Suicídio na granja
Lygia Fagundes Telles
Alguns se justificam e se despedem através de cartas, telefonemas ou pequenos gestos
avisos que podem ser mascarados pedidos de socorro. Mas há outros que se vão no
mais absoluto silêncio. Ele não deixou nem ao menos um bilhete?, fica perguntando a
família, a amante, o amigo, o vizinho e principalmente o cachorro que interroga com um
olhar ainda mais interrogativo do que o olhar humano, E ele?!
Suicídio por justa causa e sem causa alguma e aí estaria o que podemos chamar de
vocação, a simples vontade de atender ao chamado que vem lá das profundezas e se
instala e prevalece. Pois não existe a vocação para o piano, para o futebol, para o
teatro. Ai!... para a política. Com a mesma força (evitei a palavra paixão) a vocação
para a morte. Quando justificada pode virar uma conformação, Tinha os seus motivos! diz
o próximo bem informado. Mas e aquele suicídio que (aparentemente) não tem nenhuma
explicação? A morte obscura, que segue veredas indevassáveis na sua breve ou longa
trajetória.
Pela primeira vez ouvi a palavra suicídio quando ainda morava naquela antiga chácara que
tinha um pequeno pomar e um jardim só de roseiras. Ficava perto de um vilarejo cortado
por um rio de águas pardacentas, o nome do vilarejo vai ficar no fundo desse rio. Onde
também ficou o Coronel Mota, um fazendeiro velho (todos me pareciam velhos) que andava
sempre de terno branco, engomado. Botinas pretas, chapéu de abas largas e aquela bengala
grossa com a qual matava cobras. Fui correndo dar a notícia ao meu pai, O Coronel encheu
o bolso com pedras e se pinchou com roupa e tudo no rio! Meu pai fez parar a cadeira de
balanço, acendeu um charuto e ficou me olhando. Quem disse isso? Tomei o fôlego: Me
contaram no recreio. Diz que ele desceu do cavalo, amarrou o cavalo na porteira e foi
entrando no rio e enchendo o bolso com pedra, tinha lá um pescador que sabia nadar, nadou
e não viu mais nem sinal dele.
Meu pai baixou a cabeça e soltou a baforada de fumaça no ladrilho: Que loucura. No ano
passado ele já tinha tentado com uma espingarda que falhou, que loucura! Era um cristão
e um cristão não se suicida, ele não podia fazer isso, acrescentou com impaciência.
Entregou-me o anel vermelho-dourado do charuto. Não podia fazer isso!
Enfiei o anel no dedo, mas era tão largo que precisei fechar a mão para retê-lo. Mimoso
veio correndo assustado. Tinha uma coisa escura na boca e espirrava, o focinho sujo de
terra. Vai saindo, vai saindo!, ordenei fazendo com que voltasse pelo mesmo caminho, a
conversa agora era séria. Mas pai, por que ele se matou, por quê?! fiquei perguntando.
Meu pai olhou o charuto que tirou da boca. Soprou de leve a brasa: Muitos se matam por
amor mesmo. Mas tem outros motivos, tantos motivos, uma doença sem remédio. Ou uma
dívida. Ou uma tristeza sem fim, às vezes começa a tristeza lá dentro e a dor na
gaiola do peito é maior ainda do que a dor na carne. Se a pessoa é delicada, não
agüenta e acaba indo embora! Vai embora, ele repetiu e levantou-se de repente, a cara
fechada, era o sinal: quando mudava de posição a gente já sabia que ele queria mudar de
assunto. Deu uma larga passada na varanda e apoiou-se na grade de ferro como se quisesse
examinar melhor a borboleta voejando em redor de uma rosa. Voltou-se rápido, olhando para
os lados. E abriu os braços, o charuto preso entre os dedos: Se matam até sem motivo
nenhum, um mistério, nenhum motivo! repetiu e foi saindo da varanda. Entrou na sala.
Corri atrás. Quem se mata vai pro inferno, pai? Ele apagou o charuto no cinzeiro e
voltou-se para me dar o pirulito que eu tinha esquecido em cima da mesa. O gesto me
animou, avancei mais confiante: E bicho, bicho também se mata? Tirando o lenço do bolso
ele limpou devagar as pontas dos dedos: Bicho, não, só gente.
Só gente? eu perguntei a mim mesma muitos e muitos anos depois, quando passava as
férias de dezembro numa fazenda. Atrás da casa-grande tinha uma granja e nessa granja
encontrei dois amigos inseparáveis, um galo branco e um ganso também branco mas com
suaves pinceladas cinzentas nas asas. Uma estranha amizade, pensei ao vê-los por ali,
sempre juntos. Uma estranhíssima amizade. Mas não é a minha intenção abordar agora
problemas de psicologia animal, queria contar apenas o que vi. E o que vi foi isso, dois
amigos tão próximos, tão apaixonados, ah! como conversavam em seus longos passeios,
como se entendiam na secreta linguagem de perguntas e respostas, o diálogo. Com os
intervalos de reflexão. E alguma polêmica mas com humor, não surpreendi naquela tarde o
galo rindo? Pois é, o galo. Esse perguntava com maior freqüência, a interrogação
acesa nos rápidos movimentos que fazia com a cabeça para baixo, e para os lados, E
então? O ganso respondia com certa cautela, parecia mais calmo, mais contido quando
abaixava o bico meditativo, quase repetindo os movimentos da cabeça do outro mas numa
aura de maior serenidade. Juntos, defendiam-se contra os ataques, não é preciso lembrar
que na granja travavam-se as mesmas pequenas guerrilhas da cidade logo adiante, a
competição. A intriga. A vaidade e a luta pelo poder, que luta! Essa ânsia voraz que
atiçava os grupos, acesa a vontade de ocupar um espaço maior, de excluir o concorrente,
época de eleições? E os dois amigos sempre juntos. Atentos. Eu os observava enquanto
trocavam pequenos gestos (gestos?) de generosidade nos seus infindáveis passeios pelo
terreiro, Hum! olha aqui esta minhoca, sirva-se à vontade, vamos, é sua! dizia o
galo a recuar assim de banda, a crista encrespada quase sangrando no auge da emoção. E o
ganso mais tranqüilo (um fidalgo) afastando-se todo cerimonioso, pisando nas titicas como
se pisasse em flores, Sirva-se você primeiro, agora é a sua vez! E se punham tão
hesitantes que algum frango insolente, arvorado a juiz, acabava se metendo no meio e numa
corrida desenfreada levava no bico o manjar. Mas nem o ganso com seus olhinhos
redondamente superiores nem o galo flamante nenhum dos dois parecia dar maior
atenção ao furto. Alheios aos bens terreirais, desligados das mesquinharias de uma
concorrência desleal, prosseguiam o passeio no mesmo ritmo, nem vagaroso nem apressado,
mas digno, ora, minhocas!
Grandes amigos, hem?, comentei certa manhã com o granjeiro que concordou tirando o
chapéu e rindo, Eles comem aqui na minha mão!
Foi quando achei que ambos mereciam um nome assim de acordo com suas nobres figuras, e ao
ganso, com aquele andar de pensador, as brancas mãos de penas cruzadas nas costas, dei o
nome de Platão. Ao galo, mais questionador e mais exaltado como todo discípulo, eu dei o
nome de Aristóteles.
Até que um dia (também entre os bichos, um dia) houve o grande jantar na fazenda e do
qual não participei. Ainda bem. Quando voltei vi apenas o galo Aristóteles a vagar
sozinho e completamente desarvorado, os olhinhos suplicantes na interrogação, o bico
entreaberto na ansiedade da busca, Onde, onde?!... Aproximei-me e ele me reconheceu.
Cravou em mim um olhar desesperado, Mas onde ele está?! Fiz apenas um aceno ou cheguei a
dizer-lhe que esperasse um pouco enquanto ia perguntar ao granjeiro: Mas e aquele ganso, o
amigo do galo?!
Para que prosseguir, de que valem os detalhes? Chegou um cozinheiro lá de fora, veio
ajudar na festa, começou a contar o granjeiro gaguejando de emoção. Eu tinha saído,
fui aqui na casa da minha irmã, não demorei muito mas esse tal de cozinheiro ficou
apavorado com medo de atrasar o jantar e nem me esperou, escolheu o que quis e na escolha,
acabou levando o coitado, cruzes!... Agora esse daí ficou sozinho e procurando o outro
feito tonto, só falta falar esse galo, não come nem bebe, só fica andando nessa agonia!
Mesmo quando canta de manhãzinha me representa que está rouco de tanto chorar.
Foi o banquete de Platão, pensei meio nauseada com o miserável trocadilho. Deixei de ir
à granja, era insuportável ver aquele galo definhando na busca obstinada, a crista
murcha, o olhar esvaziado. E o bico, aquele bico tão tagarela agora pálido, cerrado.
Mais alguns dias e foi encontrado morto ao lado do tanque onde o companheiro costumava se
banhar. No livro do poeta Maiakóvski (matou-se com um tiro) há um verso que serve de
epitáfio para o galo branco: Comigo viu-se doida a anatomia / sou todo um coração!
Texto extraído do livro Invenção e Memória, Editora Rocco Ltda. Rio
de Janeiro, 2000, pág. 17.
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