O Apito
Luis Fernando Verissimo
Tudo o que o Mafra dizia, o Dubin duvidava.
Eram inseparáveis, mas viviam brigando. Porque o Mafra contava histórias fantásticas e
o Dubin sempre fazia aquela cara de conta outra.
Uma vez...
Lá vem história.
Eu nem comecei e você já está duvidando?
Duvidando, não. Não acredito mesmo.
Mas eu nem contei ainda!
Então conta.
Uma vez eu fui a um baile só de pernetas e...
Eu não disse? Eu não disse?
O Mafra às vezes fazia questão de provar as suas histórias para o Dubin.
Dubin, eu sou ou não sou pai-de-santo honorário?
O Dubin relutava, mas confirmava.
É.
Mas em seguida arrematava:
Também, aquele terreiro está aceitando até turista argentino...
Então veio o caso do apito. Um dia, numa roda, assim no mais , o Mafra revelou:
Tenho um apito de chamar mulher.
O quê?
Um apito de chamar mulher.
Ninguém acreditou. O Dubin chegou a bater com a cabeça na mesa, gemendo:
Ai meu Deus! Ai meu Deus!
Não quer acreditar, não acredita. Mas tenho.
Então mostra.
Não está aqui. E aqui não precisa apito. É só dizer "vem cá".
O Dubin gesticulava para o céu, apelando por justiça.
Um apito de chamar mulher! Só faltava essa!
Mas aconteceu o seguinte: Mafra e Dubin foram juntos numa viagem (Mafra queria provar ao
Dubin que tinha mesmo terras na Amazônia, uma ilha que mudava de lugar conforme as
cheias) e o avião caiu em plena selva. Ninguém se pisou, todos sobreviveram e depois de
uma semana a frutas e água foram salvos pela FAB. Na volta, cercados pelos amigos, Mafra
e Dubin contaram sua aventura. E Mafra, triunfante, pediu para Dubin:
Agora conta do meu apito.
Conta você disse Dubin, contrafeito.
O apito existia ou não existia?
Existia.
Conta, conta pediram os outros.
Foi no quarto ou quinto dia. Já sabíamos que ninguém morreria. A FAB já tinha
nos localizado. O salvamento era só uma questão de tempo. Então, naquela descontração
geral, tirei o meu apito do bolso.
O tal de chamar mulher?
Exato. Estou mentindo, Dubinzinho?
Não murmurou Dubinzinho.
Soprei o apito e pimba.
Apareceram mulheres?
Coisa de dez minutos. Três mulheres.
Todos se viraram para o Dubin incrédulos.
É verdade?
É concedeu Dubin.
Fez-se um silêncio de puro espanto. No fim do qual Dubin falou outra vez:
Mas também, era cada bucho!
A crônica acima foi extraída do livro "Outras do analista de Bagé", L
& PM Editores - Porto Alegre, 1982, pág. 15.
Este foi o primeiro texto
"publicado" pelo embrionário Projeto Releituras, no dia 23 de maio de 1996.
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