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Quase ela deu o
"sim", mas...
Lima Barreto
João Cazu era um moço suburbano, forte e saudável, mas pouco ativo e amigo do trabalho.
Vivia em casa dos tios, numa estação de subúrbios, onde tinha moradia, comida, roupa,
calçado e algum dinheiro que a sua bondosa tia e madrinha lhe dava para os cigarros.
Ele, porém, não os comprava; "filava-os" dos outros. "Refundia" os
níqueis que lhe dava a tia, para flores a dar às namoradas e comprar bilhetes de
tômbolas, nos vários "mafuás", mais ou menos eclesiásticos, que há por
aquelas redondezas.
O conhecimento do seu hábito de "filar" cigarros aos camaradas e amigos, estava
tão espalhado que, mal um deles o via, logo tirava da algibeira um cigarro; e, antes de
saudá-lo, dizia:
Toma lá o cigarro, Cazu.
Vivia assim muito bem, sem ambições nem tenções. A maior parte do dia, especialmente a
tarde, empregava ele, com outros companheiros, em dar loucos pontapés, numa bola, tendo
por arena um terreno baldio das vizinhanças da residência dele ou melhor: dos seus tios
e padrinhos.
Contudo, ainda não estava satisfeito. Restava-lhe a grave preocupação de encontrar quem
lhe lavasse e engomasse a roupa, remendasse as calças e outras peças do vestuário,
cerzisse as meias, etc., etc.
Em resumo: ele queria uma mulher, uma esposa, adaptável ao seu jeito descansado.
Tinha visto falar em sujeitos que se casam com moças ricas e não precisam trabalhar; em
outros que esposam professoras e adquirem a meritória profissão de "maridos da
professora"; ele, porém, não aspirava a tanto.
Apesar disso, não desanimou de descobrir uma mulher que lhe servis convenientemente.
Continuou a jogar displicentemente, o seu football vagabundo e a viver cheio de
segurança e abundância com os seus tios e padrinhos.
Certo dia, passando pela porteira da casa de uma sua vizinha mais ou menos conhecida, ela
lhe pediu:
"Seu" Cazu, o senhor vai até à estação?
Vou, Dona Ermelinda.
Podia me fazer um favor?
Pois não.
É ver se o "Seu" Gustavo da padaria "Rosa de Ouro", me pode
ceder duas estampilhas de seiscentos réis. Tenho que fazer um requerimento ao Tesouro,
sobre coisas do meu montepio, com urgência, precisava muito.
Não há dúvida, minha senhora.
Cazu, dizendo isto, pensava de si para si: ,'É um bom partido. Tem montepio, é viúva; o
diabo são os filhos!" Dona Ermelinda, à vista da resposta dele, disse:
Está aqui o dinheiro.
Conquanto dissesse várias vezes que não precisava daquilo o dinheiro o
impenitente jogador de football e feliz hóspede dos tios, foi embolsando os
nicolaus, por causa das dúvidas.
Fez o que tinha a fazer na estação, adquiriu as estampilhas e voltou para entregá-las
à viúva.
De fato, Dona Ermelinda era viúva de um contínuo ou cousa parecida de uma repartição
pública. Viúva e com pouco mais de trinta anos, nada se falava da sua reputação.
Tinha uma filha e um filho que educava com grande desvelo e muito sacrifício.
Era proprietária do pequeno chalet onde morava, em cujo quintal havia laranjeiras
e algumas outras árvores frutíferas.
Fora o seu falecido marido que o adquirira com o produto de uma "sorte" na
loteria; e, se ela, com a morte do esposo, o salvara das garras de escrivães,
escreventes, meirinhos, solicitadores e advogados "mambembes", devia-o à
precaução do marido que comprara a casa, em nome dela.
Assim mesmo, tinha sido preciso a intervenção do seu compadre, o Capitão Hermenegildo,
a fim de remover os obstáculos que certos " águias" começavam a pôr, para
impedir que ela entrasse em plena posse do imóvel e abocanhar-lhe afinal o seu chalézito
humilde.
De volta, Cazu bateu à porta da viúva que trabalhava no interior, com cujo rendimento
ela conseguia aumentar de muito o módico, senão irrisório montepio, de modo a conseguir
fazer face às despesas mensais com ela e os filhos.
Percebendo a pobre viúva que era o Cazu, sem se levantar da máquina, gritou:
Entre, "Seu" Cazu.
Estava só, os filhos ainda não tinham vindo do colégio. Cazu entrou.
Após entregar as estampilhas, quis o rapaz retirar-se; mas foi obstado por Ermelinda
nestes termos:
Espere um pouco, "Seu" Cazu. Vamos tomar café.
Ele aceitou e, embora, ambos se serviram da infusão da "preciosa rubiácea" ,
como se diz no estilo "valorização".
A viúva, tomando café, acompanhado com pão e manteiga, pôs-se a olhar o companheiro
com certo interesse. Ele notou e fez-se amável e galante, demorando em esvaziar a
xícara. A viuvinha sorria interiormente de contentamento. Cazu pensou com os seus
botões: "Está aí um bom partido: casa própria, montepio, renda das costuras; e
além de tudo, há de lavar-me e consertar a roupa. Se calhou, fico livre das censuras da
tia..."
Essa vaga tenção ganhou mais corpo, quando a viúva, olhando-lhe a camisa, perguntou:
"Seu " Cazu, se eu lhe disser uma cousa, o senhor fica zangado?
Ora, qual, Dona Ermelinda?
Bem. A sua camisa está rasgada no peito. O senhor traz " ela" amanhã,
que eu conserto "ela".
Cazu respondeu que era preciso lavá-la primeiro; mas a viúva prontificou-se em fazer
isso também. O player dos pontapés, fingindo relutância no começo, aceitou
afinal; e doido por isso estava ele, pois era uma " entrada" , para obter uma
lavadeira em condições favoráveis.
Dito e feito: daí em diante, com jeito e manha, ele conseguiu que a viúva se fizesse a
sua lavadeira bem em conta.
Cazu, após tal conquista, redobrou de atividade no football, abandonou os biscates
e não dava um passo, para obter emprego. Que é que ele queria mais? Tinha tudo...
Na redondeza, passavam como noivos; mas não eram, nem mesmo namorados declarados.
Havia entre ambos, unicamente um "namoro de caboclo", com o que Cazu ganhou uma
lavadeira, sem nenhuma exigência monetária e cultivava-o carinhosamente.
Um belo dia, após ano e pouco de tal namoro, houve um casamento na casa dos tios do
diligente jogador de football. Ele, à vista da cerimônia e da festa, pensou:
"Porque também eu não me caso? Porque eu não peço Ermelinda em casamento? Ela
aceita, por certo; e eu..."
Matutou domingo, pois o casamento tinha sido no sábado; refletiu segunda e, na terça,
cheio de coragem, chegou-se à Ermelinda e pediu-a em casamento.
É grave isto, Cazu. Olhe que sou viúva e com dois filhos!
Tratava "eles" bem; eu juro!
Está bem. Sexta-feira, você vem cedo, para almoçar comigo e eu dou a resposta.
Assim foi feito. Cazu chegou cedo e os dous estiveram a conversar. Ela, com toda a
naturalidade, e ele, cheio de ansiedade e, apreensivo.
Num dado momento, Ermelinda foi até à gaveta de um móvel e tirou de lá um papel.
Cazu disse ela, tendo o papel na mão você vai à venda e à
quitanda e compra o que está aqui nesta "nota". É para o almoço.
Cazu agarrou trêmulo o papelucho e pôs-se a ler o seguinte:
1 quilo de feijão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .600 rs.
1/2 de farinha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
1/2 de bacalhau. . . . . . . . . . . .. . . . . . . .1.200 rs.
1/2 de batatas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360 rs.
Cebolas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Alhos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100 rs.
Azeite. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300 rs.
Sal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Vinagre. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3.260 rs.
Quitanda:
Carvão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ...280 rs.
Couve. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ....200 rs.
Salsa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ...100 rs.
Cebolinha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ......100 rs.
tudo: . . . . . . . . . . . ..............................3.860 rs.
Acabada a leitura, Cazu não se levantou logo da cadeira; e, com a lista na mão, a olhar
de um lado a outro, parecia atordoado, estuporado.
Anda Cazu, fez a viúva. Assim, demorando, o almoço fica tarde...
É que...
Que há?
Não tenho dinheiro.
Mas você não quer casar comigo? É mostrar atividade meu filho! Dê os seus
passos... Vá! Um chefe de família não se atrapalha... É agir !
João Cazu, tendo a lista de gêneros na mão, ergueu-se da cadeira, saiu e não mais
voltou...
(mantida a grafia da época)
Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em 1881 e aqui
morreu em 1922. Estudou engenharia, mas interrompeu o curso e foi ser funcionário da
secretaria do Ministério da Guerra. Dedicou-se, desde o tempo de estudante, às letras.
Escreveu nas principais revistas de sua época, como "Fon-Fon",
"Careta", "O Malho", "Brás Cubas" e muitas outras. Grande
parte de sua notável obra literária foi de cunho satírico e humorístico, servindo de
exemplo "Os Bruzundangas" e "Triste Fim de Policarpo Quaresma".
Merecem também destaques seus romances "Recordações do Escrivão Isaias
Caminha", "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá" e "Clara dos
Anjos". Deixou muitos contos, além dos constantes de seu livro "Histórias e
Sonhos".
O texto acima foi extraído da revista "Careta" - Rio de Janeiro, edição de
29/01/1921. Consta, também, do livro "O homem que sabia javanês e outros
contos", Pólo Editorial do Paraná - Curitiba (PR), 1997.
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