O Livro sobre Nada
Manoel de Barros
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a
poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma
fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da
sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada;
mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o
contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que
são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um
erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a
ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento
longínquo de coisa esquecida na terra Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora.
MANOEL DE BARROS, poeta e fazendeiro mato-grossense, nasceu em 1916 e teve seu
primeiro livro publicado em 1937 - Poemas concebidos sem pecado. Passou a ser mais
conhecido a partir do ano de 1997, quando ganhou o prêmio Nestlé de Literatura. De seu
"Livro sobre Nada", Editora Record - Rio de Janeiro,1997, págs.
diversas, já em 5ª edição, extraímos os versos acima. Nele o autor diz, a
título de "Pretexto":
"O que eu gostaria de fazer é um
livro sobre nada. Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852. Li nas Cartas
exemplares organizadas por Duda Machado. Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o
nada existencial, o nada metafísico. Ele queria o livro que não tem quase tema e se
sustente só pelo estilo. Mas o nada de meu livro é nada mesmo. É coisa nenhuma por
escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para
pedras, o parafuso de veludo, etc, etc. O que eu queria era fazer brinquedos com as
palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e
por fora."
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