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Arnaldo Nogueira Jr



Lindolfo Gomes


O amigo da onça

Anônimo
(s/d/Brasil)
registro de Lindolfo Gomes


A literatura popular brasileira também tem seu riso próprio, suas boas histórias e seus personagens marcantes. É o caso do Amigo da Onça, que virou a marca registrada do desenhista de humor Carlos Estêvão na revista Cruzeiro dos anos de 1950. E acabou consagrando-se como uma expressão de uso corrente na nossa língua. Uma das melhores versões desta literatura de origem oral foi registrada por Lindolfo Gomes em 1931, em Contos Populares Brasileiros.


A Onça, que é bicho valente — mas nem sempre atilado, como se pensa —, estava quietinha no seu canto, quando lhe apareceu o compadre Lobo e lhe foi dizendo:

— Saiba de uma coisa, comadre Onça: você — com perdão da palavra — não é, como supõe, o bicho mais valente e destemido que existe no mundo, nem também o Leão, com toda a sua prosa de rei dos animais.

— Como assim! — gritou a Onça, enfurecida. — Então, como é isso, grande pedaço de idiota? Haverá bicho mais valente e poderoso do que eu?

O Lobo, adoçando a voz, respondeu:

— Ó comadre, me perdoe. Estou arrependido de dizer tal coisa... Mas a minha intenção foi preveni-la contra um “bicho” terrível que apareceu nesta paragem. Uma pessoa prevenida vale por duas.

— Sim, não deixa você de ter alguma razão — acudiu a Onça mais acomodada.— Mas sempre quero saber o nome desse bicho. Como se chama?

— Esse bicho, compadre, chama-se “homem”, conforme me disse o amigo papagaio. Nunca vi em minha vida animal de mais perigosa valentia. Ele sim, e ninguém mais, é o que me parece ser mesmo o verdadeiro rei dos animais. Basta dizer que, de longe, o vi matar, com dois espirros, nada menos do que um leão e uma hiena. Ih! Compadre, com o estrondo dos espirros parecia que tudo ia pelos ares. Deus nos livre!

— Oh! Compadre, não me diga!

— É como lhe conto. E o que mais admira é ser o “bicho-homem” de pequeno porte. Parece até fraco, e é muito mal servido de unhas e dentes. Deve ser um “bicho” misterioso e encantado.

—Pois bem, compadre, estou curiosa, e desejo que, sem demora, me conduza ao lugar onde se encontra tão estranho animal.

— Ah, compadre, peça-me tudo, menos isso. Pelos estragos que, de longe, vi o homem fazer, com seus malditos espirros, nunca me atreveria a tal aventura...

— Pois queira ou não queira, tem de mostrar-me o »bicho”, ou então, agora mesmo perderá a vida.

— Lá por isso não seja — disse o Lobo amedrontado. — Iremos. Mas havemos de tomar todas as precauções. Eu — com a sua licença — posso correr mais do que a comadre. Assim, levaremos uma embira daquelas que não arrebentam nunca. Amarro uma das pontas no pescoço da comadre e a outra em minha cintura. Em caso de perigo, se for preciso fugir, a comadre e eu corremos.

— Fugir! Veja lá o que diz! Você já viu, ‘seu’ podrela, alguma vez onça fugir?

— Não me expliquei bem. Eu é que fugirei. A comadre será apenas arrastada por mim. Isso não é fugir. Está certo?

— Está bem. Faremos como propõe.

E partiram. A Onça com a embira atada ao pescoço, e o Lobo, muito respeitoso e tímido, a puxá-la.

Quando chegaram ao destino, o “bicho-homem”, surpreendido ao avistá-los, tirou da cinta a garrucha e, atarantado, bateu fogo, isto é, espirrou, uma, duas vezes, que foi
mesmo um estrondo de todos os diabos.

O lobo então mais que depressa disparou numa corrida desabalada, redobrando quanto podia as forças para arrastar a Onça pela forte embira “que tinha atado no pescoço dela”.

De repente, já muito distante, o Lobo sentiu que a Onça estava mais pesada. Parou então e contemplou a companheira estendida no chão, com os dentes arreganhados, sem o mais leve movimento.

O Lobo, sem perceber que a Onça havia morrido enforcada no laço da embira —antes pensando que estivesse apenas cansada —, disse-lhe, tremendo como varas verdes:

— He lá, comadre! Não ri não que o negócio é sério!

Lindolfo Gomes (Guaratinguetá, São Paulo, 12 de março de 1875 - Rio de Janeiro, 15 de maio de 1953) foi contista, ensaísta, folclorista, inspetor de ensino, jornalista, poeta, professor, prosador e teatrólogo. Entre as obras publicadas: Folclore e Tradições do Brasil (1915); Contos Populares Brasileiros (1918); Nihil novi (1927).

 

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