Contos

Leon Eliachar

O Judeu


Faltavam apenas 6 cruzeiros e 50 centavos para ele descer do taxi. Já eram 800 cruzeiros da noite e ele ainda não havia feito um bom negócio. Entrou num restaurante e comeu 180 cruzeiros; tomou 1 cruzeiro de café e saiu 10 % mais tarde. Na rua encontrou uma belíssima mulher, trajada com 48 mil cruzeiros de jóias. Há mais de 2 milhões de cruzeiros que não via uma mulher tão elegante. Convidou-a para um cinema.  Ela regateou um pouco, mas por fim cedeu. Sentaram-se primeiro numa confeitaria e bateram um papo de 250 cruzeiros. Depois assistiram a 72 cruzeiros de CinemaScope: namoraram 36 cruzeiros de entrada e o resto a longo prazo. Um dia, decorridos 185 mil cruzeiros de vida em comum -- terminaram tudo, à vista.


O Encontro


O telefone tocou, ele atendeu, marcaram encontro. Fez a barba, tomou banho, vestiu-se. Há uma semana que não via a noiva e hoje era domingo, dia de ir ao cinema com ela. Apertou o botão, esperou o elevador, desceu, alcançou a rua e foi esperar o bonde. Fez baldeação e chegou lá duas horas depois. Meyer. Ainda teve de esperar 40 minutos para que ela acabasse de se arrumar. Sua futura sogra serviu-lhe um cafezinho na varanda, seu futuro sogro conversou com ele sobre a situação internacional, depois leu um jornal, depois ela apareceu. Saíram apressados. O cinema era logo ali na esquina.  Foram correndo. Ele entrou na fila e ela ficou esperando perto da portaria. 38 minutos depois ele apareceu com os ingressos na mão. Entraram. No salão escuro o vagalume indicou: "um lugar". Ela então correu e sentou.


Violência


Segurou a moça pelo braço e fê-la deitar-se. Depois deu-lhe vários puxões no pescoço. Ela gritou. Ele não teve a menor reação. Passou a dar-lhe tapas no rosto. Ela tentou retirar-se, mas ele segurou-a violentamente e colocou-a de costas. Puxou-lhe as pernas, os braços, e começou a dar-lhe socos nas costas. Depois de algum tempo, disse apenas:

— Agora pode ir.

Era massagista.


Leon Eliachar
já participa há tempos do Releituras. Seus livros foram avançadíssimos para a época em que foram lançados, combinando de forma fenomenal os textos com capas e desenhos de Cyro Del Nero, Fortuna, Gian e Juarez Machado. Leiam "O Homem ao Zero", "O Homem ao Cubo", "O Homem ao Quadrado" (de onde extraímos os contos acima), Livraria Francisco Alves Editora - Rio de Janeiro, 1960, págs. 18, 21, 22, "A Mulher em Flagrante" e "10 em Humor".

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