo dos seus filhos na escola, meu filho.

    — Fica tranqüila, mãe. Vai dar tudo certo.

    — Eu me lembro, quando você tinha 14 anos e começou a fazer coluna social lá em Lins. Comentei com o seu pai: "Isso não vai dar certo". Olha onde você terminou.
 
    — Mãe, eu estou feliz. Isso é uma conquista profissional.

    — Já sei de tudo. Você vai querer que eu te mande aquela receita do meu vatapá, não é? Eu mando. Mãe é para isso mesmo. Tenho também aqui uns moldes de uns "taierzinhos".

    — Não precisa, mãe.

    — Tem uma moça aqui que faz umas cerâmicas muito bonitas, com rosas cor-de-rosa, uma beleza. Quer que eu peça para ela mandar umas fotos? Coitada, ela está tão necessitada. Talvez se sair aí na Criação.

    — Criativa, mãe.

    — E o seu chefe é simpático, te trata bem? Você tem chegado no horário, meu filho?

    — É chefa. Mulher.

    — Meu filho, recebendo ordens de uma mulher? Realmente é melhor o seu pai não saber disso. A revista vai vender aqui na cidade?

    — Claro.

    — Você quer me matar, meu filho. Fala a verdade. Quer ou não quer? Uma chefa, era só o que faltava. Só falta ela ser mais nova do que você.
 
    — É. 

    — É o fim do mundo. (começa a chorar, desliga)
 
    — Mãe, mãe...


Texto extraído do livro "100 Crônicas de Mário Prata", Cartaz Editorial Ltda. - São Paulo, 1997, pág. 137.

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