No trem de ferro

Lúcio de Mendonça


Vinha sentado gravemente, mudo,
D'olhos baixos, obeso e venerando,
Mãos cruzadas no ventre, ruminando
Velhas rezas ou santo e duro estudo.

Ergue tímido o olhar, triste; contudo,
É paternal e bom; de quando em quando
Ao céu o volve, ao céu que vai passando
Pelas vidraças, empoeirado. Tudo

Nele respira a fé e cheira a igreja.
Por todos os seus poros Deus poreja.
Do seu breviário agora passa as folhas.

Pio varão! para este já começa
O reino do Senhor!... mas sai à pressa
E cai-lhe da batina — um saca-rolhas!


Lúcio Eugênio de Menezes e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 - 1909) é natural de Barra do Piraí (RJ). Ficou famoso na campanha republicana por sua veemência de panfletário da prosa e do verso. Além de republicano, era anti-clerical e de tendência socialista. Dele partiu a idéia de criar-se a Academia Brasileira de Letras, na qual ocupou a Cadeira nº 11. Alguns de seus livros publicados: "Névoas matutinas", "Alvoradas", "Canções de outono", "Vergastas", "Esboços e perfis" e "Horas do bom tempo". Além de escritor, serviu à Magistratura como ministro do Supremo Tribunal Federal.

Versos extraídos do livro "Antologia de Humorismo e Sátira", Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1957, pág. 126, seleção de R. Magalhães Júnior.

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