As donas do boteco

Leonardo Brasiliense


A senhora gorda fazendo croch?atrás do balcão chama-se Adélia. Ela cresceu como suas irmãs, brincou de mãezinha at?os nove, depois foi ajudar na roça. No fim de semana, ajudava a matar a galinha e depen?la. Era sorridente, admirava o padre, e estremeceu nos ossinhos ao receber dele a primeira comunhão, num domingo diferente de todos os outros da sua vida, a passada e a futura. As irmãs casaram e, como a mãe, construíram cada uma seu império. Mas Adélia não. Foi sempre submissa ao marido, nem aos filhos soube se impor. Sua filha Inês ?que recuperou a tradição da família. Casou-se com um rapaz aparentemente sem futuro. Advertiram-na disso, mas ela tinha planos, precisava apenas da mão-de-obra. Hoje, eles têm essa lancheria na esquina. O marido, Giácomo, passa o dia sentado a uma mesa de plástico, olhando a TV suspensa na parede. E dona Adélia, atrás do balcão, fica ali fazendo croch? também d?uma olhada na TV e troca uns comentários com o genro e com algum raro freguês.

A menina que entra saltitante ?sua neta mais nova. Acabou de se despedir das amigas, na esquina, e marcaram de se encontrar ?noite, antes da festa ?fantasia que agita a cidadezinha todo ano. Seu nome ?Maria Inês, proveniente do nome da mãe, que por sua vez o recebeu em homenagem ?santa. Mas a menina ignora tal responsabilidade indireta. Marcou de se encontrar com as amigas antes da festa para se embriagarem, porque, sóbria, ela não teria coragem de fazer o que planeja para esta noite. Cumprimenta o pai e a av? Eles se olham desconfiados com tanta alegria. A menina sobe direto ao quarto, onde a irm? mais velha est?deitada, de bruços, enterrada no travesseiro. Maria Inês olha para ela e não fala nada. Abre o guarda-roupas e tira dele sua fantasia, um vestido de Branca de Neve. Estende-o sobre a cama. H?outra parte da fantasia na casa da amiga onde vão se encontrar. ?uma cinta-liga preta, a calcinha quase fio-dental, muito fininha, de renda.

— Essa menina cresceu — diz o freguês, olhando para fora.

Ele vem quase todos os dias. ?um apontador, faz jogo do bicho de casa em casa e por essa hora d?uma passada ali para o martelinho.

Como j?faz uns minutos que a menina passou por eles, Giácomo, o pai, troca um olhar incomodado com a av? dona Adélia. Ela d?de ombros, como quem diz “a filha ? tua, defende”. Giácomo volta a se concentrar na TV, e o apontador, ao seu silêncio, contemplando a rua. Passa um fusca soltando foguetes pelo escapamento, e a fumaça toma conta do boteco. Os três se abanam. Dona Adélia tosse. Giácomo abre a persiana lateral e, quando est?voltando ?mesa, ouve do freguês:

— Que idade ela tem mesmo?

Giácomo pára na frente dele, com uma cara que não ?de raiva nem de reprovação, mas de quem não sabe o que dizer ou fazer. Giácomo ?alto, meio gordo e meio corcunda. Em p? ele olha para o outro e suspira.

— Me ajudem aqui — chama a esposa, Inês, que chega do mercado carregada de sacolas.

Giácomo vai socorrer, levam as compras ?cozinha.

— A Maria Inês t?crescendo — ele diz.

— Deixa a Maria Inês comigo — a mãe responde, guardando os enlatados, ervilhas, milhos e seletas da qualidade mais econômica.

O pai balança a cabeça e suspira:

— A freguesia t?reparando, mãe.

— Deixa comigo, eu j?falei, e vai guardar as batatas l?atrás.

Giácomo sai balançando a cabeça, rumo ?pequena despensa dos fundos. Inês pára de guardar as latas e olha para cima, como se, através do forro, pudesse ver o quarto das filhas.

— Deixa estar — fala sozinha —, deixa estar, que ela me paga.

Maria Inês foi ao banho. No quarto, est?apenas a mais velha, Cecília, deitada de bruços, agora chorando francamente. Cecília s?chora quando est?sozinha. Perto dos outros, por íntimos que sejam, ela se segura. ?uma menina forte, talvez uma futura matriarca. Debaixo do travesseiro, tem um exame de gravidez.

A irm?volta do banho, volta cantarolando.

— Eu j?te falei pra não ficar assim — ela diz. Cantarola mais um pouco e senta na cama de Cecília, fazendo-lhe cafun? — Ele não merece.

“Ele” ?o Carlinhos. Tem um carro com ar-condicionado e faz faculdade – Cecília est?no terceiro ano do ensino médio, e Maria Inês, no segundo. Tem cabelo cacheado e loiro, o anjinho, olhos verdes e lábios grossos. Vem quase todo fim de semana ?cidade e atrai um bolo de meninas e meninos ao seu redor na boate. As meninas por razões evidentes, e os meninos curiosos pela metrópole, se ?verdade que l?as gurias dão sem culpa, as universitárias. Mente muito, o anjinho, no que faz bem, agrada a todos. E na medida do possível, a todas.

Cecília e ele saíram juntos da boate no mês passado. Eram três da manh? e Carlinhos arranjara emprestada a casa de um amigo seu cujos pais viajavam. Era a primeira vez que Cecília ficava a sós com ele, e no caminho, depois de três ou quatro frases, descobriu que se tratava de um parvo.

— Ele não merece — a irm?repete. E ainda lhe fazendo cafun? — Fica triste não, maninha.

Cecília odeia ser chamada de maninha. ?como os pais a chamam desde que a outra nasceu. E da boca de Maria Inês, um evidente deboche.

Embaixo, na cozinha, a mãe frita pastel. Grita a Giácomo que v?l?em cima e chame a mais nova.

— Tem cliente — ele responde.

— Esse bebum vem todo dia.

— Não fala assim, que ele ouve.

— Melhor que ouça, o bebum — ela termina mais alto, salientando o “bebum”.

— Vai l?em cima e chama essa sirigaita.

Giácomo suspira, baixando os ombros, e sobe as escadas.

— Hoje voc?não vai a festa nenhuma.

— Ai, mãe...

— Não tem nada de ai.

— Mas eu marquei com as gurias.

— Eu sei bem o que tu marcou com as gurias. Encontrei a mãe da Gildinha no mercado, e ela me disse timtim por timtim o que vocês marcaram. E se tu acha que me engana, tu não me engana, menina...

A fritura est?passando do ponto. Inês interrompe o sermão para tirar os pastéis do óleo e coloc?los numa travessa com papel toalha.

— Ninguém me engana.

A cabeça de Maria Inês arde. Tem raiva de sua mãe, sempre controlando a vida de todos, das filhas, do marido, da própria mãe. Tem raiva da Gildinha, a traidora. Tem raiva do mundo, do mundo inteiro e de todos que nele vivem... menos do Carlinhos, que marcou de encontr?la na festa a fantasia, pensando que marcava com Cecília. Foram dois e-mails se fazendo passar pela irm? e j?descobriu que se tratava de um parvo. Avisou-lhe que estaria de Branca de Neve. Ela e Cecília eram bastante parecidas: com a peruca e a maquiagem, mais as luzes trepidantes da boate, o som alto, a cerveja, Carlinhos não perceberia a troca, e mesmo que percebesse, era capaz de gostar e fingir que não. No último e-mail, Maria Inês perguntou se por baixo ele preferia nada ou cinta-liga.

— O que a mãe da Gildinha te disse?

— Não me vem atirando verde pra colher maduro — sua mãe ?rápida, anos de experiência no gerenciamento familiar.


Inês casou cedo, cedo para os padrões de hoje: quatorze anos. Tinha um mal-estar por viver entre o pai beberrão, a mãe fraca, os irmãos imbecis. Necessitava da própria vida, a de então não servia. Moravam no interior, plantavam, colhiam, vendiam e aquilo era sem saída; o relevo do minifúndio, na serra, contribuía para o sufoco. Inês acordava de manh? abria a janela do quarto e s?enxergava muito perto, isso a deixava sem ar. O pai, a mãe e os irmãos saíam para a plantação e ela ficava encarregada de limpar a casa e fazer o almoço. Ficava sozinha, tinha tempo, e muito, para pensar enquanto repetia os afazeres mecânicos, e realmente pensava muito.

Num belo domingo, vieram os tios e os primos para um aniversário. A prima mais velha trouxe o namorado. O rapaz, tímido, ficou na sua timidez, sem chamar atenção, sorriu das anedotas, calou-se durante a fofoca sobre os parentes, apertou a mão de todos na despedida. Penteava o cabelo ao modo antigo, e depois que foi embora, os de casa comentavam que a prima não tinha futuro, porque se casaria com um jovem sem futuro. De fato, a prima se preocupava mais com os bordados. Inês, ao contrário, tinha planos maiores, e naquele domingo viu uma saída. Na próxima visita ?cidade, com um pretexto qualquer, foi ?loja de secos e molhados onde Giácomo, o namorado da prima, era vendedor.


— Mãe, a senhora acha que eu ia lhe esconder alguma coisa?

— T?me chamando de burra, Maria Inês?

— Então o que foi que a mãe da Gildinha lhe disse? Ela pode ter mentido!

— Olha bem na minha cara, guria.

Maria Inês evita olhar. Pensa que a mãe est?blefando, mas precisa saber, precisa ter certeza para virar o jogo.

— Olha pra mim — Inês repete.

— Mãe, o tempo passa, e se eu não for ?festa este ano, daqui a pouco eu não...

— Eu não quero mais ouvir essa história de que o mundo vai acabar amanh?

— Mas a senhora nunca teve a minha idade?

— Não, nunca tive.

No boteco, o cliente pede que dona Adélia anote na caderneta e vai embora. Giácomo baixa o volume da televisão.

— Ser?que ele ouviu a briga? — dona Adélia pergunta.

Giácomo ergue os ombros e suspira, olhando para a cozinha:

— Acho que elas acabaram.

— A Inês nunca foi fácil — diz a sogra, ajeitando seu corpanzil sobre o banco alto —, nunca, desde criancinha, era tudo do jeito dela. Sempre se governou e quis mandar nos outros.

O genro não diz nada, não h?o que acrescentar. Olha para dona Adélia e para fora, o olhar inexpressivo:

— Vai chover.

A sogra larga o croch?no balcão, inclina-se também ?porta. O ar est?laranja, o céu, fechado, e não passa ninguém, calmaria estranha.

— Est?na hora do Paulino — ela divaga.

Paulino era um cliente assíduo e pontual que morreu de cirrose h?um mês. Dona Adélia tira do refrigerador uma garrafa de vinho tinto. Giácomo senta-se junto dela, no balcão. Ela serve dois copos.

Eles brindam:

— Ao Paulino.

— Ao Paulino, que Deus o tenha.

— Amém.

Giácomo ri:

— Lembra aquela vez que a mulher dele veio aqui e nos encheu de desaforo? Ela arrastou o coitado pelos cabelos. Se eu tivesse uma mulher daquelas, teria uma cirrose também — e instintivamente coça o saco. Ao se dar por conta, olha constrangido para a sogra.

Ela o recrimina com um gesto, não dizendo o que sempre diz; ele j?sabe o que ? “tu precisa perder essa mania de coçar o saco”. Nas primeiras vezes, Giácomo retrucava que era homem, e todo homem faz isso, “?sem querer”. Depois não se defendia mais, s?ficava constrangido, como agora. Os dois bebem o vinho, olhando para a rua.

— Uma figura, o Paulino — diz o genro.

Dona Adélia concorda rindo. Giácomo também ri. Leva a mão para baixo, mas se d? conta, e esfrega a barriga.


Cecília e Carlinhos entraram na casa do amigo dele sem ligar as luzes. As venezianas e a lua cheia lhes permitiam enxergar tudo; deixavam a pele de Cecília com um tom convidativo. Olharam para o sof?da sala, pequeno, olharam-se e, sem combinação verbal, subiram as escadas. O quarto do amigo tinha cama de solteiro. Rumaram ao quarto dos pais.

— Eu nunca fiz isto — ela disse.

O rapaz não disfarçou o susto, mas nada respondeu. Pegando-lhe a mão, levou-a ?cama. Era um parvo, mas sensível. Ficaram de frente um ao outro, em posição de lótus. Ela tremia. Ele a beijou de leve na testa, na ponta do nariz, mais leve ainda nos lábios. Foram momentos de ternura, e quando os pais do amigo voltaram da viagem, dali a uma semana, e viram a pequena mancha de sangue nos lençóis, sentiram-se aliviados, com certo orgulho do filho.


Maria Inês volta ao quarto e se atira na cama. Cecília nem pergunta o que houve. Conhece a família o suficiente para deduzir, e não se interessa.

— Eu fujo pela janela — Maria Inês balbucia. — Fujo e não volto nunca mais.

Na cozinha, Inês faz o guisado para os pastéis de amanh? Ela e o moedor de carne são um corpo s? uma máquina poderosa.

— Essa guria me paga — ela fica repetindo para si. — Me paga, e a maninha também.

Nada escapa da matriarca. ?seu direito e seu fim levar a família no caminho certo. Alguém precisa faz?lo.

— E se as gurias pensam que podem mais do que eu...

No boteco, Giácomo e Dona Adélia contemplam os últimos raios de sol. O televisor est? mudo.

— A coisa t?muito quieta l?dentro — a senhora comenta.

— Quieta demais — diz o genro.

O diálogo ?sem tirar os olhos da rua, do ar amarelado que vem da rua.

Giácomo suspira, caindo os ombros:

— Mas eu não vou me meter.

— Nem eu — acrescenta a senhora. E depois de uma pausa: — Se bem que tu ? pai e marido.

Ele não fala, s?olha para a sogra e suspira.

— Eu fujo e esqueço essa gente — Maria Inês continua esbravejando, de bruços, enterrada no travesseiro.

Lembra a cinta-liga e a calcinha de renda esperando na casa da Gilda, a traidora, lembra a festa ?fantasia esperando-a, o anjinho de cabelos encaracolados, idiota mas lindo.

Cecília, na mesma posição, também chora, e segura embaixo do travesseiro o exame de gravidez. Negativo.


Leonardo Brasiliense, nascido em São Gabriel(RS), formou-se em Medicina na Universidade Federal de Santa Maria e atualmente trabalha na Receita Federal. ?autor dos livros O desejo da Psicanálise (Sulina, 1999), Meu sonho acaba tarde (WS Editor, 2000), Desatino (Sulina, 2002), Adeus conto de fadas (7 Letras, 2006, Prêmio Jabuti de Melhor Livro Juvenil em 2007) e Olhos de morcego (Ed.7 Letras, Prêmio Livro do Ano 2008 da Associação Gaúcha de Escritores, categoria "Conto").


O texto acima foi extraído do livro Olhos de morcego (Rio de Janeiro, 7 Letras, 2007).

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