A máquina

Lúcia Carvalho


Morreu uma tia minha. Ela morava sozinha, não tinha filhos. A família toda foi até lá num final de semana, separar e dividir as coisas dela para esvaziar a casa. Móvel, roupa de cama, louça, quadro, livro, tudo espalhado pelo chão, uma tremenda confusão.

Foi quando ouvi meus filhos me chamarem.

— Mãe! Maiê!

— Faaala.

Eles apareceram, esbaforidos.

— Mãe. A gente achou uma coisa incrííível. Se ninguém quiser, essa coisa pode ficar para a gente? Hein?

— Depende. Que é?

Eles falavam juntos, animadíssimos.

— Ééé... uma máquina, mãe.

— É só uma máquina meio velha.

— É, mas funciona, está ótima!

Minha filha interrompeu o irmão mais novo, dando uma explicação melhor.

— Deixa que eu falo: é assim, é uma máquina, tipo um... teclado de computador, sabe só o teclado? Só o lugar que escreve?

— Sei.

— Então. Essa máquina tem assim, tipo... uma impressora, ligada nesse teclado, mas assim, ligada direto. Sem fio. Bem, a gente vai, digita, digita...

Ela ia se animando, os olhos brilhando.

— ... e a máquina imprime direto na folha de papel que a gente coloca ali mesmo! É muuuito legal! Direto, na mesma hora, eu juro!

Ela jurava? Fiquei muda. Eu que jurava que não sabia o que falar diante dessa explicação de uma máquina de escrever, dada por uma menina de 12 anos. Ela nem ai comigo. Continuava.

— ... entendeu como é, ô mãe? A gente, zupt, escreve e imprime, até dá para ver a impressão tipo na hora, e não precisa essa coisa chatérrima de entrar no computador, ligaaar, esperar hóóóras, entrar no world, de escrever olhando na tela e sóóó depois mandar para a impressora, não tem esse monte de máquina tuuudo ligada uma na outra, não tem que ter até estabilizador, não precisa comprar cartucho caro, nada, nada, mãe! É muuuito legal. E nem precisa de colocar na tomada! Funciona sem energia e escreve direto na folha da impressora!

— Nossa, filha...

— ... ah, mas só tem duas coisas que são meio chatas: não dá para trocar a fonte e nem aumentar a letra, mas não tem problema não. Vem, que a gente vai te mostrar. Vem...

Eu parei e olhei, pasma, a máquina velha. Sensacional pensar assim. Eles davam pulinhos de alegria.

— Mãe. Será que alguém da família vai querer? Hein? Ah, a gente vai ficar torcendo, torcendo para ninguém querer para a gente poder levar lá para casa, isso é o máximo! O máximo!

Bem, enquanto estou aqui escrevendo nesse meu antiquado "teclado", ouço de longe o plec - plec da tal máquina maravilhosa, que, claro, ninguém da família quis, mas que aqui em casa já deu até briga. Está no meio da nossa sala de estar, em lugar nobre, rodeada de folhas e folhas de textos "impressos na hora" pelos meus filhos. Incrível, eles dizem, plec - plec - plec, muito legal essa máquina mesmo, plec - plec - plec.

Céus. Achei que tinha acabado, quando a minha filha vem de novo falar comigo, toda decidida e animada, com um texto recém escrito (sem ligar nada na tomada) na mão.

— Mãe. Me ajuda a fazer uma coisa muito legal que eu morro de vontade de fazer?

— O que é?

Ela deu um sorriso, com um ar sonhador.

— Ah, eu queria tanto colocar isso dentro de uma carta... no correio, com envelope, selo colado... nunca fiz isso, mãe... ahhh, me ajuda?


Lúcia Carvalho, paulistana nascida em 1962, é arquiteta e escritora. Teve uma de suas crônicas — Mulheres, mães e mindinhos — publicada no livro “Buscando o seu mindinho – um almanaque auricular”, do escritor Mário Prata, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2002. Participa, como cronista, de um livro sobre espaços escolares, que foi distribuído pelo MEC para todos os diretores de escolas públicas do Brasil, sob o título "Espaços e Pessoas", onde, segundo Lúcia, “minhas crônicas (são 10, uma para cada espaço) iniciam cada um dos capítulos e são muito divertidas." Também publica eventualmente, como colaboradora, crônicas na Revista da Folha de São Paulo.


O texto acima nos foi enviado diretamente pela escritora.

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