Precisa-se de uma dama de leite

Luiz Peixoto


A senhora do Pafúncio
 Segismundo do Quental
 Tertuliano da Gama,
 negociante em azeite,
 pôs um anúncio
 no jornal,
 pedindo uma ama-
 -de-leite.
 
 
 E num radioso dia
 em que D. Eufrásia havia,
 distraidamente, saído
 pra dar uma voltinha,
 o marido, que ficara
 dando um jeito na cozinha
 ouviu tinir da porta a campainha.
 Foi abrir; era a criada.
 
 
 E a supra dita
 estava tão bonita,
 de tal modo trajava,
 luvas, colares, bo?
 que a desgraçada
 ou nunca foi criada
 ou vestia os vestidos da patroa.
 
 
 A? nesse entrementes,
 fazendo gestos muito reverentes,
 ele lhe perguntou de uma assentada:
 — Vossência ?que ?a criada?
 — U? xentes!
 — No momento não est?a minha esposa
 mas estou eu aqui, que ?a mesma coisa.
 Não trouxe referências
 de onde esteve empregada?
 — Não estou habituada
 a essas exigências.
 Não tenho que lhe dar satisfações.
 — E quanto às condições?
 — São, primeiro que tudo,
 uma boa mesa;
 e segundo que tudo: a cozinha ?francesa.
 Pela manh?ao toque da alvorada,
 espero que a criada
 venha servir-me o “petit déjeuner”.
 — O “petit” o qu?
 — Ah! Não sabe francês, nunca estudou,
 nunca leu Paul de Kock,
 “mon petit coco”?
 Porém, como dizia,
 voltando ?vaca fria:
 Para o almoço: caviar,
 atum, lagosta,
 um bom “Chateaubriand”,
 uma pequena posta
 de robalo
 ou um bife a cavalo,
 trutas.
 Depois, então,
 melão
 e outras frutas.
 Vinhos de várias cores
 e sabores,
 licores.
 — E caf?
 — ?
 — E flores? Não quer flores?
 Qu? não qu?
 — Depois do “aprés-midi”,
 isto ? ao jantar,
 se se pode arranjar,
 ?o seguinte o “menu”:
 "jambon".
 — Muito bem. ?bem bom.
 E não gosta de aspargo?
 — Eu acho um pouco amargo.
 — Gostava se ele fosse
 um pouquinho mais doce?
 — Uma “soupe ?loignon”
 e um “petit” suíço.
 — S?isso?
 — S?isso.
 — E então, por quanto faz esse serviço?
 — Duzentos mil cruzeiros. ?demais?
 — Duzentos mil... diários?
 — Não, mensais.
 — Perfeitamente.
 ?justo. Aqui em casa h?muita gente:
 parente, amigo, irmão, contraparente,
 meus sogros, meus cunhados,
 a noiva do Niquinho,
 um ou outro vizinho
 e pessoas que vêm, ainda, às vezes, de fora,
 gente que não demora,
 chega, come e vai embora.
 Mas ?mesmo: como ?seu nome?
 — Antonica.
 — Pois est?muito bem,
 ? a senhora fica.
 Fica, mas eu lhe aviso, desde agora,
 que eu, minha mulher, meus sogros, minha nora
 e ainda o pessoal de fora
 passaremos, então,
 a mamar na senhora.


Luiz
Carlos Peixoto de Castro nasceu em Niterói (RJ), no dia 02-02-1889, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 14-11-1973. Foi letrista, teatrólogo, poeta, pintor, caricaturista e escultor. Teve várias atividades paralelas ao teatro, trabalhando em jornais e revistas, como redator e caricaturista. Aos 15 anos de idade, publicou na "Revista da Semana", seus primeiros desenhos, ironizando aspectos da vida do Rio de Janeiro. No ano seguinte, mostrou suas caricaturas a Raul Pederneiras, que as publicou na revista "O Malho". Entre 1906 e 1919, foi desenhista e redator do "Jornal do Brasil". "Sete Horas", em São Paulo, com Jorge Marjorie e E. Batista Pereira.Colaborou, na época, com várias revistas como "O Papagaio" e "A Avenida", em 1906 e "Tan-tan" e "Fon-fon", em 1907. Entre os anos de 1907 e 1914, assinou caricaturas, em parceria com Raul Pederneiras, para a "Revista da Semana". Usavam o pseudônimo de Raiz. Em 1911, estreou no teatro, com a revista "Seiscentos e seis", produzida com Carlos Bittencourt. No ano seguinte, fez grande sucesso com a burleta de costumes cariocas "Forrobod?quot;, escrita com Carlos Bittencourt e musicada por Chiquinha Gonzaga. A peça foi montada no Teatro São João e atingiu 1.500 apresentações. No mesmo ano, fundou juntamente com Casper Líbero, Olegário Mariano e Raul Pederneiras o jornal "Última hora", fechado pouco tempo depois por motivos políticos. Em 1913 fez sucesso com a revista "Abre-alas", com Armando Rego, com músicas de Chiquinha Gonzaga e Luz Júnior. Foi o criador, junto com Luís Edmundo, Portinari, Jaime Ovalle, Vasco Leitão da Cunha e outros, do Baile dos Artistas, no Teatro Fênix. Fez várias viagens ?Europa, estudando teatro na Espanha, Portugal e Alemanha. Em 1917 estreou por acaso como cenógrafo na revista "Três pancadas". Em 1918 fez sucesso com a revista "Flor do Catumbi", com Carlos Bittencourt, e músicas de Júlio Cristóbal e Enrique Sánchez. Trabalhou, no início da década de 1920, em Paris, como cenógrafo. L?montou várias peças, trazendo novas idéias, que revolucionaram o teatro de revista no Rio de Janeiro, quando retornou. Firmou-se como autor no gênero bem carioca de revista musical de costumes. Entre 1923 e 1925, além de escrever para o teatro, foi diretor artístico, figurinista e cenógrafo da Companhia de Teatro São Jos? e diretor artístico da Companhia Tangar? no Cine-teatro Glória. Em 1924 estreou a revista "Secos e molhados", em parceria com Marques Porto. Em 1926 escreveu com Marques Porto a revista "Prestes a chegar", que alcançou grande sucesso, com músicas de Júlio Cristóbal e Pedro S?Pereira. Em 1927 escreveu com o mesmo Marques Porto a revista "Paulista de Maca?quot;. No mesmo ano, fundou, juntamente com Hekel Tavares, Álvaro Moreira e Joraci Camargo, o Teatro de Brinquedo, no subsolo do Cassino Beira-Mar. Em 1928 apresentou entre outras, a revista "Miss Brasil" na qual foi lançado o samba canção "Ai, Ioi?quot;, parceria com Henrique Vogeler na voz de Aracy Cortes e que se tornou rapidamente um grande sucesso e um clássico da MPB, regravada entre outras por Odete Amaral, Isaura Garcia, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Elizath Cardoso, Tet?Espíndola e Maria Bethânia. Em 1928 teve gravadas a toada "Sussuarana", por Gastão Formenti e as canções "Estrela pequenina" e "Me deu uma vontade de chorar", por Sérgio da Rocha Miranda, todas parcerias com Hekel Tavares. No ano seguinte, a canção "Casa de caboclo", outra parceria com Heckel Tavares foi gravada por Ruth Caldeira de Moura na Odeon. Esta canção foi ainda regravada entre outros, por Gastão Formenti, Inezita Barroso, Paulo Tapajós, Renato Teixeira e Luiz Gonzaga. Em 1930, Araci Cortes gravou o samba "Meu Senhor do Bonfim", parceria com Pedro de S?Ferreira e Marques Porto. No mesmo ano, tornou-se Diretor Artístico da Companhia Antônio Neves no Teatro João Caetano. Estreou também a revista "Vai dar o que falar", parceria com Marques Porto e na qual a cantora Carmen Miranda atuou por apenas uma noite devido às repercussões negativas do quadro "Mangue", alusivo ao baixo meretrício e que recebeu severas críticas. Ainda no mesmo ano teve gravadas por Francisco Alves as canções "Pra sinhozinho drumi" e "No pegi de Oxossi", e pelo cantor paulista Paraguassu a canção "Azulão", todas parcerias com Hekel Tavares. No ano seguinte, foi diretor literário da Companhia de Comédias Musicadas Trianon. No mesmo ano escreveu com Ary Barroso a revista "Com que roupa?", com músicas do próprio Ary Barroso, Freire Jr. E Vadico, apresentada pelo elenco da Companhia Mulata Índia do Brasil, com destaque para a cantora e atriz Rosa Negra. Ainda no mesmo ano conheceu outro êxito musical, o samba-canção "Maria", parceria com Ary Barroso, gravado inicialmente por Leonel Faria e regravado entre outros por Silvio Caldas, Severino Araújo, Trio Irakitan, Wilson Simonal, Lúcio Alves e Maria Bethânia. Em 1932, com Batista Júnior, foi empresário da Companhia de Burletas, no João Caetano, além de diretor da Rádio Clube do Brasil. Em 1934 teve lançada por Gastão Formenti a toada "Boiadeiro", com Almirante, na Victor e por Elisa Coelho a canção "Bateram na minha porta", parceria com Ary Barroso, também na Victor. No mesmo ano, Carmen Miranda gravou outra de suas parcerias com Ary Barroso, o samba-canção "Na batucada da vida", que se tornou um clássico, regravado entre outros por Dircinha Batista, Elis Regina, Tom Jobim e Joyce. Em 1935, dirigiu a Companhia Babel, no Teatro da República. No mesmo ano, Batista Jr. Registrou na Odeon o intermezzo "Cavalhada Franciscana", parceria com Ary Barroso. A partir desse ano publicou uma série de poemas humorísticos em "O Malho". Fez vários trabalhos de ornamentação carnavalesca no Rio de Janeiro, desenhou capas de livros, destacando-se a capa de "Cidade-Mulher", de Álvaro Moreira e criou também em Paris, um modelo especial de automóvel esporte, construído em exemplar único pela fábrica de motocicletas Bellot. Em 1937 escreveu com Gilberto de Andrade a revista "Quem vem l?quot;, com músicas de Ary Barroso e Assis Valente. No mesmo ano compôs com Ary Barros o samba-jongo "Quando eu penso na Bahia", gravado por Carmen Miranda e Sílvio Caldas na Odeon. No ano seguinte, Nuno Roland gravou a valsa "Súplica de amor", parceria com o maestro Radamés Gnattali. Em 1940 teve várias composições gravdas por Carmen Miranda, que voltou ao Brasil por um curto período, entre elas, os sambas "Disseram que voltei americanizada" e "Voltei pro morro" e o choro "Disso ?que eu gosto", parcerias com Vicente Paiva. Em 1941 escreveu com Freire Jr. A revista "Brasil pandeiro", com músicas de Assis Valente e a participação, entre outros, da atriz Alda Garrido e da dupla Jararaca e Ratinho. Em 1943 foi Diretor de Estatística e Assistência Social do Saps. Em 1944, Dircinha Batista gravou o samba "Meu amor onde ?que est?quot;, parceria com Vicente Paiva. Em 1945 escreveu com Geysa Bóscoli e Paulo Orlando "Canta Brasil", em homenagem ?tomada de Monte Castelo pelos pracinhas brasileiros na Itália, levada ?cena no Teatro Recreio, com músicas entre outros de Ary Barroso, S?Pereira e Alcyr Pires Vermelho. Em 1946 foi um dos fundadores da SBAT, tendo sido diretor e conselheiro por várias vezes. Em 1947, lançou "O que eu quero ? roset?quot; com Geysa Boscoli, estreada no Teatro Carlos Gomes e que contou com as presenças de Emilinha Borba e Jorge Veiga. Em 1950 teve gravados o samba "Por que razão", por Dóris Monteiro e a canção "Na paz do Senhor", por Lúcio Alves, ambos na Continental, parcerias com Jos?Maria de Abreu. A partir de 1953, passou a dirigir a Escola de Teatro Martins Pena. Foi diretor do Instituto Brasileiro de Teatro e da Academia Brasileira de Artes. Em 1956 a Sinter lançou o LP "Sadi Cabral interpreta poemas de Luiz Peixoto", no qual o ator declamou, entre outros, os poemas "Bandeira", "Mulato de qualidade", "Muamba de São Benedito" e "Subúrbio". Em 1957 o trio de Ouro gravou de sua parceria com Vicente Paiva o samba-canção "Moamba de São Benedito". Em 1959, o samba "?luxo s?quot;, feito em parceria com Ary Barroso, foi incluído por João Gilberto no hoje histórico LP "Chega de saudade", e que teve ainda inúmeras outras gravações, entre as quais, as de Gal Costa, Elizeth Cardoso, Chiquinho do Acordeom, Luiz Bandeira, Jorge Goulart e Elza Soares. Em 1962 e 1963, foi membro da comissão julgadora dos prêmios de teatro do Estado da Guanabara. Neste último ano, recebeu a medalha Homenagem ao Mérito, por mais de 30 anos de serviços prestados ao teatro brasileiro. Em 1964 teve publicado pela Editora Brasil-América seu único livro, "Poesia de Luiz Peixoto". No mesmo ano, Tito Madi gravou a "Canção praieira" na Odeon. Em 1966 teve a "Oração do guerreiro" gravada por Inezita Barroso. Escreveu famosos monólogos, interpretados em todo o país por Procópio Ferreira, Mesquitinha, Margarida Lopes de Almeida e outros. Em 1977, Luís Peixoto foi homenageado pela Rede Globo de Televisão, com programa de uma hora de duração, na série "Brasil Especial", escrito por Ricardo Cravo Albin e dirigido por Augusto César Vanucci, em que parte de sua obra e vida foram mostradas a todo o país. Foi, durante 45 anos, um dos mais importantes autores de teatro de revista, produzindo, pelo menos, 110 peças do gênero. Em 2002, foi editada a biografia "Pelo buraco da fechadura", escrita pelo poeta Lysias Enio e prefaciada por Ricardo Cravo Albin.

(FONTE: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira).


O texto acima foi extraído do livro "Poesia de Luiz Peixoto", Editora Brasil-América Ltda. - Rio de Janeiro, 1964, pág. 61.

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