Descontroles
Lúcia Carvalho
Fala, mãe.
Lúcia, você não sabe. Acho que a minha televisão nova já quebrou.
Quebrou?
Não liga mais, ficou tudo preto. Parado.
Está na tomada, mãe?
Está. E eu aperto tudo quanto é botão, e nada.
Está ligado o aparelhinho da tv a cabo?
Está.
E o vídeo?
Está. Foi assim: eu fui apertar um botão e apareceu um escrito na tela:
"menu" e um monte de palavras em inglês. Sei lá o que era. Menu não é coisa
de restaurante? Desliguei. Fui ligar de novo, apagou tudo. Ah, não vou mais mexer. Vem
aqui depois e me ajuda, filha. Devo ter quebrado alguma coisa.
Comentei com um amigo meu, num outro dia. Porque as mães da gente tem tanto medo de
aparelhos eletrônicos? Ele me disse que a mãe dele é igualzinha à minha. A minha, que
é exagerada que só ela, acha que se ela mexer muito na TV, vai dar uma pane e tudo vai
explodir pelos ares. Ela só usa três botões do controle remoto: o liga- desliga, o de
trocar o canal e o da altura do som. Nos outros ela nem coloca o dedo, achando que vai
acionar uma bomba relógio que acabará com tudo, inclusive com a novela das oito e todos
os personagens, em contagem regressiva. Um perigo.
Um dia escrevi para ela um manual, "como usar o vídeo para assistir um filme",
em letras grandonas. Descrevi cada passo a passo, com desenhos e itens. Ela só colocava
fitas desligando da tomada e ligando de novo, segundo o meu papel escrito, a partir do
número "1". Se ela perdesse aquele papel, nada de filmes. Preferia ir ao
cinema.
Mas as mães têm um pouco de razão. Alguns aparelhos são complicados para todos nós, a
única diferença é que a gente sabe que não explode. Ligar, funcionar é que é o
problema. Antes as televisões tinham só três botões mesmo, e mudar o canal era igual a
mudar a velocidade da sua batedeira de bolo. Agora, nem botão de "liga" tem nas
TVs novas. Temos que achar um tal de "power" que, nos designs atuais dos
aparelhos, ficam tão maravilhosamente disfarçados na tela plana que temos que massagear
a televisão todinha para descobrir onde foi parar.
E confesso: medo de TV e vídeo e DVD eu não tenho. Mas já tive muito medo de
computador. Muito.
Quando eles surgiram, eu me sentia uma exploradora numa selva cheia de perigos. Tinha em
mãos somente minha coragem e, como não sou de arriscar muito, posso dizer que nessa
batalha da sobrevivência, passei muita fome, apuro e desespero. Empacava num lugar, e ele
me perguntava... sim ou não? Eu ficava na dúvida, vou adiante? E se pifar tudo? Salvei
as minhas coisas? Salvarei minha vida? Um dia decidi. Ou ele, ou eu. Sei lá se eu venci.
Eu me viro, só isso.
Mas com esse monte de botões que nos cercam muitas vezes nos confundimos. Vou listá-los,
um a um, para explicar melhor o que vem acontecendo comigo freqüentemente. Ando cometendo
muitas gafes, a minha mãe que não saiba.
Primeiro, o telefone comum. Você tira o fone do gancho. Depois disca os números. E ele,
automaticamente, funciona. Toca e a outra pessoa atende. Isso é fácil, sem erro.
Num celular, é um pouco diferente: você disca os números e precisa mandar o telefone
ligar. Aquela tecla, o "send". Ele não faz isso sozinho, você precisa comandar
o aparelho. Vá, ande!
No computador, temos outras teclas, com outros nomes. Existe o tal do "enter" e
o "enviar" da caixa de mensagem. O computador não faz as coisas sozinho, mas
ele nos ajuda muito, perguntando mil vezes se você tem certeza absoluta que é aquilo que
você quer fazer, na maior boa educação desse mundo. Parece o Silvio Santos com os
programas de perguntas e o prêmio milionário, e isso às vezes te deixa na dúvida.
Quero mesmo?
Já num controle remoto de TV, depois que ela (a TV) está ligada, também não tem
"send", nem "enter" e nem "enviar". Você só troca o canal
e pronto, apertando os botões.
A mesma coisa no controle do vídeo, da TV a cabo, do som e do DVD, mas com outros
botões, diferentes. Ou até no controle remoto do som do carro, que não sei para que
serve, uma vez que o rádio está ao alcance da sua mão.
No microondas é diferente. É preciso selecionar, colocar o tempo e apertar o
"liga" depois. Ou não. Depende do modelo, melhor ficar atento.
E tem mais botões, muitos outros que eu não tenho: controles remotos de ar condicionado,
fornos programáveis, máquinas de lavar roupa com diversas funções, sons dentro dos
micros, controles remotos de dimerizadores de luz ambiente. Ufa.
Vê como é fácil começar a confundir? Cada um com um passo a passo. Enter, on, power,
liga, ok. Uma zona.
Eu ando me atrapalhando com tudo isso. Outro dia, tarde da noite e depois de um dia de
trabalho, deitei no sofá para ver TV. Plec. Pim. Plect. Eu não conseguia sintonizar um
canal, não entendia o porquê. Foi aí que me dei conta. Depois de ficar no micro, no
telefone e no celular o dia todo, eu apertava um "send" imaginário no controle
remoto e aparecia um canal alemão! Demorei para me dar conta que era eu mesma que fazia
aquilo. E nem foi a primeira vez, pois também já me vi apertando mil vezes um
"enter" inexistente no telefone sem fio, ouvindo um piiiii sem motivo e não
conseguindo ligar de jeito nenhum. E já quase mandei o micro ondas para o conserto
achando que ele tinha quebrado, mas ele estava ótimo. Eu que me esqueci de apertar o
botão "on" depois de programar, e fiquei olhando para ele por um tempão
tentando me conectar.
Tá vendo? Tou muito pior que minha mãe!
Falando nela, eu fui ver o que tinha acontecido com a TV. Ela não tinha nada, nem
explodiu quando cheguei perto e apertei tudo quanto é botão. Só estava no comando
"sleep".
Acho que tirando uma soneca.
Lúcia Carvalho, paulistana nascida em 1962, é arquiteta e escritora. Teve
uma de suas crônicas Mulheres, mães e mindinhos publicada no livro
Buscando o seu mindinho um almanaque auricular, do escritor Mário
Prata, Editora Objetiva Rio de Janeiro, 2002. Participa, como cronista, de um livro
sobre espaços escolares, que foi distribuído pelo MEC para todos os diretores de
escolas públicas do Brasil, sob o título "Espaços e Pessoas", onde, segundo
Lúcia, minhas crônicas (são 10, uma para cada espaço) iniciam cada um dos
capítulos e são muito divertidas." Também publica eventualmente, como
colaboradora, crônicas na Revista da Folha de São Paulo.
O texto acima nos foi enviado diretamente pela escritora.
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