O ataque

Luiz Ruffato

Para Sebastião e Geni



Naquele verão, meus pais tiveram a oportunidade de apertar a mão da felicidade. Em janeiro, enquanto nuvens negras, lá para os lados de Barbacena, assustavam os ribeirinhos do Beco do Zé Pinto, tementes das águas aleivosas do Rio Pomba, entulhávamos um caminhão-de-mudança com nossos trens. Finalmente, nossa casinha quatro-cômodos, no Paraíso, ficara pronta. Dois anos naquele bafafá, da compra do terreno à ligação da força; dois anos de garrafas térmicas de café para o pedreiro, para o servente, para o poceiro, para o ajudante, para o eletricista, culminando com os sacos de pão­com-molho-de-tomate-e-cebola e os litros de quissuco no domingo da bateção da laje. Meu pai, que vigiara, passo a passo, a edificação, desde a concretagem das bases até o assentamento da privada, desde a amarração das folhas de amianto da varanda até a chumbagem dos pés do tanque-de-lavar­roupa, estava fora de si. Abraçava a todos, conhecidos ou gentes nunca dantes vistas; falava alto, o que não era do seu feitio; ria por bobiças, por leréias...

Minha mãe, mulher sensível — "Claro que estou feliz, imagine!, estou chorando é de boba, tontice mesmo, tontice" — ponderava: ali viveram vinte anos — "O Reginaldo era de-colo ainda, uma coisiquinha assim" —; verdade, as enchentes que estragavam com tudo — "Perdi a conta dos colchões jogados fora" — ficariam para trás, mas, até disso, tinha certeza, sentiria saudade, até disso; e mesmo esse negócio de morar tudo amontoado, parede-e-meia, espirro-saúde!, faria falta, no Paraíso, as casas salteadas, envergonhadas umas das outras; faria falta a camaradagem, ah!, faria!, até as brigas, as confusões, os disse-me-disses, a mexericagem, formavam uma família, a cara e a coroa; e, o mais importante, iam se libertar do aluguel, um suor suado à toa, para matar a sede do senhorio, sim, isso que em importante, repetia, ajeitando o ronrom, aprisionado num saco de estopa espichado no chão da boléia do caminhão-de­mudança, que adernava, resfolegante, pela morraria do Paraíso.

Em fevereiro, meu pai, com a ajuda do Reginaldo e da Mirtes, meus irmãos, comprou a prestações uma televisão Telefunken vinte-e-três-polegadas para minha mãe poder acompanhar as novelas, "Um descanso pra cabeça, vocês não fazem conta", e para suas pernas encipoadas de varizes. Mas, tudo esvaziava de sentido, comparado ao sonho que estava cumprindo, datado de menina, nos cafundós-do-judas, gostava nem de lembrar: viver debaixo de um teto decente, seu, com um bonito amarelão no cimento liso. Esse, seu único pedido. Econômica, ajuntou nota a nota, separadas da paga pela lavagem das trouxas de roupa, e apreçou loja por loja de material de construção o pó da cor da sua exigência.

Depois da mudança, toda manhã de sábado, aproveitando-se da ausência do Reginaldo e da Mirtes, na fábrica labutando, e da do meu pai, encerrado na quitanda, minha mãe se punha a arrumar a casa. Cedinho, me despachava de bicicleta a um posto na Vila Teresa para comprar um litro de gasolina. Enfiada num vestido de chitão surrado, lenço amarrado na cabeça, ela sobraçava os cômodos: com os restos de uma camisa de malha velha tirava a poeira dos móveis e lustrava-os com óleo-de-peroba; arrastava-os de um lado para outro para barrer os cantos; embebia de gasolina a cera cristal amarela e espalhava-a pelo chão. "Eu sempre quis assim... uma casa só pra mim... Onde eu pregar um prego, ele fica... ali... pra sempre... ninguém mais tira... ninguém...”

Nessa época, meu pai andava contaminado pela idéia de mudar de ramo, passar o comerciozinho de uma-porta-só e abrir um armarinho de miudezas num ponto mais para os lados da Rua do Comércio, sentia-se insatisfeito com o que tinha, achava pouco, no fim das contas mal arranjava para o aluguel, e, acima de tudo, angariara um nome, um conhecimento, um respeito, seria assim, um pulo-do-gato... No entretanto, colecionava dias ocultos em ovos caipiras, limões-galegos, laranjas-campistas, batatas-inglesas, toletes de fumo, trabesseirinhos de palha, fluidos, pedras-de-isqueiro. Ao meio-dia, entre verduras desmaiadas, sintonizava a Rádio Aparecida para ouvir o padre Victor, "Os ponteiros apontam para o infinito". Às três da tarde, entre agônicas verduras rejeitadas, sintonizava a Rádio Aparecida para ouvir o padre Victor, "Consagração a Nossa Senhora".

A Mirtes completara dezessete anos e caçava um rapaz que pudesse soerguê-la da condição de operária para a de grã-­fina. Na sala-de-pano da Industrial, longe do barulho, do calor, do abafamento, do ar viciado da fiação e da tecelagem, todas as recentes conquistas da família contavam pouco para ela. Queria conhecer logo um que morasse no centro e fosse proprietário de uma ótica ou uma loja de eletrodomésticos. Pois namorar povo da fábrica?, que nem ela mesma?, de jeito maneira! E nada também de dono de botequim, coisa de português, dá camisa a ninguém. Enquanto isso, ajeitava-se no sofá-cama da sala para dormir e namorava escondido um zé­mané qualquer nos escuros da Praça Santa Rita...

Eu tinha onze anos incompletos e estudava no Colégio Cataguases, de manhã. À tarde, me enturmando, jogava pelada no campinho do Paraíso, de depois-do-almoço até a hora-do­ângelus. À noite, descia para o Beira-Rio, peixe-fora-d'água, e perambulava, desconfiado, fazendo nada, observando os bandos que sanfonavam para cima e para baixo, despropositadamente, uma partida de jogo-de-botão, uma briga de catadores de marra, o carro novo da rua, um programa engraçado na televisão, um bêbado recalcitrante, urna revista de mulher pelada, uma luta arranjada, um salve, um desarranjo intestinal, uma pedrada numa vidraça, uma bola-de-meia, um caco de vidro no pé, urna bicicleta enfeitada... Os mais velhos pavoneavam-se em frente à casa de possíveis futuras namoradas, um violão, inúmeras vozes desafinadas, e as meninas suspiravam, mangavam, sonhavam, ridicularizavam, desfaleciam, debruçadas na janela.

O Reginaldo era grande, passado aos vinte, e por volta do Natal havia anunciado, para grande alegria dos meus pais, que ele e a Rejane tinham brigado, que não estava mais gostando da filha da Sá-Ana — "Bem que a senhora avisou...", ele reconheceu; "Meu filho, coração de mãe nunca erra...", minha mãe falou; "Deus ouviu as minhas preces", meu pai completou. O que os incomodava deveras, alegavam, nem tanto era a Sá-Ana ser preta — preta, retinta — até porque a Rejane era mais puxada para mulata, meio chocolate, observavam — mas por causa do terreiro-de-macumba que mantinha nos fundos da casa, vizinha ao Beco do Zé Pinto. Não é questão de cor, minha mãe frisava, é que esse povo mexe com o que não deve, com feitiçaria, com o tinhoso, Deus-que-me-livre-e-guarde!, alçava os olhos aos céus, benzendo-se e beijando o breve, que trazia sempre pendente do pescoço. No Paraíso, Reginaldo, assim que despido do macacão fedendo a graxa, enfronhava-se nas lides da casa, parecia que apaixonado: barria o terreiro com uma bassoura-de-mato, que minha mãe cortava toda tar­dinha nos altos do pasto; corria os morros, uma bomba de veneno nas costas, atrás dos panelões de formiga; abraçava as mudas recém-plantadas com pequenos círculos recortados em câmaras-de-ar de bicicleta; velava a bomba Marumby, que arrancava água do poço de dezesseis metros de fundura e jogava na caixa-d'água, em cima da laje, sempre atento para ver se a válvula não engasgava. Aí, tomava banho, engolia um pão­com-manteiga com um copo de Toddy, escovava os dentes, deitava-se, ligava o rádio-a-pilha Semp vermelho, e girava e regirava o dial à cata de alguma estação de ondas-curtas, que estivesse transmitindo em português àquela hora, e, no caminho, esbarrava em línguas impronunciáveis, estranhos ruídos, músicas exóticas, barulhos escalafobéticos...

Dormíamos no mesmo quarto, as camas separadas por uma mesinha labirintada de cupins, em cuja gaveta, passada à chave, ele guardava o cortador-de-unha, um pote de brilhantina, o pincel de barba, o aparelho de barbear, uma caixa de gilete, um tubo de creme de barbear, um vidro de aquavelva, algumas ampolas de príncipe-da-noite, um canivete suíço, uma chave-de-grifo, um paquímetro, uma lupa, uma carteira-de­dinheiro com folhas de plástico para proteger os documentos. Na parede contrária, dividíamos um cariado bufê, que usávamos para, dobradas, alojar as nossas roupas limpas.

Numa madrugada friíssima de maio, despertei aterrado, o alarido das criações assustadas no galinheiro, o coração aos murros, um arrupio na espinha, uma bambeza nas pernas, um zunido zunindo em-dentro da cabeça, meu corpo hirto assentado no gélido chão de cimento, envolto num breu tão espesso que poderia esmigalhar entre os dedos, a treva, o cheiro do coisa-ruim, meus olhos esbugalhados, o horror, atreva, então ouvi a voz fugidia, as pilhas gastas, sussurrar, em meio a um oceano de interferências.. "Aqui, Rádio BBC, trans(......) de Londres(......) ssão em português(......)ovas instruções(......)de Cataguases. O ata(......)undo agentes da ci(......)devem ocorr(......)leste, a esquadrilh(......)". E, num bote trai­çoeiro, o silêncio apresou o mundo, e tudo transformou-se num líquido pegajoso, malcheiroso, visguento, que, entornan­do-se, afogou a si próprio.

De manhãzinha, o despertador. Minha mãe levantou, pegou uma vasilha dentro do armário, escancarou a porta da cozinha, abriu a torneira do tanque-de-lavar-roupa, encheu a leiteira de água, depositou-a na trempe, pousou açúcar no fundo, acendeu uma boca do fogão-a-gás, entrou no quarto, murmurou, "Reginaldo, ô Reginaldo, cinco horas!", passou à sala, murmurou, "Mirtes, ô Mirtes, cinco horas", voltou à cozinha, encheu uma lata de milho, dirigiu-se ao terreiro, convocou as galinhas, pruuuu-ti-ti-ti, pruuuu-ti-ti-ti, meu pai tossiu...depois... o cheiro de café... Mirtes resmunga qualquer coisa... meu irmão abre a gaveta da mesinha... o cheiro de pão-na-frigideira... "friagem"... "este ano"... "pra pagar no dia"... barulho dos limpa-raios coloridos no aro da bicicleta do Reginaldo... o tamanco da Mirtes... "Bença, mãe... Bença, pai..." Minha pele queimava a roupa, o suor molhava o capim do colchão. É a morte, pensei. Fogo. Água. A morte. Tomei Melhoral e tomei Novalgina, tomei Coristina e tomei Conmel, tomei chá-de-folha­de-laranjeira e chá-de-assa-peixe, a febre cedeu, os músculos, entretanto, todos moídos.

Após o almoço, minha mãe, "Vou dar um pulinho na rua, fazer armazém, já-já eu volto", adormeci, um prato de mingau-de-maisena forrando o estômago. O vento traquinou pelo quintal: derrubou a tábua-de-carne que secava junto ao poço d'água, derrubou mudas de roupa do varal, levantou poeira no agreste do pasto, espalhou cisco, espantou as galinhas, quanto tempo, esse ziguezague? A cabeça no colo da minha mãe, "Ele está variando, Tião, vou fazer um chá-de­melão pra ele, coitadinho". Agarrei o braço do meu pai, "Pai... vão atacar...”, “Quem?, meu filho, quem...”, “Eles, pai... vão atacar... de avião...”, “Quem falou isso, meu filho?”, “A rádio...o homem... a rádio...”. Meu pai passou a mão na minha testa, “Você está variando, meu filho... Calma, está tudo bem. Calma...”. e gritou para minha mãe, “Geni, vem logo... o menino... A febre...”.

Passado o susto, mergulhamos na placidez azul de junho e nas mansas férias de julho.

Na segunda semana de volta às aulas, agosto entrado, especulava num finzinho de tarde, no cocoruto do morro, um caminhozinho de formigas, organizadíssima estrada preta mão-e-contramão, onde seria o olho-do-formigueiro, aquele fio errático que se perde no fundo profundo da terra, para, conhecendo, melhor combatê-las, quando, sem mais, o céu, as raras nuvens branco-róseas que preguiçosamente se esticavam para o sul, me lembrou os aviões, o grunhido dos motores... uma madrugada... o rádio ligado... Sim, não era sonho, não era pesadelo, eu tinha ouvido, não estava variando... Cataguases ia ser... mesmo... bombardeada! Desci a encosta a galope e, ao entrar em casa esbaforido, esbarrei no Reginaldo. "Só anda correndo, esse moleque...”, “Reginaldo...” “Quê que foi?” “É... que...” “Nada... Nada não...”...

— O quê que anda, meu filho, te machucando por dentro? - minha mãe perguntou, enquanto estendia a roupa-branca no quarador.

— Nada não, mãe.

— Filho, não mente pra sua mãe... Você tem andado tão... borocoxô... tão... caidinho... Não está gostando da casa nova? É isso?

— Não, mãe...

— Então... esta... apaixonado...É? Hein?


- Pára, mãe! Não é nada disso... É sério, mãe... Muito sério... Não é brincadeira não...

Minha mãe jogou a água-com-sabão que restava no fundo da bacia sobre o capim-angola alto, enxugou as mãos no avental encharcado, e postou-se à minha frente.

— Filho, aconteceu alguma coisa?

Tentei evitá-la, mas ela agarrou meus braços, enlaçou meus olhos.

— Responde!, filho-de-deus: aconteceu alguma coisa?

Sentada em volta da mesa, a família, meu pai pediu para que repetisse, para participar o que sabia.

— Já falei, pai...

— Fala de novo... O Reginaldo e a Mirtes não ouviram ainda...

Cabisbaixo, envergonhado, acuado, Vão rir de mim... vão rir... , engrolei "Eu... ouvi... na rádio... que vão jogar bomba... em Cataguases... que é pra todo mundo... ficar..."

O Reginaldo deu um murro na mesa, falou:

— Que rádio, sô! Esse menino é um fantasista, pai, vive inventando moda...

— Pra mim, ele é é doente-da-cabeça — disse a Mirtes.

Saí alado em direção ao campinho terraplenado no alto do Paraíso, vontade de nunca mais pôr os pés naquela casa, raiva do Reginaldo e da Mirtes, de quem, aliás, nem devia ser irmão-de-verdade, desconfiava; irmão-de-criação, isso sim, como deixara a entender certa vez a tia Neuma, que eu tinha sido pego na enchente, que minha mãe, água na altura do peito, tinha me achado numa cestinha, a alça engastalhada nos galhos de uma laranjeira. “Você não nasceu em março? Março não tem enchente-das-goiabas? Pois!" Ganhei a estradinha que enviesava morraria acima, de-chão, ressulcada pela enxurrada, calhaus magoando a banda dos pés enchinelados, uma pirambeira, casinhas adoentadas agarradas à terra amarela esfarelenta, laje na altura do armamento, fedor de porcos no cercadinho, uma plantaçãozinha de mandioca, um alastro de verdurinhas magras, um gato espreguiçado na janela, outro encaracolado na porta da sala, sobre um tapete imundo, dois filhotes rolam na poeira do terreiro, e cachorros e cachorros e cachorros, todos na viralatice, continuei caminhando, os tetos espaçando, um barraco aqui, um puxado ali, lá em baixo o Beira-Rio enrodilhado no Rio Pomba, uma parte do Paraíso; entrei na mata, uma vez acompanhei minha mãe na panha de lenha, numa parte onde as grimpas entrelaçavam as folhas e o sol, a custo, chovia seus raios no mato rasteiro, "Mãe, tem lobo aqui?", "Lobo? Tem não, meu filho", subi numa pitangueira, me lambuzei de fruta, madornei esticado no silêncio, os olhos enfeitiçados pelas serpentinas luminosas que boiavam no ar, nem percebi a noite invadir a tarde. Passei duas vezes em frente à minha casa, cadê coragem?, mas o cheiro do alho torrado para fazer mingau-de­fubá mais a promessa de tomar banho, trocar de roupa, me enfiar debaixo de uma coberta quentinha, me convenceram. Cheio de poréns, penetrei, pé-ante-pé, na cozinha; minha mãe, como que prevenida, atenazou minha prelha esquerda, "Aonde você se meteu, peste?", ralhou, "Ai, ai, mãe, minha orelha!", "Deixou todo mundo preocupado, ô-coisa!", gritava, os lábios descoloridos, "Quer me matar de susto? É?", o dedo erguido nas minhas fuças, "Vai já pro banho, já!", um tapa na bunda, "Seu pai está louco da vida! Revirou a cidade de pernas pro ar... e nada! Aonde você estava escondido, heim?, diacho!, aonde? Nas pintangueiras? Sozinho? O que você foi fazer lá, heim? O quê? Ai, minha nossa! É assim... Os filhos... Ai, ai, ai”. Na hora da janta, meus olhos rastejantes, a indiferença do Reginaldo, o esgar da Mirtes, o sermão silencioso do meu pai, mais ardido que uma coça de vara-de-marmelo.

Em meados de outubro, o zunido do rádio arrancou-me do sono. Arreceando assustar o Reginaldo, engatinhei à cata do aparelho no negrume da madrugada, prendi-o entre os dedos, arrastei-o, sentei-me na beira da cama, procurei o botão do liga­desliga, mas, antes de achá-lo, escutei, nítido, "Aqui, Rádio BBC, transmitindo desde Londres, em mais uma emissão em português. Seguem novas instruções ao povo de Cataguases: o ataque alemão, segundo agentes da ClA, deverá ocorrer no fim de dezembro. Vinda do leste, uma esquadrilha bombardeará impiedosamente a cidade, abrindo caminho para a Cavalaria e Infantaria. Mais uma vez, recomendamos: mobilizem-se!" Meu corpo, um pião desequilibrado, o coração aos murros, um arrupio na espinha, uma bambeza nas pernas, uma barulheira em-­dentro da cabeça, a treva, meus olhos esbugalhados, corri a cortina que separava a cozinha do quarto dos meus pais, entrei, "Que foi?”, “Sou eu, mãe..., “Quem é, Geni?”, “Sou eu, pai...”, “Vem cá, meu filho... Quê que foi? Teve um sonho ruim?” “Mãe... Pai... eu... eu...eu ouvi aquela coisa... de novo...”, “A guerra?” perguntou meu pai, aflito, vestindo a boca com a dentadura, “É...a guerra...”, respondi focinhando-me entre os dois. Dia seguinte meu pai iniciou uma peregrinação, na tentativa de fazer-se ouvir pelas autoridades competentes:
O prefeito, Dr. Manoel Prata, estava em Juiz de Fora, "Tratamento de saúde", explicaram, "Sabe quando ele volta?", "Sei dizer não";
O vereador Levindo Novaes, conhecido de-vista, ouviu-o pacientemente, enquanto cumprimentava um e outro na Rua do Comércio, "Seu... Sebastião? Sebastião! Seu Sebastião... sinceramente acho isso tudo, como vou dizer?, estranho... meio... absurdo... Mas, o senhor pode ficar tranqüilo, eu vou propor, numa próxima sessão, que o assunto seja colocado em pauta... Pode ficar sossegado... Bom, seu Sebastião, eu preciso ir andando... se o senhor precisar de mais alguma coisa, não se acanhe... pode me procurar...";
O padre Heraldo, da Igreja de São José Operário, conduziu meu pai até a porta da sacristia, a mão em seu ombro, disse, sorrindo, "Seu Sebastião, isso é imaginação... pura imaginação do menino...";
O Zé Pinto, seu bastante conhecido ex-senhorio, "Dá uma coça de corrião nele, bem dada, passa pimenta nos beiços dele, que ele pára de inventar mentira. E, ó, quer um conselho?, faz isso logo, porque depois... depois tem jeito mais não... Escuta o que estou falando...";
O prefeito, Dr. Manoel Prata, estava em Belo Horizonte, "Foi resolver umas pendências lá", explicaram, "Sabe quando ele volta?", "Sei dizer não";
O diretor do Colégio Cataguases, professor Guaraciaba dos Reis, atrás de uma enorme mesa de cabiúna, adornada por um solitário vazio e um pequeno busto grego de gesso, argumentava, "Seu Sebastião... seu Sebastião... Antes de mais nada, deixe­-me esclarecer uma coisa pro senhor: desde que perderam a Segunda Guerra Mundial, em 1945, em 1945, eu repito, os alemães nem Forças Armadas têm mais... E, não fosse isso, imagine o senhor... essa notícia já seria do conhecimento, no mínimo, do presidente da República, o senhor concorda? Além do que, cá entre nós, seu Sebastião, se alguém fosse atacar o Brasil, por que que ia começar logo por Cataguases?, hein, seu Sebastião, me explica, por que logo por Cataguases? Olha, seu filho é um bom aluno, esforçado, tem bom comportamento... não seria o caso... seu Sebastião... de o senhor... encaminhá-lo... a um médico... um... psiquiatra... quem sabe é coisa boba... um tratamentinho à toa resolve... Tem aí o Dr. Gilson Machado... o senhor conhece, não conhece? Pois então... atende no INPS... é só entrar na fila... vai cedinho... pega a ficha...";
O delegado, Dr. Aníbal Resende, apertou a mão do meu pai (camarada), "Obrigado, seu Sebastião, por ter aceitado o nosso convite. Isso só me dá mais convicção de que se trata de um grande equívoco... e é isso, aliás, que nós vamos esclarecer agora... (acende um cigarro) Pode se sentar, seu Sebastião, fique à vontade. Bom, pra não me estender muito, seu Sebastião, vamos direto ao ponto: (irônico, a voz alterada) que raio de história é essa que o senhor anda espalhando por aí, seu Sebastião, de que Cataguases vai ser invadida pelos alemães? Quem foi que inventou uma besteira tão grande, seu Sebastião? (compreensivo, a voz mais baixa) Seu Sebastião, deixe-me explicar uma coisa pro senhor: o senhor, a sua família, são pessoas de bem, conhecidos, ordeiros, cumpridores do dever... Agora, o senhor já ouviu falar dos comunistas? (didático) Existe em nosso país gente que quer implantar o terror, irmão matando irmão, (a voz amplifica-se, o suor escorre da testa) (As mãos gesticulam, teatrais) quer ver o Brasil nas mãos dos comunistas, da Rússia!, seu Sebastião, da Rússia!, onde os valores cristãos de nada valem, onde os homens dividem as mulheres com os amigos, as filhas dormem com os pais, os padres são enforcados por pura diversão, onde não há lei, só anarquia, bagunça, perdição... (gritando) São esses comunistas, seu Sebastião, que espalham notícias como essa que o senhor anda espalhando, com o objetivo de provocar o pânico, a desordem, a desconfiança... (esmurra a mesa) (Levanta-se, acende outro cigarro, acalma-se) Seu Sebastião... seu Sebastião... deixe-me fazer uma pergunta pro senhor e queria que o senhor me respondesse com toda sinceridade: (fixa seus olhos nos olhos do meu pai) seu Sebastião, o senhor conhece algum comunista? Já viu um? Não? O senhor sabe quem é comunista? Não? (Senta-se, limpa o rosto com um lenço, enfia-o de novo no bolso de trás da calça) (sarcástico) Nem nós, seu Sebastião... Nem nós, da polícia... Sabe por quê? Porque comunista não traz isso escrito na testa... Como posso ter certeza de que o senhor, seu Sebastião, não é comunista, se o senhor está agindo como um? Bom, então vamos dar um voto de confiança pro senhor, seu Sebastião. (autoritário) Agora, a partir de hoje o senhor está proibido, proibido, o senhor entendeu?, de abrir a boca pra falar sobre isso. Proibido! Outra coisa: vamos confiscar... temporariamente apenas... todos os aparelhos de rádio e televisão que o senhor tiver em casa... (gritando) Eu não tenho nada com isso! Se o senhor ainda está pagando a televisão, problema seu! Estou sendo seu amigo, seu Sebastião, não sei se o senhor percebeu! (Pega um papelzinho na gaveta) (a voz mais mansa, confidente) O senhor tem um filho... Reginaldo? Reginaldo... tinha um tio meu que chamava Reginaldo... Bom, o Reginaldo trabalha na Manufatora, não é mesmo? E tem uma filha... Mirtes... a Mirtes trabalha na sala-de-pano da Industrial? Belo emprego, hein, seu Sebastião... Os filhos bem encaminhados, graças a Deus... (comovido) Pois é, e tem gente que jura que o senhor é comunista, só pra ver seus filhos serem mandados embora, só pra ver a família do senhor passando dificuldades... que mundo, esse, seu Sebastião, que mundo! (amigo) Ah, não esquece de levar o menino no psiquiatra, como recomendou o professor Guaraciaba...";
O médico-psiquiatra, Dr. Gilson Machado, me disse para esperar lá fora, virou-se para meu pai, "O menino... parece... tem uma tendência... à esquizofrenia... à... loucura... vamos... vamos continuar acompanhando... ficar de-olho... vamos ver o que acontece..."

Havíamos vislumbrado um dia a felicidade?

Minha mãe aguou. A tardinha, sentada na poltrona da sala, a porta às escâncaras, nenhuma brisa a espanar o calor, os olhos esmaecidos tropeçavam nos desenhos do bordado da toalha que cobria a mesinha, onde, até há pouco, lembra?, pousava a televisão, a nossa televisão, que nem tínhamos acabado de pagar ainda.

Então, as mãos magras, manchadas, feridas pela água sanitária, buscavam cobrir o rosto curtido pelo sol, meu Deus, me ajude!, tentavam compreender o que se passava, que mal tomara sua casa, sua família, que força era aquela que ameaçava tornar ao chão o que levaram vidas para erguer, o que, meu Deus, está havendo, o quê?, não ajuizava por que as vizinhas a evitavam, por que as comadres escapuliam, por que os moleques a apontavam, zombeteiros, por acaso sabiam todos de algum algo que ignorava?, por que então não dividiam com ela?, por quê?, sentia-se como se dona de uma doença­ruim, de um mal-do-sangue, levantava-se, suspirava, procurava, através da janela, uma explicação, as roupas ressecando penduradas no varal, amontoando-se empilhadas no guarda­roupa para passar, a janta por fazer, a poeira acumulando-se no amarelão, esmagrecida, entojada, cabelos desgrenhados, varizes estuporadas, "Tião... o menino... o menino é doido, Tião? É doido?"

Meu pai perdeu a graça. Cofiava os dias embirrado no entre-quatro-paredes da quitanda de chão serenado, lendo amiudado jornais passados que iriam no após embrulhar verduras, legumes e frutas, entrincheirado num silêncio enfezado, cada vez menos granado às coisas do mundo, nos confins de tarde entornando cachaça na venda, mastigando tira-gostos, um jiló cozido, um ovo colorido, uma lingüiça frita, remoendo as lorotas, as vantagens, as novidades dos que largavam do serviço na Industrial, ralando o braço no chapisco da parede de casa, noite­feita, fedendo a álcool, recendendo a vômito, esquivando-se dos sonhos que infestam a madrugada.

O Reginaldo voltou para a Rejane — "Mandinga", jurava minha mãe —, falando até em casamento, enxoval, compra de móveis, em viver-sob-o-mesmo-teto... A Mirtes reconsiderava, juntar os panos com um igual talvez não fosse tão sério assim...

Em tudo, o desânimo.

Onde a explicação para aquela desgraça? Onde?

Urgia o tempo, larguei a escola.

Com uma talhadeira, demarquei no cimento debaixo da minha cama um quadrado de trinta centímetros, para desgosto da minha mãe. Com a cavadeira, alimentei o buraco. De começo, explodiram calos-de-sangue, o serviço só avançando guiado pelas mãos mumificadas; à noite, latejavam os músculos, incendiava a cabeça, enjoava o estômago, roíam os rins, rilhavam os dentes. A terra desassentada carregava num balde de zinco, a alça amarrada a uma corda, escalava as paredes úmidas, puxava, despejava num carrinho-de-mão, uma, duas, três, quatro, cinco viagens, até enchê-lo, conduzia-o para o atrás-da­casa, riscando o chão do quarto e da cozinha, a um agora monturo, outrora pequena horta, e voltava à faina. Quando reparei os dois metros de fundura, empunhei um enxadãozinho e cavuquei lateralmente, dia e noite, endiabrado, corpo bobo, maquinal, até esculpir um aposento pequeno, metro e vinte de altura hum de largura, hum de comprimento. Aí, a enfeitação: calços de madeira para amparar o teto, taubas para forrar o chão, uma extensão de força, meu colchão-de-capim, meu trabesseiro de pena. Uma tampa de latão cerrava a boca do buraco.

Na folhinha, dezembro dobrado ao meio.


Luiz Ruffato (1961) é natural de Cataguases (MG). Jornalista e escritor, é formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Publicou "Cotidiano do medo" (poemas - 1984), "Histórias de remorsos e rancores" (contos - 1998) e ("os sobreviventes") (contos - 2000). Participou da antologia "Novos contistas mineiros" (1986). Em 2001 recebeu menção especial no Prêmio Casa de Las Américas, pelo melhor livro publicado em língua portuguesa no ano anterior.

Outros livros publicados: "Eles eram muito cavalos" (Prêmio APCA e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional); "Mama son tanto felice - Inferno provisório - Vol. 1)"; "O mundo inimigo - Inferno provisório - Vol.2); "Vista parcial da noite - Inferno provisório - Vol. 3)"; "De mim já nem se lembra"; "Fora da ordem e do progresso" e "Tarja preta". Organizou os livros "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" e "+ 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira".


Leia o texto. Compre o livro.

[ Voltar ]

RESPEITE OS DIREITOS AUTORAIS E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
Copyright © 1996 PROJETO RELEITURAS. É proibida a venda ou reprodução de qualquer parte do conteúdo deste site.