Mamãe Noel
Martha
Medeiros
Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai
se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as
próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até
para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que
só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado
por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de
descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria
isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.
Quem é a melhor amiga do Molocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda,
quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da
Superfestas? Não é o bom velhinho.
Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores
vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e
luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa
parafernália toda no dia 6 de janeiro?
Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja,
coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as
castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices
lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?
Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador
de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do
escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo
para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.
Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping,
quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas,
lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o
carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?
Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos
deveriam acreditar mais.
(Dezembro de 1998).
Martha Medeiros
(1961) é gaúcha de Porto Alegre, onde reside desde que nasceu. Fez sua carreira
profissional na área de Propaganda e Publicidade, tenho trabalhado como redatora e
diretora de criação em vária agências daquela cidade. Em 1993, a literatura fez
com que a autora, que nessa ocasião já tinha publicado três livros, deixasse de lado
essa carreira e se mudasse para Santiago do Chile, onde ficou por oito meses apenas
escrevendo poesia.
De volta ao Brasil, começou a colaborar com crônicas para o jornal Zero Hora, de Porto
Alegre, onde até hoje mantém coluna no caderno ZH Donna, que circula aos domingos, e
outra às quartas-feiras no Segundo Caderno. Escreve, também, uma coluna
semanal para o sítio Almas Gêmeas e colabora com a revista Época.
Seu primeiro livro, Strip-Tease (1985), Editora Brasiliense - São Paulo, foi o primeiro
de seus trabalhos publicados. Seguiram-se Meia noite e um quarto (1987), Persona non grata
(1991), De cara lavada (1995), Poesia Reunida (1998), Geração Bivolt (1995), Topless
(1997) e Santiago do Chile (1996). Seu livro de crônicas Trem-Bala (1999), já na
9a. edição, foi adaptado com sucesso para o teatro, sob direção de Irene Brietzke. A
autora é casada e tem duas filhas.
Texto extraído do livro "Trem-bala", L&PM Editores - Porto Alegre, 2002,
pág. 177.
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