O Drama de Cada Dois
Leon Eliachar
Num país onde o divórcio é uma perspectiva (*) e o casamento uma falta de perspectiva,
a maioria dos casais sofre problemas os mais disparatados que nem eles próprios conseguem
resolver. Daí apelarem para o bom senso (ou falta de) dos colunistas especializados em
pôr em ordem os distúrbios neurovegetativos de cada um. Como se vê, o desespero e a
falta de preparo emocional para a convivência em comum, levam os pares humanos a pedir
conselhos a pessoas estranhas ao serviço. Essas receitas apressadas, nem sempre decidem
um destino apoiado na insensatez. No meu caso, sempre achei útil levar minha experiência
e o meu profundo conhecimento dos enguiços da alma até aqueles que precisam de um
bisturi moral. Respondo a essa gente em "curto-circuito", certo de que
encontrarão em minhas palavras um fusível para os seus casos.
CARTA:
Gostaria muito de conhecê-lo pessoalmente, é possível? (Paula, ou Paulo - Gávea)
RESPOSTA:
Levei sua carta à farmácia, pra saber se o seu nome termina com "a" ou com
"o". Não pude saber: deram-me um remédio e me mandaram tomar de duas em
duas horas.
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CARTA:
Meu marido nunca usou aliança, desde que nos casamos. (Vladmira Florianópolis)
RESPOSTA:
0 importante no casamento, Vladmira, não é que o homem use a aliança é que use
a mulher.
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CARTA:
Sempre que vou à praia, meu marido exige que eu fique deitada de costas. Resultado: estou
com a frente preta e as costas completamente brancas. O senhor acha isso normal?
(Sandrinha - Guarujá)
RESPOSTA:
Gosto não se discute, Sandrinha. Vai ver, seu marido gosta de mulher de banda branca.
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CARTA:
Meu marido deu pra ver televisão de cabeça pra baixo, preciso tomar uma providência.
(Jupira Nilópolis)
RESPOSTA:
Isso não é tão grave. Procure ver se a sua tevê está na posição certa. Se não
estiver, chame um técnico pra examinar o aparelho; se estiver, peça ao técnico pra
examinar seu marido. Há maridos que andam com a cabeça virada, às vezes é só trocar
uma válvula. Mas não deixe, em hipótese alguma, levarem seu marido pra oficina: ele
voltará pior do que estava.
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CARTA:
Minha mulher costuma receber flores quase diariamente e sempre rasga o cartãozinho sem
deixar eu ver de quem é e coloca as flores numa jarra com todo o carinho. (Augusto
Magé).
RESPOSTA:
Seja sensato: pior seria se ela rasgasse as flores e colocasse os cartõezinhos na jarra,
com carinho.
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CARTA:
Acordei sobressaltado com os gritos da minha mulher gritando "fogo! fogo".
Quando abri os olhos, havia um homem saindo pela janela. (Adalberto Barbacena)
RESPOSTA:
Então, meu caro, é fogo mesmo.
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CARTA:
Gravei o sonho do meu marido e gostaria que o senhor ouvisse. (Iracema - Santos)
RESPOSTA:
Com todo prazer. Mas de preferência quando ele estiver dormindo.
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CARTA:
Minha mulher tem ido demais ao dentista e só chega em casa de noite. Resolvi segui-la e
de fato ela estava no dentista. (Mauro - Sorocaba)
RESPOSTA:
Agora experimente seguir o dentista.
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CARTA:
Depois que meu marido comprou um automóvel nunca mais saiu de casa. (Raquel - Salvador)
RESPOSTA:
Você devia ficar feliz com isso. Pior se ele comprasse uma casa e nunca mais saísse do
automóvel.
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CARTA:
Contratei um detetive pra seguir meu marido e comecei a seguir o detetive para ver se de
fato ele seguia meu marido. Um dia encontrei o detetive batendo 0 maior papo com meu
marido. Devo contratar outro detetive? (Mabel - Petrópolis)
RESPOSTA:
0 mais prudente é contratar outro marido.
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CARTA:
Tenho sido insistentemente pedida em casamento, mas não sei se devo aceitar por causa da
diferença de idades: ele tem 42 e eu 18. (Ofélia - São João Del Rei)
RESPOSTA:
A diferença de um homem para uma mulher não é idade, Ofélia. Medite bem nisso.
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CARTA:
Minha mulher passa horas no telefone e nunca me diz com quem está falando. (Fernando
Piracicaba)
RESPOSTA:
Seja homem e tome uma atitude. Chegue perto de sua mulher e lhe diga frontalmente:
"você sabe com quem está falando? Depois, prepare-se.
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CARTA:
Em frente à minha casa, todas as noites, fica um homem de terno cinza acenando para a
minha mulher. Ela insiste em dizer que se trata de uma estátua e não posso conferir,
pois sou paralítico e ela não me leva até lá. (Zé Eduardo - Volta Redonda)
RESPOSTA:
Sua mulher é muito sensata. Já imaginou se ela o leva até lá e a estátua sai
correndo? Além de paralítico, você acabaria débil mental.
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CARTA:
Tenho medo de dormir sozinha e meu marido trabalha de noite. (Maria Clara - Copacabana)
RESPOSTA:
Ligue para uma dessas agências de empregados e peça um acompanhante. Eles têm de tudo.
Se um dia o seu marido passar a trabalhar de dia, vai ser o diabo pra se livrar do
acompanhante.
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CARTA:
Peguei um trem e só quando cheguei em casa foi que reparei que dentro da minha capa havia
um homem. (Arnalda - Engenho de Dentro)
RESPOSTA:
E o que foi que você fez: botou a capa no armário, com homem e tudo, ou guardou só a
capa? Esse detalhe, embora não pareça, é muito importante para ajudá-la.
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CARTA:
Durante o noivado, minha noiva fazia questão de levar um primo para todos as nossos
programas. Agora, que nos casamos, ela faz questão que ele venha morar conosco, pois o
coitadinho é órfão. Que acha disso? (Orfeu - Taubaté)
RESPOSTA:
Depende do tamanho do primo. Se for pequenininho, acho que vai dar muito trabalho a ela.
Se for grandinho, vai dar muito trabalho a você.
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CARTA:
Há vários anos que meu marido não me dá um par de sapatos, no entanto troca de carro
todos os anos. (Ariana - Teresópolis).
RESPOSTA:
Há maridos que custam a se decidir, minha cara. A mulher deve ter paciência. Agüente a
mão, ou melhor, agüente o pé.
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CARTA:
Minha mulher deu pra desconfiar de mim, logo agora que vamos completar cinqüenta e seis
anos de casados. (Luis Jorge Encantado)
RESPOSTA:
Já desconfia tarde.
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CARTA:
Meu psicanalista está doido, disse que eu precisava me casar com um psicanalista e
acontece que já sou casada com um psicanalista, que é justamente ele. (Beatriz -
Niterói)
RESPOSTA:
Então ele demonstrou ser um ótimo psicanalista e um péssimo fisionomista.
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CARTA:
Meu farmacêutico é anão e toda vez que vem me dar injeção, meu marido proíbe. Acha
que eu seria capaz de simpatizar com um anão? (Florilda - Recife)
RESPOSTA:
Não acredito que seu marido tenha alguma coisa contra o anão. Talvez seja porque ele, ao
aplicar a injeção, não alcance o seu braço.
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CARTA:
Todas as manhãs, quando abro o armário, meu terno marrom sai andando e pega o elevador.
(Alcinó - Espírito Santo)
RESPOSTA:
Por enquanto, não há perigo. Chato vai ser quando seu terno marrom sair e voltar azul.
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CARTA:
Passei três meses viajando pra esquecer um homem e agora não me lembro mais quem é ele.
(Harilda - Pelotas)
RESPOSTA:
Faça outra viagem pra ver se se lembra.
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CARTA:
Os vestidos de minha mulher encolheram e ela não manda fazer outros, fica com o busto de
fora e não pode sentar sem mostrar os joelhos. E quer me convencer que está na moda.
(Pedrinho - Brasília)
RESPOSTA:
De uma certa forma, sua mulher está com a razão: busto e joelho de mulher não caem
nunca da moda, pelo menos enquanto não completam cinqüenta anos.
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CARTA:
Sempre que vou ao cinema com minha mulher, ela senta em cima e eu embaixo. O senhor acha
isso normal? (Alfredo - São Paulo)
RESPOSTA:
Absolutamente, acho isso ridículo. E os vaga-lumes, não dizem nada? Se sua mulher é
muita pesada, o lógico seria você sentar em cima.
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CARTA:
Meu marido passa as noites escrevendo o seu diário. Mas isso é o de menos, o pior é que
costuma escrever com um garfo. (Ira - Rio)
RESPOSTA:
Consulte um garfologista.
(*) Na época em que foi escrito este texto, o
divórcio era só uma perspectiva. (N. do Releituras)
O texto acima (parte) foi extraído do livro "O Homem ao Cubo", José
Álvaro, Editor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 96.
Conheça a vida e a obra de Leon Eliachar visitando "Biografias".
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